
MODO DE NAVEGAÇÃO
A atualização mais recente do Cadastro de Empregadores que submeteram trabalhadores a condições análogas à escravidão colocou a carvoaria Mata Fria, de Grajaú, no Maranhão, como o empreendimento com maior número de registros na chamada Lista Suja do Trabalho Escravo. O nome da empresa aparece cinco vezes no cadastro divulgado pelo governo federal. A operação empresarial associada ao proprietário Sirlei Martins Amaral, conhecido como Ferinha, reúne ainda outras empresas, autuações trabalhistas, multas ambientais e sucessivos resgates de trabalhadores.

Levantamento publicado pelo Brasil de Fato aponta que empresas ligadas a Ferinha acumulam dívidas trabalhistas próximas de R$ 19 milhões e multas ambientais superiores a R$ 51 milhões. O mesmo conjunto empresarial aparece ao menos dez vezes na versão atual da Lista Suja. Fiscalizações realizadas pelo Ministério do Trabalho e Emprego resgataram pelo menos 16 trabalhadores em condições análogas à escravidão em propriedades vinculadas ao empresário. Registros oficiais também apontam a emissão de pelo menos 508 autos de infração por violações da legislação trabalhista.
A investigação identificou uma estrutura composta por pelo menos 12 CNPJs, utilização de representantes formais e fornecimento de carvão vegetal para a Viena Siderúrgica S/A, instalada em Açailândia, no Maranhão. A empresa figura entre as maiores produtoras de ferro-gusa do país e registra receita líquida anual superior a R$ 1 bilhão.
O procurador do Ministério Público do Trabalho no Maranhão e coordenador nacional de Erradicação do Trabalho Escravo e Tráfico de Pessoas, Luciano Aragão, afirmou ao Brasil de Fato que a produção de carvão vegetal está entre as atividades econômicas com maior número de trabalhadores resgatados. “A produção de carvão vegetal já vem, ao longo da série histórica, desde 1995, com mais de 4 mil trabalhadores resgatados. Está entre as atividades com mais resgates no país”, declarou.
Segundo Aragão, a atividade também integra a dinâmica de expansão do agronegócio sobre áreas do Cerrado maranhense. “Esse carvão está associado à expansão da fronteira agrícola sobre o Cerrado maranhense para o plantio da soja”, afirmou.
Relatórios de fiscalização descrevem jornadas prolongadas, ausência de descanso semanal, privação de sono, exposição contínua à fumaça produzida pelos fornos e casos de desmatamento para abastecimento das carvoarias. Entre as funções identificadas pelos auditores, a de carbonizador aparece como uma das mais expostas às condições registradas nas operações.
De acordo com o auditor-fiscal do trabalho Ivano Rodrigues Sampaio, responsável por inspeções em carvoarias ligadas a Ferinha, o processo de carbonização exige monitoramento permanente dos fornos. “O carbonizador é responsável por um processo que tem que ser monitorado por 24 horas”, afirmou. Segundo ele, em diversas unidades havia apenas um trabalhador encarregado de acompanhar dezenas de fornos durante o dia e a noite.
A secretária-executiva do Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos Carmen Bascarán, Mariana de la Fuente, afirmou que a manutenção da produção exige vigilância constante. “O carbonizador não dorme para controlar a qualidade do carvão”, declarou.
Luciano Aragão descreveu a privação de sono como um dos elementos encontrados nos resgates realizados pelo Ministério Público do Trabalho. “O carbonizador tem que ficar atento o tempo todo, visitando os fornos de hora em hora. Esses trabalhadores ficavam 15 a 20 dias numa sequência sem dormir, sendo responsáveis pela queima”, relatou.
As fiscalizações também alcançaram trabalhadoras responsáveis pela alimentação e limpeza dos alojamentos. Na Fazenda Mirador, segundo os autos, Lindalva de Araújo Rocha, pessoa com deficiência auditiva, era responsável sozinha pela preparação das refeições e pela higienização dos espaços utilizados por dezenas de trabalhadores. Sua jornada começava às 4h e seguia até as 19h.
