O QUINTAL DE FERRO: A RESSURREIÇÃO DA DOUTRINA MONROE E A AGONIA DO CAPITALISMO HEGEMÔNICO
- Rafael Medeiros

- há 3 dias
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Em 1823, o mundo ouviu o brado: "A América para os americanos". Dois séculos depois, o eco dessa frase ressoa não como um grito de libertação, mas como uma ordem de despejo para a soberania popular no Sul Global. O que a historiografia liberal descreve como uma "estratégia de defesa" revela-se, sob a lente do materialismo histórico, como a certidão de nascimento do imperialismo estadunidense e sua necessária metamorfose para sobreviver em 2026.

I. A Infraestrutura do Excepcionalismo
A Doutrina Monroe nunca foi sobre ideias; foi sobre mercados. Se a Santa Aliança europeia representava o velho modo de produção feudal e monárquico tentando recuperar seus feudos, a diplomacia de John Quincy Adams representava a burguesia mercantil e industrial em ascensão nos EUA, que precisava de um "espaço vital" para expandir sua acumulação.
A "proteção" oferecida por Washington era, na verdade, a imposição de um monopólio geográfico. Para que o capitalismo estadunidense florescesse, era imperativo que as jovens nações latinas não se tornassem parceiras da Europa, mas sim satélites de Washington. A soberania era permitida, desde que não interferisse na circulação de capital do Norte.
II. O Corolário Roosevelt e a Polícia do Capital
Ao chegarmos no século XX, a dialética do desenvolvimento capitalista exigiu uma transição da "não-intervenção" para a "intervenção punitiva". O Corolário Roosevelt de 1904 não foi um erro de percurso, mas a evolução lógica do sistema.
Quando as corporações de Boston (como a United Fruit Company) se enraizaram na América Central, o Estado estadunidense atuando estritamente como o "comitê de gestão dos negócios comuns da burguesia" transformou o exército em um braço de cobrança e repressão. A Doutrina Monroe tornou-se a justificativa jurídica para garantir que o trabalho barato e a terra fértil do Sul permanecessem subordinados às necessidades de valorização do capital nortista.
III. A Crise da Hegemonia e o Fantasma do Século XXI
Hoje, a ressurreição explícita da Doutrina Monroe por Washington não é um sinal de força, mas de reação defensiva. O surgimento de um mundo multipolar (China, Rússia, BRICS+) ameaça o acesso privilegiado dos EUA aos recursos que Marx identificaria como os elementos do capital constante: energia e matérias-primas.
A corrida pelo Lítio na Bolívia e as sanções contra o petróleo venezuelano são exemplos modernos da Acumulação por Despossessão. O capital financeiro internacional, em sua fase senil, não busca mais "convencer" através do livre mercado, mas sim "cercar" o território através da guerra híbrida, do lawfare e do controle tecnológico.
IV. O "Sequestro" em Caracas:
A Monroe como Mandado de Prisão Global
No dia 3 de janeiro de 2026, o mundo testemunhou o que a retórica de Washington chama de "operação de libertação", mas que a ciência política e o materialismo histórico classificam como a suspensão definitiva do Direito Internacional em favor da acumulação por despossessão. A captura de Nicolás Maduro por forças especiais dos EUA, transportado algemado para Nova York, é o ápice da "Doutrina Monroe 2.0".
Diferente das intervenções do século XX, que utilizavam golpes internos, a ação direta de 2026 revela uma metrópole que já não tem tempo para as mediações da política local.
A Engrenagem Jurídica como Arma:
Ao processar um presidente estrangeiro por "narcoterrorismo" em tribunais domésticos (Manhattan/Brooklyn), os EUA exercem a extraterritorialidade do capital. O sistema jurídico estadunidense atua como a infraestrutura que legitima o uso da força bruta para remover obstáculos à circulação de mercadorias — neste caso, o controle das maiores reservas de petróleo do planeta.

V. Conclusão Crítica: A Dialética do Rompimento e o Fetiche da Ordem
A imagem de Maduro chegando ao centro de detenção no Brooklyn é o fetiche da mercadoria em forma de política externa. Washington vende a "democracia" como produto, enquanto a base material da ação é a garantia de que os 303 bilhões de barris de petróleo venezuelanos retornem ao controle das corporações do Norte, combatendo a queda da taxa de lucro do capital fóssil ocidental.
Sob a ótica de Marx, este evento é o "momento de força" que revela a fragilidade da ordem liberal. Quando a diplomacia (a superestrutura) falha em garantir os interesses da base econômica, o Estado despe-se de sua roupagem democrática e revela sua essência: o braço armado da burguesia imperialista.
A ressurreição da Doutrina Monroe em 2026, selada com o sequestro de um mandatário, é o grito de uma potência que, para evitar sua própria decadência diante da multipolaridade, decide transformar o Hemisfério Ocidental em uma propriedade privada vigiada. Para os povos da América Latina, a lição deste janeiro é clara: na lógica do capital, a soberania é apenas uma concessão revogável conforme as necessidades do mercado.
A "Nova Monroe" não busca mais apenas o alinhamento ideológico; ela busca o controle físico dos ativos. Se antes o objetivo era impedir a influência da URSS, hoje o objetivo é expulsar o capital chinês e russo do "quintal", utilizando a força militar para resolver o que a concorrência econômica já não consegue sustentar.
Por Rafael Medeiros | TREZZE Comunicação Integrada | Jornal Clandestino.



















































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