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Extrema direita golpista avança nas urnas e amplia força do PL no Congresso

há 1 hora
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Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 à frente de Lula (PT), com 47,03% contra 45,16% dos votos válidos. A disputa será decidida em 25 de outubro, depois de uma eleição que também produziu o maior resultado eleitoral do PL desde a redemocratização. Para o cientista político José Henrique Artigas, professor do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal da Paraíba (CCHLA-UFPB), o resultado representa uma “avalanche de votos” para a extrema direita e uma mudança na distribuição das forças políticas no Congresso.


Flávio Bolsonaro ©André Borges/EFE
Flávio Bolsonaro ©André Borges/EFE

Com 100% das seções eleitorais totalizadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Flávio Bolsonaro alcançou 56.104.503 votos, enquanto Lula recebeu 53.879.538. A diferença foi de 2.224.965 votos, equivalente a 1,87 ponto percentual. Os dois candidatos concentraram 92,19% dos votos válidos, enquanto os demais oito candidatos somaram 7,81%. A abstenção chegou a 21,08%, com 33.469.244 eleitores que não compareceram às urnas.


O resultado contrariou parte das pesquisas divulgadas antes da votação. Levantamentos publicados na semana anterior ao primeiro turno indicavam uma disputa apertada, mas mantinham Lula em vantagem em parte das simulações. A pesquisa Quaest, por exemplo, havia apontado Lula com 39% e Flávio com 34% no primeiro turno, enquanto outras sondagens registravam diferenças menores entre os dois candidatos.


Para Artigas, o desempenho da extrema direita não pode ser analisado apenas pela votação presidencial. O professor destaca que o PL terminou a eleição com a maior bancada da Câmara dos Deputados, formada por 121 parlamentares, 24 a mais do que na eleição anterior, além de conquistar a maior bancada do Senado, com 28 senadores. A Câmara dos Deputados confirmou que a federação PT-PCdoB-PV terá 82 cadeiras na próxima legislatura, ficando em segundo lugar.


“Houve uma verdadeira avalanche de votos atribuídos à extrema direita, particularmente ao PL de Flávio Bolsonaro. Essa eleição coloca o PL como partido mais forte do Brasil, que conquistou o maior número de parlamentares e de governos estaduais, principalmente em cima do Centrão”, afirmou Artigas. Para ele, o movimento também alterou a relação entre os partidos de direita e centro-direita, já que “partidos como PP e União Brasil deram espaço para o PL”.


O cientista político considera que a configuração produzida pelas urnas não encontra paralelo recente. “Isso jamais aconteceu na história do país”, declarou, ao avaliar o deslocamento de cadeiras e espaços de poder em direção ao PL e aos grupos políticos associados ao bolsonarismo.


Artigas classificou a eleição de 2026 como “atípica” e comparou o resultado com o processo eleitoral de 2018. Segundo ele, Flávio Bolsonaro conseguiu conquistar estados nos quais Lula havia vencido em 2022, ampliando a presença eleitoral do bolsonarismo para além dos territórios onde a direita já possuía maior concentração de votos.


A avaliação do professor é de que uma eventual vitória de Lula no segundo turno não eliminaria a mudança na correlação de forças produzida pelo primeiro turno. “Terá um caminho dificílimo para enfrentar”, afirmou. Para Artigas, o crescimento da direita observado desde 2018 atingiu outro estágio e deixou de depender apenas da atuação de partidos do chamado Centrão.


“Estamos falando de uma oposição da extrema direita golpista. A extrema direita do PL flerta com o golpe, com o autoritarismo e, portanto, com o rompimento da ordem institucional estabelecida”, disse.


Nesse contexto, Artigas rejeita a definição de que o país estaria passando apenas por um “avanço conservador”. Na avaliação dele, o processo deve ser compreendido como “retrocesso conservador e avanço reacionário”. O professor também afirma que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro teria como uma de suas primeiras medidas a concessão de anistia ao pai, Jair Bolsonaro, e aos envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro.


“É um grupo de golpistas que quer destruir as instituições. São representantes eleitos que claramente querem retroceder a antes de 1988. Que nos preparemos para tempos muito difíceis. A democracia que conseguiu se sustentar após crises vai ter que demonstrar muito mais resistência e resiliência. Toda a corja golpista sairá da cadeia, caso Flávio ganhe”, afirmou.

A força eleitoral do PL também alterou a disputa pelo comando do Congresso. A legenda terá 121 deputados na Câmara e 28 senadores, número que a coloca na posição de maior bancada das duas Casas. No Senado, a força do PL ganha peso adicional porque a legenda conta com possíveis aliados de outras siglas, ampliando o número de parlamentares que podem integrar sua base em votações de interesse do bolsonarismo.


Para Artigas, a expansão eleitoral da extrema direita também está ligada à transformação dos mecanismos de comunicação política durante a última década. O professor aponta a redução da centralidade dos meios tradicionais e o crescimento da comunicação orientada por algoritmos nas plataformas digitais.


Na avaliação dele, o campo conservador conseguiu utilizar essa transformação para estabelecer uma relação direta com segmentos específicos do eleitorado. Artigas compara o modelo de comunicação política contemporâneo com estratégias utilizadas por movimentos fascistas nos anos 1930, quando mensagens eram direcionadas a grupos delimitados da população.


