Da Groenlândia ao Canadá: A Fome por anexação de Trump sinaliza um império em crise
- www.jornalclandestino.org

- 13 de jan.
- 3 min de leitura
Quando a Casa Branca fala em “segurança”, quem realmente está sendo protegido — povos inteiros ou um sistema que só sobrevive devorando territórios?
A ideia de Donald Trump de anexar a Groenlândia foi tratada como excentricidade imperial em 2019. Hoje, ela reaparece menos como piada e mais como sintoma. Sintoma de um império que já não consegue sustentar sua hegemonia apenas com tratados, discursos e bandeiras, e passa a recorrer ao método mais antigo do capital em crise, que é tomar à força o que garante lucro e controle de um império em queda.
A Groenlândia, o Canadá, a Venezuela ou o Irã não entram nesse mapa por acaso. Entram porque concentram aquilo que mantém o motor ligado: petróleo, minerais estratégicos, rotas comerciais, posições militares. Quando o gelo do Ártico derrete, não é apenas uma tragédia ambiental — é uma nova avenida para o comércio, para a guerra e para a especulação. E toda avenida recém-aberta precisa de dono.
Nós, que vivemos do trabalho, sabemos reconhecer esse movimento. Ele é o mesmo que atravessa fábricas, campos, periferias e fronteiras, no qual poucos acumulam, enquanto todos os outros pagam as contas. A diferença é que, agora, o campo de batalha se expande para o Norte global, e o discurso civilizado já não consegue esconder a brutalidade do projeto.

O Canadá é apresentado como aliado histórico dos Estados Unidos, mas a aliança, nesse sistema, dura enquanto não ameaça a hierarquia. Quando Ottawa diversifica seu comércio, se aproxima da China, disputa controle no Ártico ou simplesmente tenta respirar fora do sufoco econômico de Washington, deixa de ser parceiro e passa a ser problema. E problemas, para o império, se resolvem com pressão, fragmentação e dominação.
A história entre os dois países nunca foi fraterna como se vende. Por trás da retórica da cooperação, sempre houve vigilância, planos de invasão e disputas por soberania.
Com o enfraquecimento da dominação global americana, o jogo muda. Já não basta controlar mercados; é preciso controlar territórios. Já não basta impor tarifas; é preciso asfixiar economias inteiras até que a submissão pareça escolha racional. O aumento de tarifas sobre aço e alumínio, o impacto direto no desemprego canadense, a sabotagem econômica disfarçada de negociação comercial seguem um roteiro conhecido por nós, latino-americanos, africanos, asiáticos.
A diferença é que agora o alvo veste terno, fala inglês fluente e sempre acreditou estar do lado certo da história.
O Canadá concentra petróleo, urânio, ouro, potássio, lítio, cobalto — a espinha dorsal da economia industrial, da tecnologia verde e da máquina de guerra. Controlar esses recursos significa controlar moedas, cadeias produtivas e futuros possíveis. O petróleo, em especial, sustenta o dólar. Qualquer ameaça ao petrodólar é tratada como ameaça existencial. Não por acaso, a aproximação entre Canadá e China acende alarmes em Washington.
A estratégia não precisa começar com tanques. Pode começar dividindo o país, estimulando separatismos convenientes, manipulando frustrações regionais, transformando crise econômica em ressentimento político. A fragmentação interna interessa mais do que a guerra aberta — pelo menos até que a resistência se torne custo.
E ainda assim, o tiro pode sair pela culatra. A ameaça externa tem um efeito curioso. O discurso de anexação fortaleceu, paradoxalmente, um sentimento de identidade canadense que a integração econômica vinha diluindo.
Os números favorecem os EUA. A geografia também. A dependência tecnológica do Canadá completa o cenário. O que freia esse passo não é ética, mas custo. Uma invasão teria impacto global, abalaria o dólar, aceleraria a fuga de capitais e confirmaria aquilo que muitos já sabem: não há aliados permanentes, apenas interesses permanentes.
Por isso, a anexação ainda não aconteceu. Mas a lógica que a torna pensável já está em curso.
O que vemos é um império que recua para avançar. Que consolida o quintal porque perdeu o controle do mundo. Que trata até seus “irmãos” como colônias em potencial. Para nós, isso não é novidade, sempre soubemos que a violência do sistema não escolhe vítimas ou aliados por moral, mas por conveniência.



















































