QUANDO A TERRA APRENDE A CHORAR
- Gilson Siqueira
- 19 de jan.
- 1 min de leitura
Atualizado: 20 de jan.
POESIA
Gilson Luiz Siqueira
Há um cansaço antigo no chão da Palestina,
um cansaço que não dorme,
que acorda antes do sol
e já sabe que o dia virá ferido.
As casas não caem apenas,
elas se despedem.
Cada parede guarda um nome,
cada ruína ainda chama por alguém.
Mulheres caminham com a dor bem treinada,
sabem esconder o medo no fundo dos olhos
para que os filhos consigam seguir respirando.
Carregam a vida no colo
como quem protege uma chama no vento.
As crianças aprendem cedo demais
o som que antecede o silêncio.
Seus brinquedos são restos,
seus desenhos têm fumaça,
e a infância escorre
antes de virar memória.
Os idosos sentam-se sobre o tempo,
contando o que foi perdido
como quem reza sem palavras.
Eles lembram de oliveiras,
de ruas inteiras,
de manhãs que não precisavam de coragem.
O conflito não pede licença.
Chega rasgando o céu,
invade cozinhas, camas, orações.
Ataques não escolhem corpos,
apenas interrompem histórias.
Direitos humanos ali
não são textos,
são urgências.
São pedidos simples:
viver, voltar, enterrar os mortos
sem medo do próximo dia.
Há tristeza em cada intervalo do ar,
mas há também uma recusa silenciosa
em desaparecer.
Mesmo esmagado,
o povo permanece.
Porque aquela terra,
ainda que ferida,
continua humana.


























