
MODO DE NAVEGAÇÃO
A destruição promovida por Israel na Faixa de Gaza desestruturou sistemas de transporte, circulação de dinheiro e acesso à internet. Em meio ao genocídio iniciado em 7 de outubro de 2023, palestinos passaram a utilizar um cartão de papel para conseguir se deslocar. A solução foi desenvolvida localmente diante da ausência de infraestrutura básica e da exclusão tecnológica imposta pelas condições no território.

Quando Ayat Hani precisa se deslocar pela Cidade de Gaza, o principal obstáculo não são apenas as estradas danificadas ou o calor, mas a ausência de dinheiro em espécie. Grávida e mãe de dois filhos, residente no bairro de Sahaba, ela relata ao The New Arab que não consegue pagar transporte por falta de troco. “Toda vez que tento pegar uma carona, não encontro ninguém que aceite pagamento sem o valor exato em dinheiro, e eu nunca o tenho”, afirmou. Diante disso, ela permanece longos períodos esperando ou caminha sob exposição ao sol. “É exaustivo e constrangedor às vezes”, declarou.
A situação relatada por Ayat expressa uma crise no sistema de mobilidade em Gaza, resultante da combinação entre destruição material, colapso econômico e restrição ao acesso tecnológico. O dinheiro físico deixou de circular em grande parte do território, com escassez de notas de baixo valor necessárias para pagamentos cotidianos. Paralelamente, o preço dos combustíveis elevou o custo do transporte a cerca de cinco vezes em comparação ao período anterior ao genocídio.
Alternativas digitais não se consolidaram. A infraestrutura de telecomunicações opera com limitações, baseada em rede 2G, com acesso instável ou inexistente à internet durante deslocamentos. A população também enfrenta restrições no acesso a dispositivos. Muitos aparelhos foram destruídos, e os disponíveis no mercado possuem preços fora do alcance da maioria.
Amani Abu Sa'da, com mais de sessenta anos, vive deslocada no bairro de Nasr, na zona oeste da Cidade de Gaza. Sem smartphone ou acesso a sistemas digitais, ela relata isolamento. “Quase toda a minha vida se passa dentro do campo”, disse ao The New Arab. “Só saio quando é absolutamente necessário.” Ao tentar se deslocar, encontra barreiras físicas e financeiras. “Mesmo que eu encontre um veículo, não tenho como pagar.”
A destruição causada pelos ataques israelenses atingiu aproximadamente 81% das estruturas na Faixa de Gaza, segundo dados citados na reportagem, impactando diretamente a mobilidade urbana. Veículos foram danificados, reduzindo a oferta de transporte disponível.
Ghazal Murshid, de 14 anos, deslocada para o bairro de Tuffah, enfrenta dificuldades para frequentar aulas de inglês. Ela tenta negociar com motoristas para pagar depois da viagem, mas relata recusas. “A espera é longa e afeta minha concentração”, afirmou.
Diante desse cenário, Mohammed Abu Jiab e sua equipe da Aqlam Tech Gaza desenvolveram o sistema “Bitaqaty”, que significa “Meu Cartão”. Segundo ele, a iniciativa responde à ausência de dinheiro físico, que atinge mais de 95% da população e dos mercados locais. “Há uma crise agravada no setor de transportes”, declarou ao The New Arab.
A equipe descartou soluções digitais baseadas em aplicativos devido às limitações técnicas e econômicas da população. Em vez disso, optou por um modelo analógico: um cartão de papel adquirido em supermercados e pontos de venda distribuídos pelo território. O passageiro entrega o cartão ao motorista ao final da viagem.
“Nosso lema era claro: nada de smartphones, nada de internet”, afirmou Mohammed. O cartão contém dados codificados que são lidos por um aplicativo no celular do motorista. Após coletar os cartões, o condutor escaneia os códigos QR e recebe os pagamentos por meio de sistema bancário, processado em ciclos de até doze horas.
O modelo funciona como um sistema de bilhetagem antecipada adaptado à ausência de infraestrutura. “O cidadão aqui não compra a passagem em uma estação, mas sim no supermercado e nos pontos de venda espalhados pela cidade”, explicou Mohammed.
Segundo ele, cerca de 500 motoristas já aderiram ao sistema em diferentes regiões de Gaza. A operação depende de uma rede fragilizada, que inclui pontos de venda, sistema bancário e dispositivos móveis, todos sujeitos a interrupções decorrentes de cortes de energia, deslocamentos forçados e continuidade dos ataques israelenses.
O sistema busca responder a uma necessidade imediata: permitir deslocamentos em um território onde mecanismos básicos de funcionamento social foram interrompidos. Para Ayat Hani, a possibilidade de embarcar sem dinheiro exato representa a única alternativa disponível. “Desejo uma solução real e rápida para a crise dos transportes”, afirmou.
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5 de maio de 2026

































