

Da guerra do Kuwait ao ataque ao Irã: três décadas de intervenções estadunidenses que produziram caos no oriente médio
1 de ago. de 2024
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A ofensiva lançada pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra o Irã reacende um padrão histórico de intervenções militares estadunidenses no Oriente Médio que se arrasta desde o fim da Guerra Fria. Ao longo de três décadas – da Guerra do Golfo de 1990-1991 à invasão do Iraque em 2003 – operações conduzidas ou lideradas por Washington foram justificadas como necessárias para estabilidade regional, mas frequentemente resultaram em destruição prolongada e rearranjos geopolíticos imprevistos. A atual escalada contra Teerã ocorre em um cenário ainda mais volátil, agravado pelo martírio de Khamenei após ataques conjuntos conduzidos por forças estadunidenses e israelenses. Ao contrário de conflitos anteriores, a nova campanha surge sem consenso internacional claro e acompanhada de justificativas contraditórias dentro do próprio governo estadunidense. O resultado é uma guerra cujo alcance e consequências permanecem imprevisíveis, mas que se insere em um histórico consistente de projetos de mudança de governo que nunca produziram – ou tiveram intenção de produzir – estabilidade.
Desde a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos tentaram derrubar governos no Oriente Médio aproximadamente uma vez por década, padrão documentado em estudos sobre política externa estadunidense e intervenções de regime no século XX e XXI (1). Em todos os casos, o resultado foi a abertura de ciclos prolongados de instabilidade regional, insurgências armadas e colapso institucional. A atual ofensiva contra o Irã – um país de cerca de 90 milhões de habitantes segundo dados do Banco Mundial – amplia esse histórico ao tentar desmantelar uma estrutura estatal complexa em uma das regiões geopolíticas mais estratégicas do planeta.
A primeira Guerra do Golfo, entre 1990 e 1991, teve início após a invasão do Kuwait pelo regime de Saddam Hussein em 2 de agosto de 1990. O então presidente estadunidense George H. W. Bush liderou uma coalizão internacional autorizada pela Resolução 678 do Conselho de Segurança da ONU para expulsar as forças iraquianas. A operação militar conhecida como Tempestade no Deserto começou em 17 de janeiro de 1991 e terminou com a retirada das tropas iraquianas em 28 de fevereiro daquele ano, após uma campanha terrestre de aproximadamente 100 horas.

Mesmo considerada uma operação militar de escopo limitado, o conflito deixou consequências. Após a derrota de Bagdá, Washington incentivou revoltas internas contra Saddam Hussein, especialmente entre comunidades curdas no norte e xiitas no sul do Iraque. No entanto, quando as forças do regime responderam com repressão violenta em março de 1991, os Estados Unidos optaram por não intervir diretamente. Relatos contemporâneos indicam que milhares de civis foram mortos durante a repressão das insurreições (2).
A guerra também consolidou uma presença militar permanente dos Estados Unidos no Golfo. Segundo o cientista político Marc Lynch, aproximadamente 500 mil soldados estadunidenses foram mobilizados para o Oriente Médio durante o conflito. Mesmo após o fim da campanha militar, essa presença se transformou em uma rede duradoura de bases militares distribuídas pelo Golfo, Levante e sul da Turquia, estrutura descrita por Lynch como “o alicerce infraestrutural da supremacia americana” na região (3).
A segunda grande intervenção ocorreu em 2003, quando o presidente George W. Bush ordenou a invasão do Iraque sob a alegação de que o país possuía armas de destruição em massa. Posteriormente, investigações conduzidas pelo Senado dos Estados Unidos e pela Comissão de Inteligência sobre Armas de Destruição em Massa no Iraque concluíram que essas armas não existiam, expondo uma “falha” crítica de inteligência e de avaliação estratégica (4).
Durante audiências no Congresso em fevereiro de 2003, o então subsecretário de Defesa Paul Wolfowitz afirmou que os iraquianos receberiam as tropas invasoras como libertadoras.
“Os iraquianos são 23 milhões das pessoas mais instruídas do mundo árabe… a ideia de que ganharíamos mais inimigos entrando e nos livrando daquele que todo árabe reconhece como um dos piores tiranos é um absurdo”, declarou, conforme registros oficiais do Comitê de Serviços Armados da Câmara dos Representantes.
Outro defensor da derrubada de Saddam Hussein foi Benjamin Netanyahu, então líder da oposição em Israel, que em depoimento ao Congresso estadunidense em 2002 afirmou que a queda do regime iraquiano teria “enormes repercussões positivas em toda a região”. Segundo relatos da época, o argumento defendia que a remoção de Bagdá estimularia mudanças políticas em países considerados adversários estratégicos de Washington.
O resultado foi exatamente o oposto. O colapso do Estado iraquiano abriu espaço para insurgências armadas, conflitos sectários e o surgimento do grupo Estado Islâmico. Estimativas do projeto Costs of War, da Brown University, indicam que a guerra custou cerca de US$ 2 trilhões aos Estados Unidos e resultou na morte de entre 150 mil e 1 milhão de pessoas, dependendo da metodologia utilizada por diferentes estudos acadêmicos (5).
John Sawers, que atuou como representante especial do Reino Unido em Bagdá em 2003 e posteriormente chefiou o MI6, descreveu o cenário pós-invasão como “caos total”. Em análises posteriores, ele afirmou que não houve planejamento real para o período posterior à queda do regime.
“Os americanos estavam entrincheirados em seus tanques e veículos blindados, sem interação com a população iraquiana”, afirmou em entrevistas posteriores ao conflito.