“Resgatamos cozinheiras por jornada exaustiva porque havia uma única mulher para fazer café, almoço e janta para 50 ou 60 trabalhadores, além de lavar louça e limpar o alojamento e os banheiros”, afirmou Aragão.
Os relatórios também apontam exposição contínua à fumaça produzida pela carbonização da madeira. Medições realizadas pelo Ministério Público do Trabalho registraram concentração de material particulado fino de 999,9 microgramas por metro cúbico. O valor corresponde a 66 vezes o limite diário de 15 microgramas por metro cúbico recomendado pela Organização Mundial da Saúde.
Documentos analisados pelo Brasil de Fato registram ainda casos de violência e intimidação. Um dos episódios envolve um trabalhador encontrado amarrado pelos pulsos e pelas pernas a uma coluna de alojamento na Carvoaria Mirador. Segundo relatório de fiscalização reproduzido pela reportagem, a imagem foi utilizada por um encarregado como forma de ameaça a outros trabalhadores, acompanhada da frase: “assim que eu faço com quem não quer trabalhar”.
Investigações da Polícia Federal, do Ministério Público do Trabalho e de órgãos de fiscalização apontam que as empresas formalmente separadas funcionavam como partes de uma única estrutura produtiva. Em representação apresentada à Justiça Federal durante a Operação Sem Descanso, a Polícia Federal afirmou que o conjunto empresarial operava como uma única empresa apesar da existência formal de 12 pessoas jurídicas distintas.
Auditores identificaram compartilhamento de trabalhadores, administração concentrada em Grajaú e circulação de recursos entre diferentes empresas do grupo. “Todo mundo falava: ‘A carvoaria aqui é do Sirlei’. Quem é o patrão? ‘É o Sirlei’. Quem vende o carvão? ‘É o Sirlei’”, relatou Ivano Rodrigues Sampaio.
O auditor afirmou ainda que diferentes empresas dividiam trabalhadores dentro da mesma unidade produtiva. “Em uma carvoaria, tinha empregado de oito empresas diferentes”, disse.
Segundo Mariana de la Fuente, a abertura de empresas em nome de terceiros integra o funcionamento da estrutura atribuída ao empresário. “Ele estimula chefes de grupos de trabalhadores a abrirem CNPJs novos em seus nomes para que fiquem no controle dele”, afirmou.
Documentos da Receita Federal mostram que Itamar Ribeiro da Costa, antigo funcionário de Amaral, tornou-se sócio único da Mata Fria em julho de 2024. Durante fiscalizações realizadas em 2025, trabalhadores e responsáveis por unidades produtivas continuaram apontando Ferinha como controlador efetivo da atividade. No fim de 2025, as empresas voltaram formalmente ao nome de Sirlei Martins Amaral.
Em novembro de 2022, a Polícia Federal solicitou a prisão preventiva do empresário no âmbito da Operação Sem Descanso. O pedido apontava repetição de práticas relacionadas ao trabalho escravo mesmo após autuações e fiscalizações anteriores. Ferinha foi preso em 10 de novembro daquele ano. Em 22 de novembro, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região substituiu a prisão preventiva por prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica e fiança de R$ 100 mil. Em março de 2023, a Justiça revogou as medidas restritivas.
Dados levantados pelo Brasil de Fato indicam que, a partir de 2023, empresas vinculadas ao empresário receberam 240 novos autos de infração emitidos pelo Ministério do Trabalho e Emprego.
A produção de carvão vegetal identificada nas fazendas investigadas aparece associada ao avanço do desmatamento no Maranhão. Dados do MapBiomas mostram que o estado registrou 7,1 milhões de hectares desmatados até 2024. No mesmo período, a área ocupada pela soja alcançou 1,3 milhão de hectares, enquanto as pastagens atingiram 9,5 milhões de hectares em 2023.
