

Operação “Mel de Abelha”
1 de ago. de 2024
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Um homem observava as vitrines de Leicester Square, em Londres, quando foi abordado por uma mulher. Mordechai Vanunu era um sujeito reservado e solitário, mas apreciava a companhia de uma mulher atraente como Cindy. Inspirando fundo e buscando as palavras certas, ele perguntou: “Você também é turista?” A jovem respondeu que sim, era uma judia-americana. Os dois seguiram juntos para um café.
Com o passar dos dias, a relação se estreitou e tornaram-se íntimos. Em certo momento, Cindy o convidou para passar alguns dias em Roma, no apartamento de sua irmã. Vanunu aceitou o convite, e os dois voaram para a capital italiana. No entanto, assim que chegaram ao local, foram surpreendidos por três agentes do Mossad.
Os agentes atacaram Vanunu e injetaram uma substância paralisante em suas veias. Mais tarde, naquela noite, uma van estacionou em uma rua deserta. Amarrado a uma maca, Vanunu foi colocado dentro do veículo, que circulou por algum tempo até chegar ao porto de La Spezia. Lá, ele foi embarcado em um navio, trancado em uma cabine junto aos agentes israelenses que o interrogavam durante a viagem rumo à costa de Israel.
Em 9 de novembro de 1986, após semanas de especulações sobre seu paradeiro, o governo israelense admitiu ter orquestrado o sequestro de Vanunu e confirmou que ele estava sob custódia.
Mordechai Vanunu foi libertado apenas em 21 de abril de 2004, após cumprir 18 anos de prisão — sendo 12 deles em confinamento solitário. Poucos dias antes de sua libertação, uma gravação de um de seus interrogatórios foi exibida na televisão israelense, marcando a primeira vez em 18 anos que sua voz era ouvida além das grades.
No vídeo de 20 minutos, Vanunu fez declarações contundentes: “Não sou traidor nem espião. Só queria que o mundo soubesse o que estava acontecendo.”
O motivo pelo qual Vanunu ficou tanto tempo preso pelo governo de israelense e sem contato com qualquer pessoa? – Vanunu foi o homem que revelou ao mundo o arcenal de bombas nucleares de Israel.
Negev Nuclear
Um amigo indicou a Mordechai Vanunu uma vaga de trabalho em um centro de pesquisa do governo localizado no deserto. Em 1977, ele foi contratado como técnico na Usina Nuclear de Negev, situada na próxima à cidade de Dimona.
Com o tempo, Vanunu passou a expressar posições críticas em relação às políticas do Estado de Israel. Durante a Guerra do Líbano, foi convocado para servir na reserva do corpo de engenharia, mas recusou a função, sendo designado para tarefas na cozinha. Paralelamente, engajou-se em campanhas pela igualdade de direitos para os árabes israelenses, tornando-se cada vez mais ativo politicamente.
Em março de 1984, fundou um pequeno grupo de esquerda chamado Campus, composto por cinco estudantes árabes e quatro judeus. Nesse ambiente, passou a conviver com jovens militantes, incluindo apoiadores da Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Também se envolveu com o Movimento para o Avanço da Paz, alinhando-se a diferentes iniciativas pacifistas e antissionistas.
Vanunu desenvolveu um forte ressentimento contra o que percebia como a dominação da sociedade israelense pelos judeus Ashkenazitas — de origem europeia —, em detrimento dos judeus sefarditas e mizrahi, oriundos do Oriente Médio e do Norte da África, frequentemente alvo de discriminação.
Seu histórico político chamou a atenção da segurança interna. Em seu arquivo pessoal no Centro de Pesquisa Nuclear de Negev, constava que Vanunu manifestava "crenças esquerdistas e pró-árabes". Em maio de 1984, ele foi interrogado pelo chefe de segurança da instalação e advertido severamente sobre a proibição de divulgar informações confidenciais.
No mês seguinte, foi novamente interrogado. Pouco depois, viajou à França por duas semanas com um grupo de estudantes para participar de encontros com jovens judeus franceses em Paris. Ao retornar, foi interrogado pela terceira vez. Mais tarde, Vanunu revelou ter mantido uma amizade muito próxima com um árabe israelense, apenas para descobrir, um ano depois, que o amigo era um informante pago para espioná-lo.