“No Iraque, os EUA intervieram e ocuparam, e o resultado foi um desastre custoso. Na Líbia, intervieram mas não ocuparam, e o resultado foi um desastre custoso. Na Síria, não intervieram nem ocuparam, e o resultado foi um desastre custoso”, escreveu (6).
Apesar desse histórico, o governo de Donald Trump lançou uma nova campanha militar contra o Irã, chamada Operação Fúria Épica. Diferentemente do período que antecedeu a invasão do Iraque – quando o secretário de Estado Colin Powell apresentou na ONU, em 5 de fevereiro de 2003, uma exposição multimídia alegando a existência de laboratórios móveis de armas biológicas – a ofensiva atual foi conduzida com forte ênfase no fator surpresa e com pouca mobilização diplomática pública.
Dentro do próprio governo estadunidense, as justificativas para a guerra variaram. O secretário de Defesa Pete Hegseth afirmou que “regimes insanos como o Irã, obcecados por delírios proféticos islâmicos, não podem ter armas nucleares”. O vice-presidente JD Vance declarou que negociações nucleares haviam perdido credibilidade, citando o enriquecimento de urânio a 60% pelo Irã – nível confirmado em relatórios recentes da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que a própria AIEA afirmou não indicarem uso para armas.
O enviado internacional de Trump, Steve Witkoff, declarou que o país estaria a apenas uma semana de produzir material nuclear suficiente para bombas em escala industrial. Já o secretário de Estado Marco Rubio apresentou uma explicação diferente ao afirmar que Washington sabia previamente que Israel atacaria o Irã e que isso inevitavelmente provocaria uma resposta contra tropas estadunidenses na região.
“Sabíamos que haveria uma ação israelense. Sabíamos que isso precipitaria um ataque contra as forças americanas e sabíamos que, se não os atacássemos preventivamente, sofreríamos baixas ainda maiores”, disse Rubio em coletiva de imprensa.

Os ataques conjuntos conduzidos por forças estadunidenses e israelenses culminaram no martírio de Khamenei, líder do Irã, desencadeando manifestações massivas em Teerã e intensificando o risco de escalada regional. Segundo fontes governamentais iranianas e relatos da imprensa local, milhões de pessoas participaram de manifestações em diferentes cidades do país nos dias seguintes ao ataque.
Em paralelo, Trump afirmou publicamente buscar no Irã uma figura que pudesse assumir o poder de maneira pragmática e alinhada aos interesses de Washington, estratégia semelhante à defendida anteriormente por autoridades estadunidenses em outras operações de mudança de governo.
Especialistas em segurança regional alertam que um colapso do Estado iraniano poderia fragmentar o país ao longo de linhas étnicas. O Irã abriga importantes minorias – incluindo curdos, balúchis, árabes ahwazi e azerbaijanos – concentradas justamente nas regiões onde se encontram as maiores reservas de petróleo e gás do país, segundo dados da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) (7).
John Sawers advertiu que esse cenário poderia produzir um Estado falido de grandes proporções. “Se o país se dissolver em partes, surgirão administrações locais baseadas em etnia e poder regional. Sabemos pelos últimos 40 anos que esses países se tornam centros de terrorismo, contrabando, tráfico de armas e criminalidade”, afirmou.
O risco estratégico dessa nova guerra foi resumido por uma pergunta feita em 2003 pelo general estadunidense David Petraeus, comandante das forças invasoras no Iraque: “Digam-me como isso termina?”.
Referências
[1] “GORDON, Philip H. Losing the Long Game: The False Promise of Regime Change in the Middle East. New York: St. Martin’s Press, 2020.”.
[2] “TRIPP, Charles. A History of Iraq. 3. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2007.”.
[3] “LYNCH, Marc. The New Arab Wars: Uprisings and Anarchy in the Middle East. New York: PublicAffairs, 2016.”.
[4] “UNITED STATES SENATE. Report on the U.S. Intelligence Community’s Prewar Intelligence Assessments on Iraq. Washington, DC: U.S. Government Printing Office, 2004.”.
[5] “COSTS OF WAR PROJECT. The Financial and Human Cost of the Iraq War. Brown University, Watson Institute for International and Public Affairs, 2021.”.
[6] “GORDON, Philip H. Losing the Long Game: The False Promise of Regime Change in the Middle East. New York: St. Martin’s Press, 2020.”.
[7] “OPEP – ORGANIZAÇÃO DOS PAÍSES EXPORTADORES DE PETRÓLEO. Annual Statistical Bulletin. Viena: OPEC, 2024.”.
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