Bucha de canhão: Quem são os curdos na fronteira que aguardam telefonema de Washington para invadir o Irã
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Grupos curdos iranianos baseados no norte do Iraque afirmaram que estão se preparando para uma possível operação militar transfronteiriça contra o Irã. Dirigentes curdos declararam à agência Associated Press esta semana que autoridades estadunidenses os procuraram para discutir apoio a uma eventual ofensiva. Parte das forças teria sido deslocada para áreas próximas à fronteira iraniana, na província iraquiana de Sulaymaniyah. Caso se concretize, a entrada formal desses grupos no confronto pode abrir uma frente terrestre direta contra Teerã.
Segundo a Reuters e a Associated Press, os grupos curdos dissidentes são considerados o segmento mais organizado da fragmentada oposição iraniana e dispõem de milhares de combatentes treinados. Khalil Nadiri, dirigente do Partido da Liberdade do Curdistão (PAK), sediado na região curda semiautônoma do norte do Iraque, afirmou que unidades do grupo foram posicionadas perto da fronteira e permanecem “em espera”. Ele declarou que líderes curdos foram contatados por autoridades estadunidenses sobre uma “operação potencial”, sem detalhar os termos da proposta.

Partî Azadîyê Kurdistan
O Partî Azadîyê Kurdistan (PAK) é uma organização política e militar curda que defende a independência do Curdistão e atua principalmente no norte do Iraque. Fundado em 1991, o grupo mantém presença armada e política na Região do Curdistão iraquiano, onde busca consolidar um projeto nacional próprio. Diferentemente de outras organizações curdas, o PAK mantém posição abertamente pró-Ocidente e favorável à cooperação militar com os Estados Unidos. A organização também defende a criação de um Estado curdo soberano que reúna territórios atualmente divididos entre Irã, Iraque, Síria e Turquia. Nos últimos anos, o partido ganhou visibilidade ao treinar e mobilizar combatentes na fronteira entre o Curdistão iraquiano e o território iraniano.
O Partî Azadîyê Kurdistan surgiu no início da década de 1990, após o enfraquecimento do controle do regime de Saddam Hussein sobre o norte do Iraque após a Guerra do Golfo. Desde então, a organização estabeleceu bases na região montanhosa próxima à fronteira com o Irã, mantendo uma estrutura político-militar que combina atividade partidária com forças armadas próprias.
O PAK é liderado por Hussein Yazdanpanah, figura conhecida no cenário político curdo por sua posição fortemente nacionalista e por sua defesa explícita da independência curda. Ao longo dos anos, Yazdanpanah tem defendido a criação de um Estado curdo unificado que inclua regiões curdas no Irã, Iraque, Síria e Turquia, objetivo compartilhado por várias correntes do nacionalismo curdo, mas perseguido por meios diferentes entre as organizações.
Uma das principais diferenças entre o PAK e outras facções curdas está na sua orientação geopolítica. Enquanto o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) — fundado em 1978 por Abdullah Öcalan — adota uma ideologia inspirada no confederalismo democrático e historicamente teve relações tensas com governos ocidentais, o PAK mantém relações abertamente favoráveis à cooperação com Washington.
Essa diferença se tornou mais visível após a guerra contra o Estado Islâmico no Iraque e na Síria, entre 2014 e 2019. Durante esse período, combatentes ligados ao PAK participaram de operações militares contra o grupo jihadista e receberam treinamento e apoio de forças militares estadunidenses e da coalizão internacional que atuava na região.
No cenário político curdo do Iraque, o PAK também se diferencia dos dois principais partidos dominantes da região: o Partido Democrático do Curdistão (KDP), liderado pela família Barzani, e a União Patriótica do Curdistão (PUK), historicamente associada à família Talabani. Esses dois partidos controlam grande parte da administração da Região Autônoma do Curdistão e mantêm estruturas militares próprias conhecidas como Peshmerga.
Enquanto KDP e PUK concentram sua atuação dentro das instituições da autonomia curda reconhecida pelo governo central iraquiano, o PAK mantém um discurso mais voltado para a expansão da luta nacional curda além das fronteiras do Iraque, com foco particular nas regiões curdas do Irã.
O partido afirma que sua prioridade estratégica é apoiar a mobilização curda dentro do território iraniano, onde milhões de curdos vivem nas províncias de Kermanshah, Kurdistão e Azerbaijão Ocidental. Para isso, mantém campos de treinamento e unidades armadas posicionadas em áreas próximas à fronteira iraniana.
