Iêmen vira tabuleiro imperial enquanto Riad e Abu Dhabi disputam despojos
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O Iêmen voltou ao centro de um confronto imperial mais amplo, marcado pela fragmentação da antiga coalizão saudita-emiradense e pela intensificação da ingerência externa. Ataques aéreos sauditas a portos do sul e exigências para a retirada de forças dos Emirados Árabes Unidos escancararam a disputa por territórios estratégicos próximos à fronteira saudita. Para Ali al-Imad, dirigente do Ansar Allah, a guerra real não é entre monarquias do Golfo, mas contra a vontade do povo iemenita. Segundo ele, o conflito é “cuidadosamente orquestrado” fora da Península Arábica.

A ruptura entre Riad e Abu Dhabi tornou-se visível após a ofensiva saudita para retomar áreas de Hadramaute e Al-Mahra controladas pelo Conselho de Transição do Sul (STC), força apoiada pelos Emirados Árabes Unidos. No processo, a Arábia Saudita removeu Aidarus al-Zubaidi do Conselho de Liderança Presidencial do Iêmen e acusou Abu Dhabi de tê-lo contrabandeado para fora do país.
Na entrevista ao The Cradle, Ali al-Imad, chefe da Organização Central de Controle e Auditoria do Iêmen e integrante do gabinete político do Ansar Allah, atribuiu a escalada ao eixo formado por Estados Unidos e Israel.
“O que estamos testemunhando é um conflito cuidadosamente orquestrado pelo sionismo global através dos EUA e de Israel, usando seus aliados regionais”, afirmou, acrescentando que a constante é a “submissão contínua do Golfo às decisões dos EUA”.
Para ele, enquanto Riad afirma combater o Ansar Allah, líderes do STC declaram ter Sanaa como alvo direto.
Imad também desmontou a narrativa de retirada dos Emirados Árabes Unidos anunciada em 2019. “Foi puramente cosmética. Eles nunca foram embora”, disse, citando a permanência de comandantes militares, redes de inteligência, prisões, mercenários e forças de elite operando com apoio estadunidense. Segundo o dirigente, a presença emiradense permanece especialmente nas ilhas e zonas costeiras estratégicas, áreas nas quais Washington não admite recuo.
Sobre as negociações com a Arábia Saudita, Imad afirmou que o processo está paralisado há quase dois anos, com exceção de avanços pontuais na troca de prisioneiros. “Riad se recusa a cumprir seus compromissos e aposta em bloqueios e pressão econômica para arrancar concessões”, declarou, acrescentando que não há disposição para aceitar lideranças impostas de fora. Ele alertou que dados de inteligência e declarações israelenses apontam para preparação de uma nova escalada militar, e não para um acordo político.
O dirigente do Ansar Allah vinculou essa postura à leitura saudita de que teria saído fortalecida após o genocídio em Gaza, avaliação que classificou como ilusória. “Nada mudou. A hostilidade persiste, e o reino continua sendo um centro de espionagem”, afirmou, descrevendo a Arábia Saudita como instrumento de um projeto ocidental de caos, no qual iniciativas econômicas funcionam apenas como “anestésicos”.
Questionado sobre uma eventual nova ofensiva, Imad foi direto ao atribuir a responsabilidade à Arábia Saudita, independentemente da facção local utilizada. Citando Abdul Malik al-Houthi, declarou:
“Atacaremos bancos por bancos, o aeroporto de Riad por aeroporto de Sanaa e portos por portos”, caso a via política seja definitivamente bloqueada.

Imad também detalhou a atuação de serviços de inteligência estadunidenses e britânicos, afirmando que foram desmanteladas dez redes de espionagem, três já tornadas públicas, algumas infiltradas em organizações não governamentais ligadas à ONU. “Existe um dossiê enorme que ainda não divulgamos integralmente à imprensa”, disse, apontando Riad como centro de comando dessas operações.
No Mar Vermelho, o dirigente denunciou os planos israelenses como parte de um projeto regional de longo prazo. Segundo ele, o reconhecimento da Somalilândia e a presença militar na Eritreia, em coordenação com os Emirados Árabes Unidos, funcionam como plataformas para futuras guerras, integradas ao desenho do chamado “Novo Oriente Médio” patrocinado por Washington.
Ao encerrar, Imad reiterou a centralidade da unidade das frentes do Eixo da Resistência e enviou um recado direto aos vizinhos do Iêmen. “Apostar nos EUA ou em Israel é uma ilusão mortal”, afirmou, citando Gaza, Iraque e Afeganistão como exemplos. Para ele, enquanto Sanaa resiste, outros países da região estão sendo preparados para se tornarem “presas fáceis” de um projeto imperial que, segundo advertiu, não tem o Iêmen como alvo final.









































