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Com maior conquista de assentamentos da história, MST no PR prepara festa da Reforma Agrária

Nesta sexta-feira, 3 de julho de 2026, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) formaliza a conquista de três assentamentos no centro-sul do Paraná, totalizando 33 mil hectares para 2 mil famílias. A ministra do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Fernanda Machiaveli, e o presidente do Incra, César Aldrighi, participam do ato na comunidade Herdeiros da Terra de 1º de Maio, em Rio Bonito do Iguaçu. A regularização encerra décadas de disputa com a madeireira Araupel, cujos títulos foram anulados pelo TRF-4 em 2017 após ação do Incra que comprovou grilagem.


Bandeira do MST | Foto: Arthu Henry
Bandeira do MST | Foto: Arthu Henry

Serão formalizados os assentamentos Herdeiros da Terra de 1º de Maio, Dom Tomás Balduíno e Palestina Livre, todos com mais de dez anos de acampamento. As festividades começam às 9h com café da manhã e feira da Reforma Agrária da Central de Cooperativas da Reforma Agrária do Paraná (CCA), reunindo café, erva mate, chá, açúcar mascavo, melado, cachaça, vinhos, sucos, arroz, macarrão, feijão e fubá. O ato político-cultural está marcado para 10h30, com viola caipira, mística e pronunciamentos. Almoço gratuito com churrasco preparado em churrasqueira de 1 quilômetro de comprimento será servido às 13h. Às 15h, a banda Remix do Paraná encerra com matinê de músicas gaúchas.


A destinação das terras resultou de dois anos de negociações envolvendo Incra, MDA, Ministério da Fazenda, Ministério das Relações Institucionais, AGU, MPF, TRF-4, Cejusc do Tribunal de Justiça do Paraná e representantes do grupo Araupel. A regularização amplia o maior território contínuo de Reforma Agrária da América Latina, iniciado há 30 anos em áreas da madeireira.


A Araupel (ex-Giacomet Marodin) instalou-se no início dos anos 1970, durante a ditadura empresarial-militar, período de despejos de posseiros e povos originários, queima de casas e assassinatos, com vínculos entre pistoleiros, empresários e o aparato de segurança. Em 17 de abril de 1996, mais de 3.300 famílias - cerca de 15 mil pessoas - marcharam pela BR-158 e ocuparam a área; a entrada pela porteira foi fotografada por Sebastião Salgado sob o título “A luta pela terra: a marcha de uma coluna humana”. A imagem integra o livro Terra, com José Saramago e Chico Buarque. Em 2017, o TRF-4 declarou nulos os títulos da empresa, reconhecendo grilagem, a partir de ação do Incra iniciada em 2014. Hoje, a região concentra mais de 5.500 famílias em 24 comunidades, abrangendo também Laranjeiras do Sul, Nova Laranjeiras, Porto Barreiro, Espigão Alto e Quedas do Iguaçu.


A comunidade Herdeiros da Terra de 1º de Maio surgiu em 17 de julho de 2014 e reúne 1.253 famílias (cerca de 3 mil pessoas), o maior acampamento do MST no Paraná, majoritariamente em Rio Bonito do Iguaçu e parte em Nova Laranjeiras. Suas duas escolas itinerantes atendem 590 estudantes do ensino fundamental ao médio e curso de formação de docentes. A produção inclui soja, milho, feijão, trigo, arroz, cana-de-açúcar, aveia, amendoim, pipoca, algodão, hortaliças e raízes, mantida sem suporte público. Em novembro de 2025, um tornado danificou centenas de casas, lavouras e a escola central. Mutirões de reflorestamento miram 1 milhão de árvores nativas.


Dom Tomás Balduíno, formada em 6 de julho de 2015, assentará 575 famílias. A Escola Itinerante Vagner Lopes opera duas unidades para 300 alunos. Pioneira na recuperação da palmeira juçara, a comunidade lançou, em parceria com a Polícia Rodoviária Federal, mais de 30 toneladas de sementes por helicóptero, ação que originou a Jornada Nacional em Defesa da Natureza e seus Povos. A produção de geleias e picolés de açaí-juçara, guabiroba, jabuticaba e outros 12 sabores, além de café e ervas medicinais, conta com apoio do Laboratório Vivan de Sistemas Agroflorestais da UFFS campus Laranjeiras do Sul há mais de uma década. Uma agroindústria está em implantação para ampliar a capacidade de beneficiamento de frutas em sistemas agroflorestais.


O assentamento Palestina Livre, em Quedas do Iguaçu e Espigão Alto do Iguaçu, reúne 103 famílias resultantes da união das comunidades Nova Vitória (2015) e Araucária (2016), com agricultura e pecuária de subsistência, parte certificada orgânica, barracão comunitário e igreja.


Tarcísio Leopoldo, morador da comunidade Dom Tomás Balduíno e integrante da coordenação nacional do MST, afirmou: “É a celebração de um sonho para as famílias que serão beneficiárias. São praticamente 11 ou 12 anos de espera, de luta, de acampamento, de enfrentar o latifúndio e a opressão do Estado.” Acrescentou: “O que antes era monocultivo de pinus e eucalipto hoje é uma grande área de produção de alimentos, de construção de comunidades e de escolas. É um formato histórico que pode abrir caminho para outras conquistas e garante às famílias a segurança jurídica e os direitos de quem construiu esse território ao longo de tantos anos.”

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