Este comentário da UJFP constitui uma crítica política direta ao jornal Charlie Hebdo e ao papel que ele passou a desempenhar no debate público francês
- Mohammed Hadjab

- 15 de jan
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Por Mohammed Hadjab
A declaração tem o mérito de nomear aquilo que muitos preferem esconder atrás de um vocabulário supostamente neutro: o “universalismo”, tal como é hoje invocado, já não é um horizonte de emancipação, mas frequentemente um instrumento de dominação. Ao se apresentar como cego às diferenças, torna-se, sobretudo, cego às relações de poder, aos legados coloniais e às discriminações reais que estruturam a sociedade.
Charlie Hebdo já não encarna uma irreverência libertadora; hoje se insere num clima de congelamento ideológico, no qual a estigmatização dos muçulmanos se veste com as roupagens da República. Impor normas vestimentares ou culturais em nome do “universal” significa negar às minorias o direito fundamental de se definirem por si mesmas e prolongar uma história de controle dos corpos herdada do colonialismo.

Nesse sentido, a crítica dirigida a Charlie Hebdo não é mero excesso retórico, mas um diagnóstico político rigoroso: o de um jornal que, outrora associado a uma tradição anarquista, irreverente e antiautoritária, converteu-se progressivamente em um poderoso instrumento simbólico a serviço da extrema direita e dos grupos dominantes. Ao invés de questionar o poder, passou a reforçá-lo; ao invés de confrontar as hierarquias, contribui para sua legitimação, colocando sua influência midiática a serviço da estigmatização e da manutenção da ordem desigual existente.
























