O Maranhão ocupa a primeira posição entre os estados que mais desmatam no país desde 2023. Segundo Luciano Aragão, a atividade carvoeira integra esse processo de transformação territorial. “Os custos do desmatamento de área nativa, em vez de serem suportados pelo proprietário, são custeados pela própria atividade econômica da carvoaria que limpa a área para a soja”, afirmou.
Fiscalizações registraram contratos de supressão vegetal envolvendo 990 hectares na Fazenda Brejo do Meio e 1.851 hectares na Fazenda Ferreira e Godoy. Procuradores e fiscais apontam que a madeira retirada dessas áreas é transformada em carvão vegetal destinado à cadeia siderúrgica.
Aragão afirmou que algumas empresas apresentavam documentos referentes a florestas plantadas, mas as áreas exploradas eram compostas por vegetação nativa. “As carvoarias exibiam licenças para exploração de ‘floresta plantada’, como de eucalipto, mas, quando chegávamos no local, eram todas florestas nativas”, declarou.
O auditor Ivano Rodrigues Sampaio também descreveu mecanismos utilizados para dificultar a rastreabilidade da produção. “O carvão sai da carvoaria clandestina e chega na siderúrgica com nota fiscal de outra. Lava o carvão e empurra para a siderúrgica”, afirmou.
Os registros do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis apontam autuações por comercialização de carvão sem origem legal, utilização de documentação falsa, registros fictícios em sistemas de controle ambiental e exploração de carvoaria em território indígena. Um dos casos ocorreu em 2007 na Terra Indígena Porquinhos dos Canela-Apãnjekra.
Documentos de fiscalização, depoimentos reunidos pela Polícia Federal e relatos de auditores indicam que grande parte do carvão produzido nas unidades ligadas a Ferinha era destinada à Viena Siderúrgica S/A. Os registros apontam visitas de funcionários da siderúrgica às unidades produtivas para verificar estoque, alojamentos, equipamentos de proteção individual, folhas de ponto e organização operacional.
Para Luciano Aragão, a relação entre compradores e fornecedores gera responsabilidade dentro da cadeia produtiva. “As siderúrgicas se beneficiam do baixo custo do insumo e exercem controle. Algumas financiavam a montagem de fornos e realizavam fiscalizações técnicas constantes nas carvoarias do grupo”, afirmou.
Ivano Rodrigues Sampaio descreveu a relação econômica entre carvoarias e siderúrgicas como marcada pela dependência dos produtores. “Os donos de carvoaria reclamam que não têm poder de negociação com a siderúrgica. A empresa diz: ‘Eu pago tanto’. O preço do carvão é ditado de cima para baixo”, declarou.
Mariana de la Fuente afirmou que a participação em iniciativas empresariais de combate ao trabalho escravo não impediu a continuidade das relações comerciais denunciadas. “A Viena fez uma ‘lavadinha de cara’. Eles fazem parte do pacto das empresas contra o trabalho escravo, mas continuam comprando carvão que vem dele”, declarou.
Segundo a dirigente, a produção de ferro-gusa abastecida pelo carvão vegetal produzido no Maranhão segue para mercados externos. “Toda a produção é para exportação aos Estados Unidos, Ásia e Europa. O produto é altamente vinculado ao trabalho escravo, ao desmatamento vegetal e ainda tem todos os impactos na saúde da população com a poluição”, afirmou.
Procurado pelo Brasil de Fato, Sirlei Martins Amaral não respondeu aos contatos da reportagem. Em nota enviada ao veículo, a Viena Siderúrgica afirmou que as compras foram realizadas junto a unidades licenciadas pelos órgãos competentes, declarou desconhecer outras empresas eventualmente ligadas ao fornecedor e informou que encerrou a relação comercial após ter acesso aos relatórios de fiscalização fornecidos pelo Ministério Público do Trabalho.
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2 de junho de 2026

































