Haiti entra em 2026 sob colapso institucional, violência de gangues e emergência humanitária
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O Haiti iniciou 2026 enfrentando uma das crises mais graves de sua história recente, marcada pela expansão do controle de gangues armadas, colapso da governança, adiamento prolongado de eleições e agravamento das necessidades humanitárias. A situação levou o país ao centro da agenda do Conselho de Segurança da ONU, que debate os riscos de instabilidade prolongada e regional.

O Haiti vive uma combinação de crise de segurança, fragilidade política e emergência humanitária que se aprofunda rapidamente. Gangues armadas controlam grandes áreas urbanas e rotas estratégicas, enquanto a violência ultrapassou os limites da capital, Porto Príncipe, comprometendo a capacidade do Estado de garantir serviços básicos e exercer autoridade em diversas regiões do país.
A ausência de eleições presidenciais há cerca de dez anos contribui para o vácuo institucional. Segundo relatório recente do secretário-geral da ONU, António Guterres, a intensificação da violência e sua expansão territorial agravaram a insegurança alimentar, a instabilidade social e colocaram os arranjos de governança de transição próximos do esgotamento, ao mesmo tempo em que as eleições seguem sendo consideradas urgentes.
O cenário de instabilidade tem impacto direto sobre a população. Mais de um em cada dez haitianos foi forçado a deixar suas casas devido à violência, elevando o risco de deslocamentos prolongados e pressionando países vizinhos por meio da migração, com potenciais reflexos na segurança e na economia regional.
A crise haitiana é considerada multifacetada pelas Nações Unidas. Além do domínio de gangues sobre zonas urbanas e corredores de transporte, a ampliação da violência em áreas rurais compromete meios de subsistência, dificulta o acesso humanitário e afeta a produção agrícola. Eventos climáticos extremos, como furacões, enchentes, secas e terremotos, também agravaram a vulnerabilidade do país e limitaram sua capacidade de recuperação.
Nos últimos meses de 2025, a violência armada se intensificou e permanece como o principal fator que molda o cotidiano da população. Gangues fortemente armadas utilizam sequestros, extorsões e violência sexual como instrumentos de controle territorial. Operações policiais, em alguns casos apoiadas pela Força de Repressão a Gangues autorizada pelo Conselho de Segurança da ONU, conseguiram conter avanços pontuais e reabrir rotas estratégicas, mas os ganhos seguem frágeis.

De acordo com dados citados pela ONU, mais de 8.100 homicídios foram registrados no país entre janeiro e novembro de 2025. Há também relatos de aumento do tráfico de crianças, que vêm sendo utilizadas por grupos criminosos em diversas funções, inclusive em ações violentas.
No campo político, a transição institucional se aproxima de um prazo crítico. Um decreto eleitoral e a divulgação de um calendário indicam a possibilidade de realização de eleições com vistas à posse de um presidente e de um Parlamento eleitos no início de 2027. Ainda assim, analistas e observadores questionam a viabilidade do processo sem avanços significativos na segurança.
A situação humanitária continua a se deteriorar. A insegurança alimentar afeta cerca de 5,7 milhões de pessoas, sendo que quase dois milhões vivem em situação de emergência. O número de deslocados internos dobrou em um ano, chegando a aproximadamente 1,4 milhão. Unidades de saúde operam de forma precária, a cólera permanece como grave preocupação de saúde pública e milhares de escolas foram fechadas devido à violência, deixando cerca de 1,5 milhão de crianças e jovens sem acesso à educação.
Mulheres e meninas estão entre os grupos mais vulneráveis. A ONU relata o uso sistemático da violência sexual por gangues, incluindo estupros coletivos, como ferramenta de intimidação. O medo, o estigma e a falta de serviços adequados reduzem as denúncias e ampliam a sensação de impunidade.
Segundo as Nações Unidas, restaurar a segurança é essencial, mas insuficiente por si só. Sem avanços paralelos em governança, justiça, responsabilização e políticas sociais — especialmente voltadas à juventude —, qualquer melhoria no campo da segurança tende a ser temporária.
A resposta internacional inclui o apoio da missão política da ONU no Haiti, a BINUH, que atua no monitoramento de direitos humanos, na assistência eleitoral e no fortalecimento da polícia. Agências humanitárias fornecem ajuda emergencial às comunidades mais afetadas, enquanto o Plano de Resposta Humanitária para 2026 busca arrecadar US$ 880 milhões para atender cerca de 4,2 milhões de pessoas. Paralelamente, estão em andamento os preparativos para que o Escritório de Apoio das Nações Unidas no Haiti ofereça suporte logístico e operacional à Força de Repressão a Gangues.






























