No início de 1985, Vanunu conseguiu introduzir uma câmera na usina nuclear e, de forma secreta, registrou 57 imagens que mais tarde se tornariam parte de uma das maiores denúncias contra o programa nuclear israelense. Ele deixou seu cargo na usina em 27 de outubro de 1985.
Dimona
Em 15 de abril de 2015, o Arquivo de Segurança Nacional da Universidade George Washington tornou públicos documentos que corroboram as revelações feitas por Mordechai Vanunu sobre o Centro de Pesquisa Nuclear de Dimona, no deserto de Negev. Os arquivos detalham as fraudes nucleares cometidas por Israel, os debates em torno da falta de transparência do país e os esforços internacionais para pressionar o governo israelense a responder questões cruciais sobre suas instalações nucleares.
Refugiado em Londres, Vanunu conseguiu entrar em contato com um jornalista do Sunday Times. Em uma série de entrevistas, o ex-técnico relatou tudo o que sabia sobre o programa secreto de armamentos nucleares de Israel. O jornal, no entanto, decidiu verificar cuidadosamente a veracidade de suas alegações, consultando especialistas renomados em armamento nuclear, como Theodore Taylor, ex-projetista de bombas nucleares nos Estados Unidos, e Frank Barnaby, ex-engenheiro da Autoridade de Armas Atômicas britânica (AWE). Ambos confirmaram que o relato de Vanunu era tecnicamente sólido e compatível com os conhecimentos disponíveis sobre produção de armas nucleares.
Para reforçar a apuração, o repórter Max Prangnell foi enviado a Israel. Lá, entrevistou professores da Universidade Ben-Gurion, que identificaram Vanunu por meio de uma fotografia, além de vizinhos e conhecidos que confirmaram seu trabalho na usina nuclear de Dimona.
Nas entrevistas, Vanunu forneceu descrições detalhadas sobre os processos de separação de lítio-6, substância essencial para a produção de trítio — elemento necessário em bombas de fissão impulsionadas por fusão. Embora os especialistas reconhecessem a possibilidade de Israel estar fabricando esse tipo de arma de estágio único, Vanunu, cuja experiência era limitada à manipulação de materiais, não apresentou provas concretas de que o país estivesse produzindo bombas termonucleares de dois estágios, como as bombas de nêutrons.
Ele descreveu, ainda, o processo de reprocessamento do plutônio e estimou que a produção anual era de cerca de 30 kg, sendo utilizados aproximadamente 4 kg para cada ogiva. Com base nesses dados, os especialistas calcularam que Israel possuía plutônio suficiente para fabricar aproximadamente 150 armas nucleares.
À medida que a publicação da reportagem se aproximava, em setembro daquele ano, o Sunday Times procurou a Embaixada de Israel no Reino Unido para apresentar as alegações e oferecer ao governo a oportunidade de se manifestar. O adido de imprensa, Eviatar Manor, foi visitado por jornalistas em duas ocasiões. Na segunda visita, entregaram algumas das fotografias tiradas secretamente por Vanunu dentro das instalações nucleares.
O material foi enviado com urgência a Israel para avaliação. A resposta oficial negava todas as acusações, alegando que Vanunu era apenas um técnico subalterno com acesso limitado e conhecimento superficial das operações no reator de Dimona.
Perseguição
Vanunu foi libertado da prisão em 21 de abril de 2004. Cercado por dezenas de jornalistas e acompanhado por dois de seus irmãos, ele concedeu uma coletiva de imprensa improvisada, na qual se recusou a responder perguntas em hebraico — um protesto simbólico contra os abusos que afirmou ter sofrido por parte do Estado de Israel. Ele acusou a agência de inteligência Mossad e o serviço de segurança interna Shin Bet de tentarem destruí-lo psicologicamente durante os 18 anos de prisão, 11 dos quais em regime de confinamento solitário. “Vocês não conseguiram me quebrar, não conseguiram me enlouquecer”, declarou. Vanunu também aproveitou a ocasião para pedir o desarmamento nuclear de Israel e o fim do Estado judeu. Cerca de 200 apoiadores e um número menor de opositores participaram do evento. Ele expressou o desejo de se desvincular completamente de Israel, inicialmente recusando-se a falar em hebraico e manifestando a intenção de se mudar para a Europa ou os Estados Unidos, tão logo obtivesse autorização governamental.
