
MODO DE NAVEGAÇÃO
Três em cada quatro países operam sob condições classificadas como “problemáticas” ou piores para a imprensa em 2026. O Índice Mundial de Liberdade de Imprensa da Repórteres Sem Fronteiras aponta deterioração sustentada desde 2013. Conflitos armados e ataques de governos contra jornalistas aparecem como fatores centrais desse recuo global.

A capacidade de jornalistas trabalharem com segurança e independência registra queda em escala internacional, segundo o relatório de 2026 da organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF), divulgado com base em dados coletados em 180 países. A entidade define liberdade de imprensa como a possibilidade de selecionar, produzir e divulgar informações de interesse público sem interferência política, econômica, legal ou social e sem ameaças à integridade física ou mental. Em 75% dos países analisados, o ambiente é considerado “problemático” ou pior, enquanto mais da metade apresenta condições classificadas entre “difíceis” e “muito graves”.
O relatório evidencia uma deterioração contínua desde 2013, quando menos de um terço dos países estavam nas categorias mais negativas e 71% já figuravam como “problemáticos” ou abaixo desse nível. A distribuição geográfica revela concentração de melhores condições na Europa, com Noruega, Estônia, Países Baixos e Dinamarca nas quatro primeiras posições, enquanto países da África e da Ásia apresentam os piores indicadores. Dentro das regiões, as diferenças persistem: no continente europeu, países do Sul e do Leste enfrentam mais restrições que os do Norte e do Oeste; no Norte da África, jornalistas operam sob mais limitações do que no Sul do continente.
Na Europa Central, Polônia e Eslováquia ilustram trajetórias divergentes após mudanças políticas recentes. Na Polônia, a saída do partido Lei e Justiça (PiS) do poder no final de 2023 reduziu ações judiciais e ataques verbais contra a imprensa. Já na Eslováquia, a volta de Robert Fico ao cargo de primeiro-ministro no mesmo ano intensificou a hostilidade. “Ele tem uma longa carreira, e sempre foi sua narrativa que os jornalistas são seus inimigos”, afirmou Lukas Diko, editor-chefe do Centro de Investigação Jan Kuciak. O assassinato do jornalista Jan Kuciak, em 2018, após investigações sobre relações entre crime organizado e aliados do governo, permanece como fator de intimidação. “É realmente uma situação sem quaisquer regras”, disse Diko, acrescentando que o medo e a retórica estatal afastam novos profissionais: “Já não há muitos jovens que queiram tornar-se jornalistas”.
Na América Latina, a Argentina registra queda acentuada no índice sob o governo de Javier Milei, que utiliza redes sociais para atacar jornalistas e declarou que eles “não são odiados o suficiente”. Fernando Stanich, presidente da FOPEA, afirmou: “Quando Milei insulta um jornalista, não o faz como Milei, o economista, ou Milei, um cidadão comum. Ele faz isso como principal representante do Estado argentino”. A FOPEA aponta que o volume de ataques verbais supera registros de governos anteriores, incluindo o período de Cristina Kirchner entre 2007 e 2015.
Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump mantém histórico de ataques à imprensa desde a campanha de 2016, com ameaças e declarações públicas contra veículos e jornalistas. O país registra queda no ranking global, alinhando-se a tendências observadas em governos que adotam estratégias semelhantes, como El Salvador. O relatório aponta que países considerados estáveis passam a registrar deterioração rápida sob pressão política direta contra o jornalismo.
A RSF identifica conflitos armados como fator central na queda global. Em países como Iraque, Sudão, Sudão do Sul e Iémen, a cobertura jornalística ocorre sob risco direto. Na Faixa de Gaza, mais de 220 jornalistas foram mortos desde 2023 por forças israelenses, incluindo ao menos 70 durante o exercício profissional, segundo dados do relatório, no contexto do genocídio em curso contra a população palestina.
Além da violência direta, o relatório aponta mecanismos estruturais de pressão, como processos judiciais, detenções, ameaças físicas e campanhas de difamação conduzidas por autoridades estatais. A professora Vera Slavtcheva-Petkova, da Universidade de Liverpool, descreve três vetores principais: uso de estruturas políticas para intimidar jornalistas, perseguições baseadas em gênero, raça ou orientação sexual e pressões econômicas associadas à precarização do setor de mídia.
Diante desse cenário, redes de apoio entre jornalistas e organizações aparecem como resposta. “Saber que há alguém em quem se pode confiar para obter apoio é muito importante”, afirmou Slavtcheva-Petkova, destacando que a ausência dessas redes amplia a vulnerabilidade profissional.
A África do Sul aparece como exceção parcial no cenário africano. O país mantém classificação “satisfatória” desde 2013 e figura entre os 17 países que melhoraram sua posição no período, enquanto 163 registraram piora. Glenda Daniels, professora da Universidade de Wits e secretária-geral do Fórum Nacional de Editores da África do Sul (SANEF), atribui o desempenho à atuação de organizações civis. “O SANEF é alto e barulhento”, afirmou, referindo-se à atuação pública da entidade na defesa da imprensa.
Entre países de língua portuguesa, Cabo Verde caiu dez posições e ocupa o 40º lugar, apesar de a RSF apontar ambiente de trabalho favorável, com ressalva ao controle estatal sobre nomeações em meios públicos. Angola ocupa a 109ª posição após queda de nove lugares, com registro de censura e controle informacional. Moçambique subiu para a 99ª posição. Guiné-Bissau e Guiné Equatorial também avançaram no ranking, embora a RSF registre controle estatal sobre meios de comunicação e episódios de ameaças e agressões contra jornalistas, incluindo demissões por descumprimento de censura oficial.
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30 de abril de 2026

































