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E se Hala, de 12 anos, fosse sua filha?

Hala Abu Dhaliz, uma menina palestina de apenas 12 anos, brincava num balanço improvisado em Khan Younis, próximo à tenda onde vive com sua família, quando foi atingida por um ataque aéreo israelense.


Brincava...


Era uma criança, como qualquer outra. E, ainda assim, foi alvejada.


É impossível não se perguntar quão desgraçado é necessário ser para apertar o botão que lança uma bomba sobre crianças brincando? Que perversidade habita aqueles que dão essas ordens, e os que as cumprem sem hesitar?



Hala sobreviveu. E isso, por si só, já é um alívio. Mas carrega no corpo as marcas do horro: Queimaduras graves, e a perda total de seu cabelo — aquele cabelo que provavelmente ela também arrumava diante do espelho, como tantas outras meninas de sua idade.


Ao ver sua foto ontem, senti um golpe que atravessou mais do que a razão. Hala me fez lembrar de Clara, minha filha, com seus mesmos 12 anos.


Clara, que antes de dormir passa seus cremes mágicos nos cabelos; que acorda uma hora mais cedo para “finalizar” os fios antes da escola, com a dedicação de uma pequena cabeleireira.


E se fosse Clara no lugar de Hala? Como ela suportaria tamanha dor, física e emocional? Eu, como adulto, como pai, sei que estar vivo é um milagre. Mas Clara ainda não compreende isso. Talvez, para ela, perder o cabelo simbolizasse o fim de um mundo inteiro que lhe prometeram ao nascer.


E então penso nos pais de Hala...

Na impotência dilacerante de ver a própria filha queimada, mutilada, traumatizada — e nada poder fazer.


Não escrevo este texto para falar de estética. Não é sobre cabelo. É sobre humanidade. Sobre empatia.


É sobre romper o muro invisível que nos separa da dor dos outros, especialmente quando os “outros” vivem sob bombardeio, sob ocupação, sob desumanização constante.


Sempre acreditei que a dor alheia pode ser compreendida, mas jamais sentida. Mas a imagem de Hala me deslocou dessa certeza. Ela me persegue. Ela me invade. E, junto dela, o sentimento de impotência voltou a me tomar.


Hala precisa de tratamento médico urgente fora de Gaza — como milhares de outras crianças, igualmente feridas, invisibilizadas, esquecidas. Mas as fronteiras seguem fechadas. As bombas continuam caindo. E a infância de Gaza segue sendo esmagada, em tempo real, diante dos olhos do mundo.



Que essa imagem chegue a alguém que, ao vê-la, não veja apenas uma menina desconhecida — mas sua própria filha.



 
 
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