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MODO DE NAVEGAÇÃO

Sete moçambicanos morreram e mais de 800 foram atingidos por ataques xenófobos na cidade sul-africana de Mossel Bay, na província do Cabo Ocidental. Pelo menos 500 cidadãos moçambicanos iniciaram um processo de repatriamento coordenado entre os governos de Moçambique e da África do Sul após a escalada da violência. Autoridades moçambicanas afirmam que novos deslocamentos podem ocorrer diante das exigências de grupos anti-imigrantes para a saída de estrangeiros até 30 de junho.


Moçambique, 27 de novembro de 2024 | Alfredo Zuniga/AFP via Getty Images
Moçambique, 27 de novembro de 2024 | Alfredo Zuniga/AFP via Getty Images

O Gabinete de Informação de Moçambique informou que os ataques ocorreram na sexta-feira, 29 de maio, em Mossel Bay. Segundo o comunicado, sete cidadãos moçambicanos morreram durante os acontecimentos. Cinco das mortes decorreram dos ataques xenófobos, enquanto outras duas ocorreram em um acidente rodoviário envolvendo uma viatura particular que regressava a Moçambique.


As autoridades moçambicanas registraram o retorno de cerca de 300 cidadãos por meios próprios no sábado, 30 de maio. A deterioração da situação levou ainda à organização de uma operação de repatriamento envolvendo os dois países. Mais de 500 moçambicanos deixaram a África do Sul na tarde de 1º de junho em direção a Maputo por meio de um comboio preparado para o transporte dos deslocados.


O Gabinete de Informação declarou que a situação permanece instável. No comunicado, o governo destacou que grupos anti-imigrantes passaram a exigir a saída de determinados grupos de estrangeiros da África do Sul até 30 de junho. O documento afirma que, diante desse cenário, existe a expectativa de agravamento da situação e que medidas de mitigação estão sendo implementadas.


O acompanhamento da situação está sendo realizado pelo Consulado de Moçambique na Cidade do Cabo, responsável pela assistência aos cidadãos afetados. As autoridades acompanham os desdobramentos desde o início dos episódios registrados em Mossel Bay.


O porta-voz do Serviço Nacional de Migração de Moçambique, Juca Bata, confirmou à DW que os incidentes ocorridos na região contribuíram para a decisão de organizar o retorno dos cidadãos. Segundo ele, os repatriados foram acolhidos pelas autoridades sul-africanas antes da preparação da viagem para Moçambique.


“Eles foram acolhidos pelas autoridades sul-africanas, então criaram-se condições para poderem vir, mas alguns até já voltaram de forma voluntária”, afirmou Juca Bata à DW.

A chegada do grupo era esperada para esta terça-feira em Maputo. Após a entrada em território moçambicano, os cidadãos seriam encaminhados para as províncias de Inhambane, Gaza e Manica, segundo informações do Serviço Nacional de Migração.


O Gabinete de Informação informou ainda que os repatriados recebem apoio alimentar ao cruzarem a fronteira de Ressano Garcia, na província de Maputo. Segundo o governo, cada pessoa recebe dois kits alimentares. Um deles destina-se ao consumo imediato e o outro ao período inicial de dez dias após o retorno às localidades de origem.


Para o jornalista e pesquisador Armando Nhantumbo, da Universidade de Rhodes, o repatriamento não enfrenta as causas que levam milhares de moçambicanos a buscar trabalho e renda na África do Sul. Em entrevista à DW, ele classificou a medida como uma resposta emergencial ao problema.


“O repatriamento é a medida paliativa que vai ser feita agora. Ninguém nos garante que os cidadãos que estão a ser repatriados para Moçambique depois de amanhã não vão querer cruzar novamente a fronteira para a África do Sul”, declarou.

Nhantumbo argumentou que a migração está relacionada às condições econômicas existentes nos países de origem. Segundo ele, muitos cidadãos deixaram Moçambique devido à ausência de condições que permitissem sua permanência no país.


“Os cidadãos saíram de Moçambique para a África do Sul porque lhes faltaram condições para ficarem em Moçambique. É sobretudo uma questão de sobrevivência, das condições de vida”, afirmou.


O pesquisador também relacionou os episódios de xenofobia às desigualdades existentes na sociedade sul-africana. Para ele, encontros diplomáticos e visitas oficiais entre chefes de Estado não enfrentam as causas que alimentam as tensões sociais dirigidas contra migrantes.


“A xenofobia não é um problema que vai ser resolvido necessariamente com este tipo de visitas que são feitas por um chefe de Estado, com este tipo de contatos diplomáticos que são importantes que sejam feitos, mas mais do que isso, o problema de fundo com que se confronta a África do Sul é sobretudo um problema de desigualdades sociais”, disse.

Residindo na África do Sul, Nhantumbo defendeu a adoção de medidas tanto pelo governo sul-africano quanto pelos países de origem dos migrantes. Segundo ele, as tensões entre sul-africanos e comunidades estrangeiras estão associadas a fatores econômicos e sociais que atravessam a região da África Austral.


“Há um trabalho que tem de ser feito dentro da África do Sul, mas ao mesmo tempo há um trabalho que tem de ser feito nos países de origem, incluindo Moçambique, que é para atacar as questões de fundo que continuam a incendiar estas relações entre os moçambicanos e os sul-africanos”, afirmou.

Questionado sobre a capacidade dos governos africanos de enfrentar os desafios migratórios e garantir condições de vida que reduzam os deslocamentos forçados por necessidades econômicas, Nhantumbo respondeu que as respostas para o problema já são conhecidas.


“As soluções são conhecidas, a grande questão é se as lideranças africanas têm interesse e a coragem necessárias”, declarou.


O pesquisador acrescentou que a questão envolve políticas de desenvolvimento regional e não apenas iniciativas diplomáticas entre governos. “Não basta o Presidente Chapo viajar para Pretória e ir encontrar-se com o Presidente Cyril Ramaphosa, não é a África do Sul chamar o embaixador da Nigéria, são questões que têm a ver com o desenvolvimento da região”, concluiu.

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