Pouco antes de sua libertação, durante um último interrogatório conduzido pelo Shin Bet, Vanunu manteve-se firme em suas convicções. Gravações da entrevista, divulgadas posteriormente, mostram-no afirmando: “Não sou traidor nem espião. Só queria que o mundo soubesse o que estava acontecendo.” Em outro momento, disse: “Não precisamos de um Estado judeu. É necessário um Estado palestino. Os judeus podem — e viveram — em qualquer lugar. Um Estado judeu não é necessário.” O jornal Haaretz, em 2008, descreveu Vanunu como “uma pessoa difícil e complexa, que permanece teimosa e admiravelmente fiel a seus princípios, disposta a pagar o preço por isso”.
Após a libertação, Vanunu mudou-se inicialmente para um apartamento em Jaffa. No entanto, após grande exposição na mídia, decidiu viver na Catedral de São Jorge, em Jerusalém. Desde então, tem recebido visitas regulares de simpatizantes e desafiado repetidamente as restrições impostas a sua liberdade, concedendo entrevistas a jornalistas estrangeiros.
Entre as severas restrições que continuam em vigor desde sua libertação, estão:
Proibição de deixar o território de Israel;
Proibição de se comunicar com estrangeiros sem autorização prévia do Shin Bet;
Proibição de se aproximar a menos de 500 metros de fronteiras ou aeroportos;
Proibição de se aproximar a menos de 90 metros de embaixadas estrangeiras;
Monitoramento constante do uso de telefone e internet;
Obrigatoriedade de informar as autoridades sobre qualquer mudança de residência ou contatos sociais.
No dia seguinte à sua libertação, em 22 de abril de 2004, Vanunu solicitou asilo político e um passaporte à Noruega, alegando razões humanitárias. Ele também enviou pedidos semelhantes a outros países, afirmando que aceitaria asilo em qualquer lugar, temendo por sua vida. O ex-primeiro-ministro norueguês Kåre Willoch chegou a pedir publicamente ao governo que concedesse o asilo, e a Universidade de Tromsø ofereceu-lhe um emprego.
Contudo, o pedido foi rejeitado. Em 2008, revelou-se que a então Ministra do Governo Local da Noruega, Erna Solberg, decidiu negar o asilo alegando que a solicitação, feita do exterior, contrariava a política do país. Documentos oficiais indicam que o governo temia comprometer seu papel como interlocutor tradicionalmente neutro no Oriente Médio e aliado de Israel. Solberg defendeu sua decisão diante das críticas.
A Suécia também rejeitou o pedido de asilo, citando a mesma regra que impede a concessão a solicitantes fora do território sueco. A Irlanda recusou alegando que Vanunu precisaria, antes, de autorização para deixar Israel. Ele não buscou asilo em seu país natal, o Marrocos.
Em 2006, Kate Allen, então diretora da Anistia Internacional no Reino Unido, denunciou que a Microsoft entregou às autoridades israelenses os dados da conta de e-mail do Hotmail de Vanunu sem ordem judicial, durante uma investigação sobre possíveis contatos com jornalistas estrangeiros.
Apelos internacionais por sua liberdade de movimento e de expressão, feitos por diversas organizações, foram sistematicamente ignorados por Israel. Em 15 de maio de 2008, um grupo de 24 advogados lançou a “Petição do Advogado Norueguês para Vanunu”, exigindo que o governo da Noruega implementasse um plano de ação para garantir sua entrada, residência e direito ao trabalho no país. Em 11 de outubro de 2010, a Suprema Corte de Israel negou o pedido de Vanunu para anular as restrições impostas a ele.
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