Relatório da ONU alerta que planeta entra em “falência global da água”
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O mundo deixou de viver uma crise hídrica temporária e passou a enfrentar uma “falência global da água”, segundo relatório divulgado por pesquisadores da ONU. O estudo aponta que, em diversas regiões, os sistemas hídricos já não conseguem se recuperar aos níveis históricos, ampliando riscos sociais, econômicos e ambientais em escala global.

Um novo relatório de referência da Organização das Nações Unidas afirma que o planeta ultrapassou a fase de crise da água e entrou em um estado de falência hídrica global. De acordo com os pesquisadores, a escassez deixou de ser episódica e passou a ser estrutural em muitas regiões, onde a disponibilidade de água já não consegue retornar aos padrões do passado.
Durante coletiva de imprensa em Nova York, o diretor do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas, Kaveh Madani, afirmou que, para grande parte do mundo, o conceito de normalidade hídrica deixou de existir. Segundo ele, o objetivo do relatório não é eliminar a esperança, mas estimular ações concretas a partir do reconhecimento das falhas atuais na gestão da água.
O estudo destaca que não se trata de um colapso total e simultâneo, mas de múltiplos sistemas hídricos falidos ou próximos disso. Esses sistemas, interligados por cadeias comerciais, fluxos migratórios e dependências geopolíticas, alteram de forma significativa o panorama global de riscos relacionados à água.
Os impactos recaem de maneira desigual sobre a população. Pequenos agricultores, povos indígenas, moradores de áreas urbanas de baixa renda, além de mulheres e jovens, concentram os maiores prejuízos. Em contrapartida, os benefícios do uso excessivo e da exploração dos recursos hídricos tendem a se acumular entre grupos com maior poder econômico e político.
O relatório introduz o conceito de “falência por dívida hídrica”, caracterizada por dois fatores centrais: a insolvência e a irreversibilidade. A insolvência ocorre quando a extração e a poluição da água ultrapassam os níveis de renovação natural e os limites seguros de esgotamento. Já a irreversibilidade refere-se a danos permanentes a ecossistemas essenciais, como lagos e zonas úmidas, que inviabilizam a recuperação das condições originais.
Apesar do cenário crítico, os autores ressaltam que a falência não significa o fim das possibilidades de resposta. Segundo Madani, o conceito deve ser entendido como o início de um plano estruturado de recuperação, que inclua a contenção das perdas, a proteção de serviços essenciais, a revisão de usos insustentáveis e investimentos voltados à reconstrução dos sistemas hídricos.
Os dados apresentados reforçam a gravidade do quadro. Mais da metade dos grandes lagos do mundo encolheu desde o início da década de 1990, enquanto cerca de 35% das áreas úmidas naturais desapareceram desde 1970. Atualmente, quase três quartos da população mundial vivem em países classificados com insegurança hídrica ou insegurança hídrica crítica.
O custo humano e econômico já é elevado. Aproximadamente quatro bilhões de pessoas enfrentam escassez severa de água por pelo menos um mês ao ano, e os impactos das secas geram prejuízos estimados em cerca de US$ 307 bilhões anuais.
O relatório alerta que tratar essas falhas como crises temporárias, com soluções de curto prazo, tende a agravar os danos ambientais e intensificar conflitos sociais. Como alternativa, os pesquisadores defendem uma mudança de abordagem: da gestão de crises para a gestão da falência, baseada no reconhecimento das perdas irreversíveis, na proteção dos recursos remanescentes e na adoção de políticas alinhadas à realidade hidrológica atual, e não a padrões do passado.



















































