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Sequestrar presidentes: das Comores à Venezuela, a mesma lógica de dominação

ARTIGO DE OPINIÃO

Por Mohammed Hadjab / Analista geopolítico


A história contemporânea é marcada por episódios em que potências estrangeiras se arrogam o direito de decidir o destino político de outros povos. O sequestro do presidente das Comores, Said Mohamed Djohar, pela França em 1995, e as ameaças abertas, tentativas de desestabilização e projetos de captura ou destituição forçada de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos durante o governo Donald Trump revelam uma mesma lógica de dominação, travestida de legalidade, segurança ou defesa da democracia.


Em 1995, no contexto da Operação Azalée, a França interveio militarmente nas Comores após um golpe liderado pelo mercenário francês Bob Denard. O presidente Djohar, embora eleito, foi retirado de seu país e levado à ilha da Reunião sob o pretexto de proteção e cuidados médicos. Na prática, tratou-se de uma privação de soberania, na qual uma antiga potência colonial decidiu quando, onde e se um chefe de Estado africano poderia governar. Esse ato constituiu uma forma clara de sequestro político, mascarado por um discurso humanitário e de restauração da ordem.


Said Mohamed Djohar (1910–2006) foi um político comorense que desempenhou papel central na história recente das Comores. Ele assumiu a presidência do país em 1990, em um período de instabilidade política marcada por golpes e interferências externas.
Said Mohamed Djohar (1910–2006) foi um político comorense que desempenhou papel central na história recente das Comores. Ele assumiu a presidência do país em 1990, em um período de instabilidade política marcada por golpes e interferências externas.

Décadas depois, no caso venezuelano, os Estados Unidos — sob a presidência de Donald Trump — não esconderam sua intenção de derrubar, capturar ou eliminar politicamente Nicolás Maduro, por meio de sanções extremas, reconhecimento de um presidente paralelo, apoio a tentativas de golpe e até discussões públicas sobre intervenção militar. A lógica é semelhante: negar a soberania de um Estado, deslegitimar seu governo e reivindicar o direito de decidir quem deve ou não dirigir um país, em função de interesses geopolíticos e econômicos.


Nos dois casos, o direito internacional é instrumentalizado de forma seletiva. Quando se trata de países do Sul Global, a legalidade torna-se flexível, a soberania negociável e a democracia uma variável ajustável aos interesses das grandes potências. Djohar foi afastado em nome da estabilidade; Maduro foi alvo de uma estratégia de asfixia em nome da “libertação” do povo venezuelano. Em ambos os casos, os povos foram reduzidos a espectadores de decisões tomadas fora de suas fronteiras.


INSTAGRAM ©nicolasmaduro
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O paralelo entre Comores e Venezuela revela, portanto, uma continuidade histórica: o sequestro físico ou político de dirigentes indesejáveis, sempre justificado por um discurso moralizador, mas profundamente enraizado em práticas neocoloniais e imperialistas. Muda o contexto, mudam os atores, mas permanece a mesma recusa em reconhecer plenamente a autodeterminação dos povos quando ela contraria os interesses dos poderosos.



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