

Taksim, após o atentado terrorista
27 de mai. de 2024
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Em novembro do ano passado, um ataque a bomba ceifou a vida de seis pessoas e deixou mais de oitenta feridos em uma das ruas mais movimentadas de Istambul. Poucos meses após o atentado, lá estávamos nós, caminhando pela praça Taksim e pela tumultuada rua Istiklal.

Estamos hospedados no bairro de Karaköy, local com a maior concentração de turistas em Istambul. A rua Istiklal liga nosso bairro à praça Taksim, no bairro de Beyoglu. Devo admitir que esperava encontrar o lugar vazio devido ao ataque; ao contrário, estava lotado de turcos e turistas estrangeiros.
Lamentavelmente, não foi a primeira vez que um ataque como esse aconteceu por aqui. Em 2010, um terrorista suicida do grupo Falcões da Liberdade do Curdistão (TAK) explodiu-se ao lado de um ônibus da polícia, ferindo 15 policiais e 17 civis. Outro atentado ocorreu em março de 2016; um homem-bomba matou diversos turistas na mesma rua – ataque então reivindicado pelo grupo fundamentalista Estado Islâmico (ISIS ou Daesh).
É complicado entender ou falar sobre terrorismo de maneira tão superficial, visto que existe muito preconceito e desinformação sobre o assunto. Vale ressaltar que Estado Islâmico é uma organização terrorista que não representa os muçulmanos, sejam eles do Oriente Médio ou de qualquer outra parte do mundo. O grupo apenas se apropriou do termo “islâmico” como pretexto, exatamente como terroristas bolsonaristas se autoproclamam “patriotas” para atacar a democracia brasileira. Terrorismo e islamismo não são sinônimos, muito pelo contrário. Os turcos, majoritariamente muçulmanos, se orgulham e insistem em manter e cobrar que o regime seja laico e secular, bem como Atatürk, o “Pai dos turcos”, prometeu desde a independência, afirmando que: “A religião é uma instituição importante. Uma nação sem religião não pode sobreviver. No entanto, também é muito importante observar que a religião é um elo entre Allah e o crente individual.” Kemal Atatürk
Tão é o senso de laicidade turca que cito um exemplo: logo ao chegarmos na praça, fomos conhecer a Mesquita Taksim. Inaugurada em 2021 em cerimônia que contou com a presença do presidente Recep Tayyip Erdoğan. O plano de construção do complexo religioso foi pauta de discussão desde a década de 1950. Várias vezes o projeto foi abandonado. Os turcos, mesmo muçulmanos, se opuseram à construção devido ao fato de a praça Taksim ser ligada à história de republicanismo e secularismo na Turquia. No entanto, o Conselho de Preservação de Monumentos Culturais eventualmente venceu a disputa; em 2017, a obra teve início.
A Mesquita Taksim não foi a única construção que a vontade popular tentou barrar. A Mesquita de Çamlica, no lado asiático da cidade, teve uma história parecida, concluída apenas em 2019 para então se tornar a maior mesquita do país.
Voltando aos atentados terroristas, uma onda de ataques abalou as metrópoles turcas entre 2015 e 2017, causando mais de 500 mortes. Em 2015, um carro-bomba explodiu nas ruas da capital Ancara; em 2016, foi a vez do aeroporto internacional de Istambul. Na mesma cidade, durante uma festa no réveillon de 2017, uma bomba explodiu em uma discoteca.
Esperávamos que o ataque de novembro tivesse espantado os turistas ou, no mínimo, incitado maior controle da polícia em áreas não islâmicas, como a Igreja de Santo Antônio, que visitamos mais tarde. Contudo, a vida segue como se nada tivesse acontecido. Havia, de fato, certo contingente policial, mas nada que espantasse dois brasileiros.
Dias após o atentado no fim do ano anterior, as autoridades turcas prenderam uma mulher e outros suspeitos do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) – designado “terrorista” pelo regime turco. Autoridades proibiram a publicação de imagens e artigos sobre o assunto e limitaram a banda das redes sociais para “impedir a propagação de imagens chocantes e de informação falsa”. Erdoğan prometeu “punir os responsáveis”. Não obstante, Istiklal e Taksim contam com vasto aparato de vigilância e força policial 24 horas, o que facilitou encontrar os suspeitos.
Andar pela área me fez pensar na maneira com que o governo brasileiro tem tratado terroristas bolsonaristas. Toda pessoa tem direito à liberdade de reunião e associação pacífica, conforme a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH).
Evidentemente, o que aconteceu em Brasília não tem nada a ver com “liberdade de expressão e reunião pacífica”; aquilo foi terrorismo.
Antes de viajar à Turquia, lembro de ter visto o atual Ministro da Justiça Flávio Dino afirmar em entrevista que defende o direito à manifestação de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas que ataques contra a democracia seriam tratados com seriedade. Na Turquia, porém, não existe essa distinção; manifestantes pacíficos são tratados como terroristas e vice-versa. A força policial instalada na praça Taksim não serve apenas para prevenir o terrorismo, como insiste em dizer; serve para dissuadir qualquer tipo de manifestação popular. Erdoğan e seu gabinete foram criticados várias vezes pelo uso excessivo da força e violência contra manifestantes pacíficos – quem dirá aqueles que cometem atentados terroristas.
No primeiro dia de viagem, escrevi sobre como nós ocidentais olhamos para incidentes no Oriente Médio enquanto minimizamos a periculosidade de nossos próprios terroristas. Olhando para a maneira com que o governo turco atua no combate ao terrorismo e como o governo brasileiro tem atuado – e como ambos reagem às manifestações populares –, podemos dizer que, neste quesito, o atual governo de Luiz Inácio Lula da Silva, seu ministro Flávio Dino e outras autoridades brasileiras em questão dão exemplo de aplicação da lei e da ordem sem ferir os direitos humanos – mesmos daqueles que apoiam a ditadura, exaltam a tortura e outras barbáries.
Se os presos da Papuda e Colmeia soubessem um pouco sobre a diferença entre terrorismo e direito de associação pacífica e como é distinta a abordagem do Brasil e da Turquia, em seus respectivos cenários, estariam todos gratos por estarem detidos sob um governo democrata de esquerda que respeita os direitos humanos.
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