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Por que milhares de soldados estão sendo mobilizados na África Ocidental?

Países da África Ocidental decidiram ativar uma força regional de prontidão para enfrentar a escalada de violência de grupos armados que operam do Mali à Nigéria. A decisão foi tomada na semana passada, durante reunião de chefes militares da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), realizada em Serra Leoa, conforme noticiado pela agência Anadolu em 2 de março de 2026. O plano prevê a mobilização inicial de 2 mil soldados até o fim de 2026. A região registrou 12.964 mortes relacionadas a conflitos apenas entre janeiro e junho de 2025, em 5.907 incidentes, segundo o Centro para a Democracia e o Desenvolvimento. A medida ocorre em meio à ruptura política entre a CEDEAO e a Aliança dos Estados do Sahel (AES), formada por Mali, Níger e Burkina Faso após sucessivos golpes militares.


Soldados de Burkina Faso ©BBC
Soldados de Burkina Faso ©BBC

A ativação da chamada Força de Reserva da CEDEAO ocorre diante do avanço territorial e tático de organizações armadas ideologicamente alinhadas à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico, que têm ampliado ataques contra bases militares e comunidades civis. Países do Sahel — Mali, Níger, Burkina Faso e Nigéria — concentram a maioria das vítimas, mas a violência já avança em direção aos Estados costeiros do Togo e do Benim.


Em janeiro, um grupo ligado ao Estado Islâmico reivindicou ataque ao aeroporto internacional de Niamey, capital do Níger. Desde setembro de 2025, a principal facção afiliada à Al-Qaeda na região mantém bloqueios nas rotas de abastecimento de combustível para Bamako, capital do Mali, incendiando caminhões-tanque e agravando a crise energética do país.


Criada formalmente em 1999 — após atuar ainda na década de 1990 sob o nome ECOMOG — a Força de Reserva da CEDEAO já interveio nas guerras civis da Libéria e de Serra Leoa entre 1990 e 2003, além de missões na Costa do Marfim (2002-2003), no Mali (2012-2013) e na Gâmbia, onde pressionou Yahya Jammeh a reconhecer a derrota eleitoral. Ao contrário de operações tradicionais da ONU, a força regional envolveu-se diretamente em combates, sendo também alvo de denúncias de violações de direitos humanos.


Agora, porém, o desafio é distinto. Será a primeira vez que a força enfrentará de forma estruturada grupos armados transnacionais com ideologia jihadista consolidada e redes de financiamento próprias. A fragmentação política do bloco agrava o cenário.


Em janeiro de 2025, Mali, Níger e Burkina Faso formalizaram sua saída da CEDEAO e consolidaram a formação da Aliança dos Estados do Sahel (AES), após sanções impostas pelo bloco que exigiam cronogramas eleitorais e retorno ao governo civil. Os três países são o epicentro das operações dos grupos armados e concentram extensas zonas fronteiriças porosas, utilizadas como corredores logísticos.


A AES anunciou a criação de sua própria força conjunta de 6 mil homens. Paralelamente, rompeu laços militares com a França, antiga potência colonial que mantinha cerca de 4 mil soldados na região até 2023, e aprofundou cooperação com Moscou. Aproximadamente 2 mil combatentes russos — inicialmente do grupo Wagner e posteriormente integrados ao Afrika Korps, controlado pelo Estado russo — foram deslocados para os três países.


A CEDEAO, cuja sede está em Abuja, depende historicamente da Nigéria para sustentar suas operações: o país costuma fornecer cerca de 75% do contingente das missões regionais. No entanto, a Nigéria enfrenta múltiplas frentes internas, combatendo insurgências no nordeste, violência criminosa no noroeste e centro-norte, além de movimentos separatistas no sul.


O financiamento é outro obstáculo central. A Nigéria, principal fiadora econômica do bloco, atravessou crise inflacionária aguda em 2023 e recuperação lenta no pós-pandemia. Há expectativa de apoio externo, inclusive dos Estados Unidos, que retomaram cooperação militar com Abuja em dezembro, e da França, que vem reforçando laços diplomáticos com o governo nigeriano após seu desgaste no Sahel.


A escalada da violência é impulsionada por pelo menos oito organizações armadas ativas na região. Entre elas está o Jama'at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), formado em 2017 pela fusão de quatro grupos malianos e estimado entre 5 mil e 6 mil combatentes. O Boko Haram, originado no estado de Borno em 2010 e responsável pelo sequestro de mais de 300 meninas em Chibok em 2014, mantém cerca de 1.500 combatentes após o enfraquecimento provocado pela morte de Abubakar Shekau em 2021. O Estado Islâmico na Província da África Ocidental (ISWAP) opera com contingente estimado entre 3.500 e 5 mil membros. Já o Estado Islâmico no Sahel (ISSP), ativo principalmente no Níger e Mali, reivindicou o ataque em Niamey. O grupo Lakurawa, estimado em cerca de mil combatentes, foi alvo de ataques aéreos realizados pelos Estados Unidos no Natal de 2025. O Ansaru, dissidência do Boko Haram ligada à Al-Qaeda, mantém entre 2 mil e 3 mil membros e histórico de sequestro de estrangeiros.


A possibilidade de coordenação entre CEDEAO e AES permanece incerta. Senegal, Gana e Togo atuam como mediadores, mantendo canais diplomáticos abertos. No entanto, líderes militares da AES rejeitam, até o momento, retorno ao bloco regional.



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