Mandela na Cidade Grande: Como Mandela Fugiu de um Casamento Arranjado e Foi Parar em Joanesburgo
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- 12 de mai.
- 4 min de leitura
O trem apitou duas vezes antes de começar a se mover lentamente para fora da estação. Era abril de 1941. Nelson Rolihlahla Mandela, vinte e dois anos, sentou-se ao lado de seu primo, Justice Dalindyebo, em um banco de madeira na terceira classe. O Regente Jongintaba Dalindyebo, rei dos Thembu, ficara para trás na cidade, ainda dentro do escritório do magistrado-chefe, sem saber que os dois jovens haviam acabado de partir. Aos olhos do regente, eles deveriam estar retornando para Mqhekezweni, a capital tribal onde Mandela fora criado. Em vez disso, estavam fugindo. A decisão, era a única saída que encontraram para evitar o que ambos consideravam um destino inaceitável: um casamento arranjado.
O comboio seguia para Queenstown, primeira etapa de uma viagem que terminaria em Joanesburgo, a cidade dos sonhos e das promessas que Mandela ouvira descrever nas histórias dos trabalhadores que voltavam das minas de ouro. O movimento do trem, ao deixar a estação, era suave, quase enganoso, como se a fuga não passasse de um passeio qualquer. Mas Mandela sabia que não voltaria.

Ainda que parecesse, a fuga não foi um gesto impulsivo. Ela foi gestada durante meses, desde dezembro de 1940, quando o Regente Jongintaba anunciou, em uma reunião formal em sua grande cabana em Mqhekezweni, que havia escolhido as noivas para Nelson e seu filho Justice. Mandela, então estudante da Universidade de Fort Hare, havia sido expulso no final daquele ano por participar de um boicote estudantil contra a qualidade da comida e a falta de poder representativo do Conselho dos Estudantes. Ele retornara para casa em desgraça acadêmica, mas ainda esperava completar seus estudos por correspondência e talvez se tornar conselheiro de Justice, designado para próximo regente; ou funcionário público. O anúncio do casamento destruiu esses planos. Justice, filho biológico do regente e portanto herdeiro do trono, recebeu a notícia com igual consternação. Os dois conversaram em segredo, longe dos ouvidos dos conselheiros, e decidiram que fugir era preferível a se submeter.
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O casamento arranjado não era, no contexto dos thembu do Transkei, uma prática incomum ou necessariamente opressiva. Pelo contrário, era parte do sistema de governança tradicional. O Regente Jongintaba, que assumira a tutela de Mandela após a morte de seu pai, agia como pai do futuro rei. Para ele, arranjar casamentos para seus filhos, biológicos e adotivos, era tanto uma obrigação familiar quanto um ato político. As alianças matrimoniais consolidavam laços entre clãs, distribuíam gado e garantiam estabilidade social. O fato de Mandela não ter desejo pela noiva escolhida era, do ponto de vista do regente, irrelevante. O que importava era a linhagem, o dote e o futuro político da família real. A recusa de Mandela, era um desafio direto à autoridade patriarcal e tribal. Contudo, naquele momento, ele não estava preparado para pagar o preço desse desafio.
Os preparativos para a viagem envolveram atos que Mandela, mais tarde, descreveria com desconforto. Para financiar a passagem de trem e os primeiros gastos em Joanesburgo, ele e Justice venderam duas vacas do rebanho do regente a um comerciante local, sem autorização. O dinheiro, arrecadado foi suficiente para comprar bilhetes de trem e alguns mantimentos. Eles partiram sem documentos de identificação, o que, na África do Sul colonial de 1941, era uma omissão perigosa. Qualquer policial branco poderia detê-los e enviá-los de volta para o Transkei, ou pior, para uma mina ou fazenda como trabalho forçado. A sorte inicial os favoreceu ao encontrarem, em Queenstown, o chefe Mpondombini, um veterano aposentado do Departamento de Assuntos Nativos. O chefe, conhecido da família, os levou até o magistrado local e garantiu a emissão de documentos de viagem. Foi nesse exato momento, enquanto o magistrado telefonava para Mthatha como cortesia de praxe, que o plano foi descoberto, já que o regente estava no escritório do magistrado-chefe de Mthatha exatamente naquele instante, e foi informado da tentativa de fuga.
A partir desse momento, não havia mais volta. O regente sabia. Eles sabiam que ele sabia. O retorno significaria humilhação pública, punição severa e a imposição imediata do casamento. Mandela e Justice, desesperados, consultaram um advogado branco local, que se ofereceu para ajudá-los mediante o pagamento de quinze libras – uma fortuna para eles naquele momento. A mãe do advogado, uma senhora idosa, planejava viajar para Joanesburgo em duas semanas e concordou em levá-los como acompanhantes. Eles partiram antes do amanhecer, sentados no banco de trás de um automóvel, com o Justice tagarelando animado e a senhora branca nervosa com a proximidade de um nativo que ousava se comportar como se fosse igual a ela.
A chegada a Joanesburgo ocorreu à noite. Mandela viu pela primeira vez os letreiros luminosos, os edifícios altos, os semáforos, os carros que se moviam em todas as direções. A cidade era um espetáculo de luzes que se estendia até onde a vista alcançava. Ele se lembrava das histórias que ouvira de jovens que voltavam para o Transkei com dinheiro, casas construídas e terras compradas. Joanesburgo era o lugar onde um homem podia se fazer. No dia seguinte, ao despertar na casa de Piliso, o chefe indígena (induna) das minas de Crown Mines, Mandela começaria a aprender que as promessas da cidade vinham acompanhadas de um preço que ele ainda não compreendia plenamente.
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