Prisão em El Salvador transforma encarceramento em punição perpétua sob silêncio e propaganda
- www.jornalclandestino.org

- 30 de abr. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 5 de mai. de 2025
Erguida em sigilo nos arredores da zona rural de Tecoluca, no coração de El Salvador, uma estrutura gigantesca se impõe como símbolo da era Bukele: o Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot). Com capacidade para 40 mil presos, a prisão de segurança máxima foi projetada como um repositório humano, destinado não à reabilitação, mas ao exílio definitivo. Nas palavras de Noah Bullock, diretor executivo da organização de direitos humanos Cristosal: “Cecot é intencionalmente cruel”.

Trata-se de uma instalação onde o tempo não passa — e de onde nenhuma informação escapa. Nem mesmo visitas jornalísticas são permitidas. Apenas um homem é conhecido por ter deixado o local vivo. O controle é absoluto: as luzes nunca se apagam, as celas chegam a abrigar até 80 detentos e o acesso ao mundo exterior é inexistente. Para os que caem ali, resta o silêncio. Para os que ousam criticar do lado de fora, o medo.
Desde que o presidente Nayib Bukele decretou estado de exceção em 2022, mais de 85 mil salvadorenhos foram presos, muitos sem julgamento ou provas de vínculos com gangues. A maioria encontra-se em prisão preventiva, sem perspectiva de liberdade ou mesmo de audiência. A prisão em massa recebeu o respaldo popular por ter reduzido drasticamente os homicídios — mas ao custo de direitos fundamentais e da consolidação de um poder autocrático.
A construção de Cecot foi imposta sem qualquer consulta pública. Os primeiros sinais surgiram com a chegada de caminhões e tratores; depois vieram os checkpoints militares. Agricultores foram pressionados a vender suas terras, sob ameaça de expropriação. O anúncio oficial só veio após uma denúncia da rádio local YSUCA: Bukele confirmou via Twitter que estava construindo uma "mega-prisão para 40 mil terroristas" — número que ultrapassa a população de todo o distrito.
Por dentro, as imagens cuidadosamente filtradas pelo governo mostram um cenário quase teatral: celas sem colchões, cabeças raspadas, corpos curvados, e agentes armados em todas as direções. Um espetáculo para influenciadores, políticos republicanos e jornalistas selecionados. Tudo devidamente roteirizado. Segundo Bullock, trata-se de uma "encenação da autoridade", feita sob medida para apagar dúvidas e justificar a violência institucionalizada.
A parceria com os EUA também levanta alarmes: 238 migrantes venezuelanos já foram enviados ao Cecot, e o ex-presidente Donald Trump expressou desejo de deportar até cidadãos americanos para lá. Uma política de terceirização do encarceramento travestida de segurança internacional.
Enquanto isso, a população de Tecoluca amarga os efeitos colaterais da prisão: rios contaminados, bloqueio de sinal de celular, e o estigma de viver à sombra de uma instalação associada à brutalidade e à opressão. "Eu preferia uma mega-universidade", lamenta um morador da comunidade El Milagro, enquanto revira o lodo de um riacho envenenado pelos dejetos da prisão.
Cecot não é apenas uma prisão. É uma narrativa arquitetada, uma vitrine do autoritarismo disfarçado de ordem, onde a punição substitui a justiça e o silêncio é a única voz que ressoa pelos corredores de concreto. É o espelho invertido de um país que trocou o terror das gangues pelo medo do Estado — e onde a obediência é o novo nome da paz.
Trata-se de uma instalação onde o tempo não passa — e de onde nenhuma informação escapa. Nem mesmo visitas jornalísticas são permitidas. Apenas um homem é conhecido por ter deixado o local vivo. O controle é absoluto: as luzes nunca se apagam, as celas chegam a abrigar até 80 detentos e o acesso ao mundo exterior é inexistente. Para os que caem ali, resta o silêncio. Para os que ousam criticar do lado de fora, o medo.
Desde que o presidente Nayib Bukele decretou estado de exceção em 2022, mais de 85 mil salvadorenhos foram presos, muitos sem julgamento ou provas de vínculos com gangues. A maioria encontra-se em prisão preventiva, sem perspectiva de liberdade ou mesmo de audiência. A prisão em massa recebeu o respaldo popular por ter reduzido drasticamente os homicídios — mas ao custo de direitos fundamentais e da consolidação de um poder autocrático.
A construção de Cecot foi imposta sem qualquer consulta pública. Os primeiros sinais surgiram com a chegada de caminhões e tratores; depois vieram os checkpoints militares. Agricultores foram pressionados a vender suas terras, sob ameaça de expropriação. O anúncio oficial só veio após uma denúncia da rádio local YSUCA: Bukele confirmou via Twitter que estava construindo uma "mega-prisão para 40 mil terroristas" — número que ultrapassa a população de todo o distrito.
Por dentro, as imagens cuidadosamente filtradas pelo governo mostram um cenário quase teatral: celas sem colchões, cabeças raspadas, corpos curvados, e agentes armados em todas as direções. Um espetáculo para influenciadores, políticos republicanos e jornalistas selecionados. Tudo devidamente roteirizado. Segundo Bullock, trata-se de uma "encenação da autoridade", feita sob medida para apagar dúvidas e justificar a violência institucionalizada.
A parceria com os EUA também levanta alarmes: 238 migrantes venezuelanos já foram enviados ao Cecot, e o ex-presidente Donald Trump expressou desejo de deportar até cidadãos americanos para lá. Uma política de terceirização do encarceramento travestida de segurança internacional.
Enquanto isso, a população de Tecoluca amarga os efeitos colaterais da prisão: rios contaminados, bloqueio de sinal de celular, e o estigma de viver à sombra de uma instalação associada à brutalidade e à opressão. "Eu preferia uma mega-universidade", lamenta um morador da comunidade El Milagro, enquanto revira o lodo de um riacho envenenado pelos dejetos da prisão.
Cecot não é apenas uma prisão. É uma narrativa arquitetada, uma vitrine do autoritarismo disfarçado de ordem, onde a punição substitui a justiça e o silêncio é a única voz que ressoa pelos corredores de concreto. É o espelho invertido de um país que trocou o terror das gangues pelo medo do Estado — e onde a obediência é o novo nome da paz.

