“O debate não aconteceu pelas vias tradicionais e não foi para as ruas”, afirmou. Nesse ambiente, políticos cuja atuação está concentrada nas redes sociais, como Nikolas Ferreira, conseguiram ampliar sua presença eleitoral.


Artigas relaciona esse processo ao funcionamento dos sistemas de inteligência artificial empregados na distribuição de conteúdos. “O mecanismo hoje de inteligência artificial, que orienta a captura de dados, acaba dificultando manifestações coletivas. A propaganda eleitoral é orientada ao indivíduo, bombardeado pelos algoritmos”, declarou.


O mecanismo descrito pelo professor altera a forma de mobilização política porque a mensagem deixa de depender de uma comunicação única dirigida a grandes grupos e passa a ser distribuída conforme os dados de comportamento de cada usuário. O eleitor recebe conteúdos políticos dentro de ambientes digitais organizados por sistemas que selecionam o que aparece em sua tela.


Para Artigas, essa estrutura ajudou o PL a cumprir uma estratégia iniciada após 2018: aumentar sua presença territorial. O professor afirma que, naquele ano, quando ainda utilizava a sigla PSL, o partido encontrava dificuldades para construir presença em diferentes regiões do país. A partir de 2022, segundo ele, a legenda passou a ampliar essa estrutura.


“Desde 2022, o PL vinha se reorientando a aumentar a capilaridade. Em 2018, ainda como PSL, ele tinha certa dificuldade de avançar pelo país. A partir de 2022, eles conseguem a capilarização. E isso terá um impacto imenso”, afirmou.


Na avaliação de Artigas, uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro criaria uma relação de força favorável ao Executivo diante do Congresso. Ele comparou a situação ao segundo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e afirmou que o candidato do PL poderia encontrar condições para impor sua agenda sem depender do mesmo nível de negociação política.


“Caso eleito para a presidência, Flávio vai navegar em mar tranquilo, semelhante ao segundo governo Trump, com capacidade de impor e não negociar a presidência do Senado e a presidência da Câmara”, disse.


A declaração também alcançou os atuais presidentes das duas Casas. “Hugo Motta e Davi Alcolumbre que coloquem suas barbas de molho, porque estavam com a expectativa de reeleição [na presidência da Câmara e Senado]”, afirmou Artigas.


Com o PL ampliando sua bancada e consolidando posições no Congresso, o segundo turno passa, na leitura do professor, pela disputa dos partidos que integram o Centrão. A correlação de forças produzida em 4 de outubro coloca a composição parlamentar no centro das negociações políticas que antecedem a votação de 25 de outubro.


Artigas também aponta o voto útil como um dos fatores que contribuíram para o resultado do primeiro turno. Flávio Bolsonaro teria absorvido parte dos votos de candidatos de direita durante a reta final da campanha, enquanto a votação dos demais candidatos ficou distribuída entre Augusto Cury, Renan Santos, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e os demais concorrentes.


Augusto Cury terminou em terceiro, com 3.448.569 votos, equivalentes a 2,89% dos votos válidos. Renan Santos recebeu 2.675.887 votos, ou 2,24%, enquanto Ronaldo Caiado obteve 2.605.148 votos, correspondentes a 2,18%. Os outros candidatos somaram parcelas inferiores a 0,3%.


Para Artigas, a concentração da direita em torno de Flávio deixou a candidatura do PL em uma posição eleitoral diferente daquela registrada no início da disputa. “Campanha de Flávio sai do primeiro turno com tendência de crescimento, conseguindo votos úteis de outros candidatos da direita. Não acredito que haverá grandes mudanças no campo bolsonarista”, afirmou.


O professor também considera que a campanha de Flávio conseguiu sair do primeiro turno com pelo menos cinco palanques estaduais de peso, enquanto Lula teria quatro estruturas estaduais consideradas relevantes para a segunda etapa da disputa.


A situação do campo lulista, segundo Artigas, exigirá uma alteração na estratégia eleitoral. O professor considera que a campanha de Lula concentrou parte excessiva de seus esforços na recuperação de episódios do passado e nas denúncias envolvendo Flávio Bolsonaro.


Ele cita as acusações relacionadas ao Banco Master como exemplo de uma estratégia que não teria produzido o efeito eleitoral esperado. O caso Banco Master também aparece no debate político do segundo turno e envolve investigações que atingem figuras ligadas aos dois campos políticos.


“Apesar da diferença proporcional de votos ser relativamente pequena, o grau de calcificação desde o início da campanha revela a grande dificuldade de conquista de indecisos e um arco muito restrito da possibilidade de mudar de opinião”, avaliou Artigas.


Com 47,03% contra 45,16%, Flávio Bolsonaro entra no segundo turno com vantagem de 1,87 ponto percentual sobre Lula, mas nenhum dos dois alcançou maioria absoluta no primeiro turno. A nova votação ocorrerá em 25 de outubro, quando os votos destinados aos demais candidatos, além dos eleitores que não participaram da primeira etapa, estarão novamente em disputa.

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