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Panteras Negras Comunistas resurge para enfrentar Donald Trump

ARTIGO DE OPINIÃO

Por: Rafael Medeiros


A história do Partido dos Panteras Negras (BPP) não é apenas um capítulo encerrado nos livros de história; é um espectro que volta a assombrar as estruturas do imperialismo norte-americano. Fundado em 1966 por Huey Newton e Bobby Seale, o partido nasceu sob a égide da autodefesa armada contra a brutalidade policial em Oakland, mas rapidamente evoluiu para uma vanguarda revolucionária que desafiou o cerne do capitalismo global.


I. A Gênese Revolucionária: Marxismo, Leninismo e Autodefesa

O BPP diferenciou-se de outros movimentos de direitos civis por sua análise de classe. Adotando princípios marxistas-leninistas, os Panteras identificaram que o racismo era um subproduto indissociável do capitalismo. Para eles, a comunidade negra era uma "colônia interna" dentro dos EUA, explorada tanto pela cor da pele quanto pela força de trabalho.


O Programa de Dez Pontos (1967) foi o manifesto que sintetizou essa visão:

Poder e Autodeterminação: O direito de decidir o destino da própria comunidade.

Justiça Econômica: O fim da "ladroagem capitalista" e a exigência de pleno emprego.

Educação Libertadora: Um ensino que revelasse a decadência da sociedade americana e a verdadeira história negra.

Oposição ao Militarismo: A recusa em lutar guerras imperialistas (como o Vietnã) contra outros povos de cor.


II. O Declínio sob o Punho de Ferro do Estado

No auge de sua influência, o BPP foi classificado pelo FBI como a "maior ameaça à segurança interna do país". Através do programa COINTELPRO, o Estado americano utilizou táticas de guerra para desmantelar a organização: assassinatos (como o de Fred Hampton), infiltrações e manipulação midiática.


Embora o partido tenha se fragmentado nos anos 80, o legado de resistência e a crítica ao sistema de justiça racial e econômico permaneceram latentes, aguardando as condições materiais para sua reemergência.


III. O Paralelo Histórico: A Era Trump e o Ressurgimento

Nos últimos anos, especialmente sob a administração de Donald Trump, os Estados Unidos testemunharam o recrudescimento de políticas de exclusão e perseguição. A retórica nacionalista branca e a atuação da ICE (Immigration and Customs Enforcement) nas fronteiras e comunidades tornaram-se os novos rostos do velho aparato repressivo.


Grupo Panteras Negras ©THE PHILADESLPHIA INQUIRIRER
Grupo Panteras Negras ©THE PHILADESLPHIA INQUIRIRER

Neste cenário, grupos que reivindicam o nome e os ideais dos Panteras Negras ressurgem com força. A relação política agora é clara:


Anti-imperialismo: Assim como os Panteras de 66 se recusavam a lutar no Vietnã, os novos movimentos enfrentam a política externa agressiva e o isolacionismo de Trump.


Luta de Classes: A crescente desigualdade econômica nos EUA revalida a tese marxista de que o "pão e terra" só serão alcançados através da reorganização dos meios de produção.


Confronto com a Polícia: As mortes de cidadãos negros pelas mãos do Estado mantêm a necessidade da autodefesa como um imperativo de sobrevivência.


Embora o partido tenha tido muitas vozes importantes, o "triunvirato" fundamental para a fundação e a expansão nacional foi composto por Huey P. Newton, Bobby Seale e Eldridge Cleaver.


1. Huey P. Newton (1942–1989): O Ideólogo e Estrategista

Cofundador e Ministro da Defesa do BPP, Newton foi o principal arquiteto intelectual da organização. Ele sintetizou o nacionalismo negro com o marxismo-leninismo, adaptando o conceito de "comunismo intercommunalista". Newton ganhou notoriedade mundial após sua prisão em 1967, que deu origem à campanha internacional "Free Huey". Sob sua liderança, o partido estabeleceu os "Programas de Sobrevivência", como o café da manhã gratuito para crianças, provando que a revolução também se fazia com assistência social e educação política.


2. Bobby Seale (1936–): O Organizador e a Face do Partido

Como Presidente e cofundador, Seale foi a força organizadora que transformou a teoria de Newton em ação prática. Ele foi responsável por redigir, junto a Huey, o Programa de Dez Pontos, que exigia terra, pão, habitação, educação e o fim da brutalidade policial. Seale tornou-se um símbolo da resistência jurídica e política ao ser um dos réus do caso "Os Oito de Chicago", onde foi amordaçado e acorrentado em pleno tribunal, evidenciando o tratamento do Estado americano contra as lideranças revolucionárias negras.


3. Eldridge Cleaver (1935–1998): O Ministro da Informação

Cleaver uniu-se ao partido logo após sair da prisão, trazendo consigo um prestígio intelectual devido ao seu livro Soul on Ice. Como Ministro da Informação, ele foi fundamental para a radicalização do discurso e para a projeção midiática do partido. Cleaver representava a ala mais militante e internacionalista, defendendo a guerrilha urbana e estabelecendo conexões com regimes comunistas na Ásia e África durante seu exílio. Sua atuação consolidou a estética e a retórica de confronto direto que definiram a imagem pública dos Panteras no final dos anos 60.


Embora unidos pelo marxismo-leninismo, a dinâmica entre esses três líderes era complexa. Newton e Seale focavam mais no trabalho de base comunitária em Oakland, enquanto Cleaver impulsionava uma agenda de confronto mais agressiva, o que eventualmente contribuiu para as cisões internas do partido sob pressão do programa COINTELPRO do FBI.


A Luta é Permanente

O retorno da estética e da retórica dos Panteras Negras não é um saudosismo, mas uma resposta dialética à opressão. Enquanto o sistema imperialista e o racismo estrutural persistirem, o espírito dos "BPP" aqueles que lutam pela soberania do povo e contra a hegemonia das elites continuará a mobilizar as minorias ao redor do mundo.


A história prova que o punho erguido não é apenas uma saudação, mas um compromisso com a transformação radical da sociedade.



As opiniões expressas neste artigo são de inteira responsabilidade do autor e não representam, necessariamente, a linha editorial do Jornal Clandestino, nem a posição dos demais autores do veículo.

 
 
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