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O assassinato do aiatolá Ali Khamenei tende, ao que tudo indica, a produzir um efeito oposto ao pretendido. Entenda por quê

O martírio de Khamenei, confirmado em 28 de fevereiro de 2026 após ofensiva aérea israelense-estadunidense, desencadeou uma escalada regional de consequências imprevisíveis. Para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e para o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, a operação foi apresentada como demonstração de força estratégica. No entanto, o histórico recente do Oriente Médio indica que assassinatos de líderes tendem a produzir instabilidade prolongada, e não soluções políticas duradouras. A análise foi publicada em 2 de março de 2026 pelo jornalista palestino Daoud Kuttab. Segundo ele, a chamada estratégia de “decapitação” oferece ganhos imediatos de popularidade, mas costuma gerar desastres de longo prazo.



Em artigo divulgado pela Al Jazeera, Kuttab afirma que “uma tática de guerra favorita é tentar decapitar a liderança inimiga”, mas ressalta que, no Oriente Médio, essa estratégia “se provou uma escolha desastrosa”. O jornalista observa que a execução de um líder pode elevar rapidamente a aprovação interna de governos envolvidos em conflitos armados, mas não garante estabilidade política posterior. No caso do Irã, o martírio de Khamenei ocorreu quando o líder supremo, aos 86 anos, já organizava sua sucessão devido ao estado de saúde debilitado.

Kuttab sustenta que eliminar Khamenei não assegura que o sucessor adotará postura mais alinhada aos interesses israelenses ou estadunidenses. Ao contrário, segundo ele, assassinatos de lideranças costumam abrir espaço para figuras mais radicais ou gerar vácuos de poder que resultam em violência prolongada. O artigo menciona que interlocutores omanitas envolvidos em conversas realizadas em Mascate e Genebra indicavam disposição iraniana para concessões relevantes no tema nuclear sob a liderança de Khamenei — cenário que pode não se repetir após sua morte.


No Iraque, após a invasão liderada por forças militares estadunidenses em 2003 e a posterior execução de Saddam Hussein, consolidaram-se forças políticas e militares alinhadas ao Irã, alterando o equilíbrio estratégico regional. O vazio de segurança contribuiu para o surgimento do autodenominado Estado Islâmico (ISIS), responsável por milhares de mortes e por uma crise de refugiados que atingiu aliados europeus de Washington.


Kuttab também menciona os casos do Hamas e do Hezbollah. Em 2004, Israel assassinou o sheikh Ahmed Yassin, fundador do Hamas, e posteriormente Abdel Aziz Rantisi. Anos depois, Yahya Sinwar assumiu a liderança em Gaza e esteve à frente da ofensiva de 7 de outubro de 2023, episódio que marcou o início do GENOCÍDIO contra a população palestina. No Hezbollah, Hassan Nasrallah ascendeu à liderança após o assassinato de Abbas al-Musawi por Israel, ampliando a estrutura militar e política do grupo.


Para o autor, dois anos e meio de ofensivas e assassinatos direcionados não eliminaram a base ideológica desses movimentos, centrada na resistência à ocupação. A atual trégua regional, segundo ele, pode ser apenas uma pausa antes de nova escalada.


No plano político interno, Kuttab argumenta que Netanyahu colhe dividendos imediatos ao apresentar o martírio de Khamenei como triunfo estratégico, especialmente diante de eleições decisivas e de quatro acusações de corrupção que podem encerrar sua carreira política. Já para Trump, os benefícios seriam menos evidentes. O presidente dos Estados Unidos, segundo o artigo, enfrenta uma conjuntura marcada por crise do custo de vida e resistência interna a novos conflitos externos, enquanto destina bilhões de dólares do contribuinte a uma campanha militar contra um país que, segundo o autor, não representava ameaça iminente ao território estadunidense.


O texto afirma que Trump estabeleceu limite quanto ao envio de tropas terrestres, restringindo a atuação a bombardeios e apoio militar indireto. Ainda assim, a ampliação da ofensiva pode deixar como legado instabilidade regional cujas consequências recaem sobre aliados de Washington no Oriente Médio e na Europa. Para Kuttab, experiências recentes no Iraque e na Líbia demonstram que o colapso de estruturas estatais tende a produzir ciclos prolongados de violência, radicalização e deslocamentos forçados.


Publicado em 2 de março de 2026, o artigo conclui que estratégias baseadas em assassinatos seletivos e “decapitação” de lideranças raramente produzem estabilidade duradoura no Oriente Médio, ao custo de recursos públicos, vidas militares e capital diplomático.



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