A existência dessas bases militares tem gerado tensões frequentes com o governo de Teerã, que acusa organizações curdas armadas de promover atividades insurgentes e operações de sabotagem dentro de seu território. Em resposta, forças iranianas realizaram ao longo dos anos operações militares e bombardeios contra posições de grupos curdos na região fronteiriça do norte do Iraque.
Internamente, o PAK se apresenta como uma organização nacionalista que defende a independência completa do Curdistão e a formação de um Estado soberano curdo. Em seus documentos políticos, o partido afirma que o atual mapa político do Oriente Médio — definido após a Primeira Guerra Mundial e consolidado por acordos como o Sykes-Picot — fragmentou artificialmente o povo curdo entre quatro Estados.
Essa divisão territorial, segundo a organização, teria impedido a consolidação de um Estado nacional curdo apesar da existência de uma população estimada entre 30 e 40 milhões de pessoas espalhadas por Irã, Iraque, Turquia e Síria.
A atuação do PAK, porém, continua limitada em comparação com as principais forças políticas curdas da região. O partido não controla grandes territórios nem possui influência dominante nas instituições da Região Autônoma do Curdistão iraquiano, onde KDP e PUK continuam sendo as forças políticas predominantes.
Ainda assim, o grupo mantém presença militar e política ativa e continua promovendo seu projeto de independência curda em um cenário regional marcado por rivalidades geopolíticas, disputas territoriais e intervenções externas que há décadas moldam o destino do povo curdo no Oriente Médio.
A Bucha de Canhão curda
Questionado sobre informações de que a administração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, avaliaria armar grupos curdos iranianos, o secretário de Defesa estadunidense, Pete Hegseth, afirmou a jornalistas:
“Nenhum dos nossos objetivos se baseia no apoio ou no armamento de qualquer força em particular. Portanto, o que outras entidades possam estar a fazer, temos conhecimento, mas os nossos objetivos não se centram nisso.” A declaração evita confirmação direta, mas não desmente os contatos políticos relatados.
A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, confirmou que Trump conversou com líderes curdos “no que diz respeito à nossa base que temos no norte do Iraque”, negando, porém, que o presidente tenha aprovado “um plano específico” de apoio militar. Em comunicado, a União Patriótica do Curdistão (PUK) informou que Bafel Talabani manteve conversa telefônica com Trump, que teria apresentado “esclarecimentos e a visão sobre os objetivos dos EUA na guerra”, acrescentando que o partido defende “um regresso à mesa de negociações”.
Antes dos bombardeios de sábado passado conduzidos por Estados Unidos e Israel contra o Irã, o PAK reivindicou ataques contra o Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica como retaliação à repressão aos protestos internos. Um dirigente do grupo afirmou, contudo, que não houve envio formal de forças do território iraquiano para o interior iraniano até o momento.
Um representante da Komala, outro grupo curdo iraniano, declarou que suas forças estão prontas para cruzar a fronteira “dentro de uma a duas semanas”. Caso curdos iranianos e iraquianos avancem conjuntamente, será a primeira participação relevante de uma força terrestre organizada no atual cenário militar. Esses grupos acumulam experiência de combate desde a luta contra o Estado Islâmico na década passada.
Autoridades curdas no Iraque demonstram preocupação com possíveis retaliações iranianas. Nos últimos dias, a região curda foi alvo de ataques com drones e mísseis atribuídos ao Irã e a milícias iraquianas aliadas, atingindo bases militares estadunidenses, o consulado estadunidense em Erbil e posições associadas a grupos curdos. Embora a maioria dos projéteis tenha sido interceptada, residências civis sofreram danos e um importante campo de gás interrompeu operações por razões de segurança, provocando cortes de energia.
Em 2023, Bagdá firmou acordo com Teerã para desarmar grupos curdos iranianos e transferi-los de áreas próximas à fronteira para campos designados pelo governo iraquiano. As bases militares foram fechadas e a circulação dos combatentes passou a ser restrita, mas as organizações não entregaram suas armas. A reativação de movimentações militares na fronteira indica que o equilíbrio estabelecido há três anos pode estar sendo tensionado por uma nova etapa de envolvimento indireto estadunidense no tabuleiro regional.

























