Israel e Somalilândia: Quando o “reconhecimento” vira arma e falha
- www.jornalclandestino.org

- 19 de jan
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Quem ganha quando um território é reconhecido de fora para dentro? A versão oficial fala em autodeterminação, estabilidade e pragmatismo diplomático. A realidade sentida por quem vive o chão da Somália mostra outra coisa: o reconhecimento de Somalilândia por Israel não foi um gesto de legitimidade, obviamente que não, o teatro não passou de mais uma jogada suja — e, como toda jogada suja, produziu o efeito inverso.
Não se trata de Somalilândia, propriamente. Trata-se de um sistema que transforma fragmentação em método e soberania em moeda de troca. No Chifre da África, essa moeda ganhou forma concreta. O Mar Vermelho virou corredor estratégico, Bab al-Mandab virou gargalo do comércio global, e a costa da Somália passou a valer mais do que a vida de quem mora nela. Portos, bases, rotas e inteligência militar falam mais alto do que histórias, vínculos e pertencimento. O reconhecimento de Somalilândia por Israel entra exatamente aí: como peça de uma disputa que usa movimentos separatistas como ferramentas descartáveis.
A tentativa de criar um “Eixo da Secessão” não se sustenta sozinha. Ela precisa de Estados enfraquecidos, conflitos prolongados e elites locais dispostas a trocar futuro por tutela. Mas há uma contradição central que os estrategistas ignoraram: quanto mais explícita se torna essa lógica, mais ela produz reação. E a reação veio.
Veio das ruas de Mogadíscio, com bandeiras somalis reafirmando uma unidade que diziam inexistente. Veio da diplomacia regional, com Arábia Saudita, Turquia, Egito e Catar fechando fileiras contra a fragmentação. Veio da China, que enxerga no precedente separatista uma ameaça global. Veio até de aliados históricos de Israel, constrangidos a reafirmar a integridade territorial da Somália.
![Moradores agitam bandeiras somalis enquanto participam de um comício denunciando o recente anúncio de Israel reconhecendo a região separatista da Somalilândia, durante um encontro que clama pela unidade territorial da Somália no Estádio de Mogadíscio, em Mogadíscio, em 30 de dezembro de 2025 [AFP]](https://static.wixstatic.com/media/3a76c2_f19559958464446c84ecd85390764577~mv2.avif/v1/fill/w_770,h_513,al_c,q_85,enc_avif,quality_auto/3a76c2_f19559958464446c84ecd85390764577~mv2.avif)
O que era para isolar a Somália acabou por recentrá-la. O que pretendia legitimar Somalilândia aprofundou suas fissuras internas. A associação com Israel, num momento em que Gaza expõe ao mundo a violência estrutural do projeto colonial, transformou o reconhecimento em estigma. Para grande parte do mundo árabe e muçulmano, esse selo não abre portas — fecha.
No plano interno, a contradição é ainda mais visível. Somalilândia já não controla todo o território que reivindica. Novas formações políticas juraram lealdade ao governo federal. Parte significativa da população rejeita a normalização com Israel. O discurso da soberania esbarra na realidade da dependência. O projeto de Estado se revela um projeto de enclave.
Nós, que vivemos sob sistemas que nos prometem estabilidade enquanto nos empurram para a insegurança permanente, reconhecemos esse roteiro que sempre termina do mesmo jeito.
Para a Somália, a lição é dura e clara. Não há espaço para ambiguidade quando a fragmentação vira estratégia externa. Coesão interna deixa de ser ideal e passa a ser condição de sobrevivência. Diplomacia errática custa caro. Divisão política vira brecha.
No fim, o episódio desmonta a ilusão de que reconhecimento internacional, isolado de processos reais e populares, cria legitimidade. Não cria. O que cria legitimidade é vínculo, é participação, é soberania construída de baixo para cima. O resto é assinatura em papel instável.



















































