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Cartazes de Ali Khamenei espalhados pelas ruas da cidade velha de Lucknow transformaram a capital de Uttar Pradesh em um dos principais pontos de mobilização política e religiosa da comunidade xiita indiana após o martírio do Líder iraniano. A presença de símbolos ligados à Revolução Islâmica, manifestações públicas de solidariedade ao Irã e campanhas de arrecadação para vítimas dos ataques revelam a profundidade dos vínculos construídos ao longo de décadas entre parte da população xiita da Índia e a República Islâmica. Os acontecimentos também evidenciam o contraste entre esse sentimento popular e a política externa adotada pelo governo do primeiro-ministro Narendra Modi.

Em Hussainabad Chowk, uma praça localizada na região histórica de Lucknow, grandes painéis exibem imagens de Ali Khamenei. Uma das mensagens, escrita em hindi, descreve o dirigente iraniano como “grande líder e guia da paz mundial e da humanidade” e presta homenagem ao que chama de “mártir Aiatolá Sajjad Ali Husaini Khamenei Sahib”.
Outra imagem mostra Mojtaba Khamenei, apontado como sucessor de seu pai, retratado atrás de Ali Khamenei com as mãos apoiadas sobre seus ombros. Ao longo das ruas e vielas da cidade antiga, retratos, murais, bandeiras e grafites reproduzem referências aos dirigentes religiosos iranianos.
Também são encontradas bandeiras de Israel e dos Estados Unidos pintadas no chão, além de imagens do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e do príncipe herdeiro saudita Mohammad bin Salman.
Segundo a reportagem produzida por Jakab Thorpe para o Middle East Eye, as imagens de Netanyahu apresentam maior desgaste visual, enquanto retratos de Trump ainda permanecem parcialmente identificáveis. O texto observa que o estado de conservação desses símbolos reflete o uso constante dos espaços públicos por manifestantes e moradores.
Após o genocídio iniciado em Gaza em outubro de 2023, comerciantes da parte antiga de Lucknow passaram a abandonar produtos da Coca-Cola em campanhas de boicote relacionadas ao apoio de Israel recebido de aliados internacionais. De acordo com moradores entrevistados, bebidas produzidas localmente passaram a ocupar espaço nas lojas da região.
Lucknow é a capital do estado de Uttar Pradesh e abriga a maior concentração de muçulmanos xiitas da Índia. A cidade foi centro político dos nawabs de Awadh entre os séculos XVIII e XIX, período em que recebeu influência de tradições persas na arquitetura, gastronomia, música e vida religiosa.
Em 28 de fevereiro, após a divulgação das notícias sobre ataques conjuntos realizados por Estados Unidos e Israel contra o Irã e sobre o martírio de Ali Khamenei, manifestações foram registradas em diversos pontos da cidade.
Segundo o relato do Middle East Eye, manifestantes ocuparam ruas da região histórica entoando palavras de ordem contra Washington e Tel Aviv. Durante a noite, multidões se reuniram no complexo do Bada Imambara, um dos principais monumentos religiosos de Lucknow, para realizar vigílias e homenagens.
Entre os slogans utilizados estava uma adaptação de uma frase ligada ao martírio do Imam Hussain na Batalha de Karbala, ocorrida em 680. O lema tradicional foi transformado em referência direta a Khamenei, associando sua morte à tradição de resistência e sacrifício presente na memória religiosa xiita.
O clérigo Akbar Mehdi, entrevistado pelo Middle East Eye, afirmou que os laços entre Lucknow e o Irã antecedem a Revolução Islâmica de 1979. Segundo ele, aspectos da cultura local ainda preservam marcas dessa relação.
“A relação histórica de Lucknow com o Irã é tal que a cidade já foi chamada de Shiraz do Oriente”, declarou. “Nos costumes à mesa, na conversa, a influência iraniana é claramente visível”, acrescentou.
Para os jornalistas Ziyaullah Siddiqui e Shibli Beg, ligados ao portal Qasidnama, a Revolução de 1979 alterou a forma como parte dos xiitas de Lucknow se relacionava com os centros de referência religiosa. Após a ascensão do Imam Khomeini, aumentou o número de estudantes religiosos que passaram a buscar formação em seminários iranianos.
