Emirados Árabes usa narrativa antiterror para reprimir muçulmanos xiitas
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Os Emirados Árabes Unidos anunciaram a prisão de 27 pessoas sob acusação de integrar uma suposta organização ligada ao Irã. A operação foi divulgada em 27 de abril pela agência estatal WAM, que classificou o grupo como “terrorista”. No entanto, não foram apresentadas acusações formais de terrorismo contra os detidos. As imputações se concentram em termos genéricos como “ideias enganosas” e “ligações estrangeiras”. O episódio ocorre em meio à participação ativa dos Emirados na ofensiva militar apoiada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã.

A narrativa oficial apresentada por Abu Dhabi entra em contradição com os próprios dados divulgados pelo Estado. Embora manchetes falem em desmantelamento de uma célula terrorista, os detalhes publicados não incluem qualquer evidência concreta de atividade armada ou planejamento de ataques. As acusações listadas envolvem formação de organização secreta, vínculos externos e disseminação de ideias políticas, categorias amplamente utilizadas em legislações de segurança para criminalizar dissidência.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, rejeitou as detenções, classificando-as como “infundadas e sem base”. Até o momento, nenhuma prova pública foi apresentada que conecte os detidos ao Estado iraniano. Entre os presos estão figuras conhecidas da comunidade muçulmana xiita local, incluindo o clérigo Ghadeer Mirza Al-Rustam, vinculado à Fundação Jaafari em Dubai, e Seyed Sadiq Lari, ex-imã da Grande Mesquita na área de Zayed, em Abu Dhabi.
Todos os detidos são cidadãos dos Emirados, da Arábia Saudita ou do Bahrein, sem qualquer iraniano entre eles. A suposta ligação com Teerã é baseada na adesão ao conceito religioso de Velayat-e Faqih, que diz respeito à autoridade de um jurista islâmico. No entanto, os xiitas emiratis seguem majoritariamente o aiatolá Ali al-Sistani, cuja doutrina não adota esse princípio, o que fragiliza ainda mais a acusação de vínculo político direto com o Irã.
As prisões ocorrem em um contexto de crescente repressão interna. O país implementou leis de censura rígidas que criminalizam até mesmo o compartilhamento de vídeos de ataques iranianos em território emiradense. Entre março e abril de 2026, ao menos 375 pessoas foram detidas por violações dessas normas, muitas delas por simplesmente registrar ou encaminhar imagens de drones e mísseis atingindo alvos em Dubai e Abu Dhabi.
Segundo Radha Stirling, CEO da organização Detained in Dubai, a legislação aplicada permite punições severas. “De acordo com as leis de segurança nacional, os indivíduos podem enfrentar: penas de prisão de 5 a 15 anos, ou potencialmente prisão perpétua; multas que chegam a aproximadamente US$ 500.000; prisão preventiva prolongada ou por tempo indeterminado; acesso restrito a advogados, embaixadas e provas; violações dos direitos humanos e tortura”, afirmou. Ela acrescentou que “as pessoas estão cada vez mais receosas de se comunicar, enviar mensagens, documentar eventos ou compartilhar informações”.
A repressão se intensifica paralelamente à participação direta dos Emirados na ofensiva militar contra o Irã. O país foi o único Estado árabe a atuar diretamente ao lado de forças estadunidenses e israelenses, evidenciado pela queda de drones Wing Loong II emiradenses em território iraniano. Após o anúncio de um cessar-fogo temporário de duas semanas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Abu Dhabi pressionou pela continuidade das operações e participou de ataques, incluindo o bombardeio da refinaria de Lavan.
Investigações independentes também apontam manipulação informacional. Um relatório da Bellingcat identificou episódios em que autoridades emiradenses minimizaram danos causados por ataques iranianos, distorceram dados sobre interceptações e omitiram reconhecimentos de impactos bem-sucedidos em seu território. Essas ações se inserem em uma disputa de narrativa paralela ao confronto militar.
O histórico de repressão política em contextos de guerra não é novo no país. Em 2016, dois cidadãos estadunidenses de origem líbia foram presos em Dubai sob acusações de financiar grupos armados na Líbia e posteriormente absolvidos após dois anos de detenção. De acordo com informações da ONU e familiares, ambos foram submetidos a tortura durante o período de encarceramento.
A atual onda de detenções também se estende a outros países do Golfo alinhados à estratégia regional. O Kuwait prendeu em 2 de março o jornalista americano-kuwaitiano Ahmed Shihab-Eldin por supostos crimes cibernéticos relacionados a publicações sobre a ofensiva contra o Irã. Em meados de março, o país alegou ter desmantelado uma “rede do Hezbollah” sem apresentar provas. Na Arábia Saudita, dois xiitas foram executados sob acusações de “terrorismo”, sendo que um deles havia sido detido aos 17 anos por participação em protestos.



































