Massacre em El Fasher: ONU denuncia execuções, estupros e ataques a hospitais
- www.jornalclandestino.org

- 3 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
O Escritório de Direitos Humanos da ONU (ACNUDH) denunciou uma série de atrocidades cometidas em El Fasher, capital do estado de Darfur do Norte, após a tomada da cidade pela milícia Forças de Apoio Rápido (RSF). De acordo com o porta-voz do órgão, Seif Magango, há relatos de execuções sumárias, assassinatos em massa, estupros coletivos, ataques a trabalhadores humanitários, saques, sequestros e deslocamentos forçados.
Falando a jornalistas em Genebra, Magango explicou que os depoimentos foram colhidos de moradores que fugiram aterrorizados quando El Fasher caiu sob controle da RSF. Muitos sobreviveram a uma jornada de até quatro dias a pé até Tawila, localizada a cerca de 70 quilômetros de distância. A Organização Internacional para as Migrações (OIM) informou que mais de 36 mil pessoas fugiram desde o início da ofensiva, somando-se às 652 mil já deslocadas que vivem em condições precárias na região.

A milícia RSF, formada a partir das forças envolvidas no genocídio de Darfur há duas décadas, trava desde abril de 2023 uma guerra sangrenta contra as Forças Armadas Sudanesas (SAF). A ofensiva contra El Fasher, que durou mais de 500 dias, terminou com a retirada das tropas do governo e a consolidação do controle da RSF sobre a capital regional. O Sudão vive atualmente a maior crise humanitária e de deslocamento do mundo, com 14 milhões de pessoas obrigadas a deixar suas casas e milhões enfrentando fome e doenças como cólera.
Relatórios da ONU apontam que dezenas de pacientes e feridos foram mortos dentro da Maternidade Saudita e em centros médicos improvisados nos bairros de Dara Jawila e Al-Matar. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 460 pessoas — entre pacientes e acompanhantes — foram executadas durante os ataques. “Essas alegações levantam sérias preocupações sobre assassinatos em locais que deveriam ser seguros”, afirmou Magango, que pediu uma investigação independente e transparente.
O ACNUDH também relatou graves violações sexuais. Segundo a ONU, ao menos 25 mulheres foram estupradas por grupos armados da RSF dentro de um abrigo próximo à Universidade de El Fasher. Testemunhas afirmam que as vítimas foram escolhidas e violentadas sob a mira de armas. Trabalhadores humanitários e voluntários locais que atuavam em apoio às comunidades deslocadas também estariam entre os alvos.

A OMS confirmou ataques a instalações médicas e o sequestro de seis profissionais de saúde — quatro médicos, uma enfermeira e um farmacêutico. A Maternidade Saudita foi atingida cinco vezes apenas em outubro. “Atualmente, estamos impossibilitados de prestar assistência às vítimas dos múltiplos ataques contra civis”, declarou a Dra. Teresa Zakaria, chefe da Unidade de Operações Humanitárias da OMS.
Segundo a agência, 189 ataques a estruturas de saúde foram registrados no Sudão em 2024, resultando em 1.670 mortes e 419 feridos. “Oitenta e seis por cento dessas mortes ocorreram apenas este ano, o que mostra que os ataques estão se tornando cada vez mais letais”, afirmou Zakaria.
A ONU alertou ainda para a grave escassez de recursos. O Plano de Resposta Humanitária do Sudão recebeu apenas 27,4% do financiamento necessário, enquanto o setor de saúde foi contemplado com 37% dos recursos previstos. “Estamos lutando para manter nossas operações. A comunidade internacional não pode abandonar o povo sudanês”, apelou Zakaria.
Com a queda de El Fasher, o controle territorial da RSF agora se estende por boa parte de Darfur e do sul do Sudão. Já as Forças Armadas Sudanesas mantêm o domínio da capital Cartum e de áreas do norte e centro do país. A ONU teme que a escalada da violência leve o conflito a níveis ainda mais devastadores.



















































Comentários