A ligação entre a região e lideranças religiosas iranianas também possui raízes familiares. A localidade de Kintoor, próxima de Lucknow, é apontada como terra natal de Syed Ahmad Musavi Hindi, avô do Imam Khomeini.
Segundo registros citados na reportagem, Musavi nasceu em Kintoor em 1790 e mudou-se para o Irã aos 40 anos, estabelecendo-se na cidade que posteriormente daria origem ao sobrenome adotado pela família.
Na vila de Rasulpur, o médico Rehan Kazmi afirmou ao Middle East Eye que compartilha ancestralidade com a família do Imam Khomeini. “A família Kazmi de Rasulpur e a família Kazmi-Musavi de Kintoor são da mesma linhagem sanguínea”, declarou. “Há cerca de 900 anos, nossos ancestrais vieram de Nishapur, no Irã, para esta terra de Rasulpur e se estabeleceram aqui. Desde então, somos indianos.”
Kazmi relatou que moradores de sua região realizaram manifestações de solidariedade ao Irã após o martírio de Ali Khamenei. Segundo ele, estabelecimentos comerciais fecharam as portas e três dias de luto foram observados pela comunidade local.
Apesar da força da identidade xiita em Lucknow, a maioria da população de Uttar Pradesh é hindu. O estado é governado por Yogi Adityanath, figura associada ao nacionalismo hindu e alvo de críticas por declarações dirigidas à população muçulmana.
Ainda assim, entrevistados afirmaram que os protestos relacionados ao Irã ocorreram sem episódios relevantes de violência comunitária. Siddiqui declarou que Lucknow preserva uma tradição de convivência entre diferentes grupos religiosos e lembrou que a cidade registrou menos episódios de violência durante a Partição da Índia em 1947 do que outras regiões do subcontinente.
Nas semanas seguintes aos protestos, a mobilização passou a concentrar-se em ações de arrecadação para civis afetados pelos ataques contra o Irã. Segundo Kazmi, contribuições financeiras foram reunidas em diferentes bairros da cidade. “Até os trabalhadores mais pobres deram o que podiam”, afirmou.
Enquanto isso, o governo indiano manteve relações próximas com Israel. Dias antes do início dos ataques contra o Irã, Narendra Modi realizou visita oficial a Israel.
A Índia permanece como um dos maiores compradores de equipamentos militares israelenses e mantém cooperação estratégica com Tel Aviv em diferentes áreas. Durante a visita, Modi declarou: “Israel é a Pátria, a Índia é a Mãe Pátria”, ao lado de Benjamin Netanyahu.
A escalada militar também produziu impactos econômicos na Índia. O país depende das rotas energéticas ligadas ao Estreito de Ormuz para o abastecimento de gás liquefeito de petróleo utilizado por milhões de famílias. Segundo dados citados na reportagem, cerca de 90% dos lares indianos utilizam GLP para cozinhar e aproximadamente 60% desse volume passa pela rota marítima do Golfo.
O aumento das tensões levou ao registro de filas para compra de botijões de gás em diferentes regiões do país. Em 10 de maio, Modi pediu à população que reduzisse o consumo de combustível, utilizasse transporte público e recorresse ao trabalho remoto quando possível.
Akbar Mehdi afirmou que existe desconforto entre setores da sociedade indiana diante da aproximação entre Nova Délhi e Tel Aviv. “Os povos do Irã e da Índia não estão contentes com o alinhamento da Índia com Israel”, declarou. Ao comentar a situação política interna, o clérigo afirmou que muçulmanos indianos enfrentam limitações para expressar posições públicas sobre determinadas questões. “Não podemos falar abertamente contra o governo, por causa do medo e da pressão que sofremos”, disse.
Rehan Kazmi também criticou mudanças na orientação diplomática indiana e associou posições históricas da Índia à experiência do colonialismo. “Nossos ancestrais sacrificaram tudo por este país. Hoje, a alma da Índia está sob ataque. Se a alma se foi, o corpo não tem sentido.”
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2 de junho de 2026

































