‘A gente é um corpo político’, afirma atriz indígena que atua em filme sobre a Amazônia
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Um filme exibido em Brasília apresentou cenário em que a Amazônia é controlada pelos Estados Unidos. A produção foi debatida durante o Acampamento Terra Livre em abril de 2026. A atriz indígena Ywyzar Tentehar afirmou que a narrativa reflete situações já vividas nos territórios. O curta-metragem “Vitória Régia — A resposta somos nós”, produzido com participação da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), foi exibido durante a 22ª edição do Acampamento Terra Livre, realizada em Brasília em abril de 2026. A obra apresenta um cenário ficcional em que a Amazônia é entregue ao controle estadunidense, articulando elementos de exploração territorial e disputa por recursos naturais.

A atriz indígena Ywyzar Tentehar, que interpreta a personagem Naiá, afirmou em entrevista ao programa Conversa Bem Viver, do Brasil de Fato, que o enredo dialoga com processos já em curso. “Para os povos indígenas não é algo tão distante, assim, é algo mais possível, porque essas queimadas que aparecem no filme são algo que acontece em muitos territórios”, declarou.
O filme foi exibido para lideranças e participantes do Acampamento Terra Livre, considerado a maior mobilização indígena do Brasil, reunindo representantes de diferentes povos. Segundo a atriz, a recepção foi marcada por identificação direta com a narrativa. “Senti a tensão de quem vive isso na pele, de quem vive essa luta todos os dias, todos os anos, essas ameaças dos territórios”, afirmou.
A produção reúne nomes como Alice Braga, Caio Horowicz, Ayra Kopém, Marina Person, Marat Descartes e Hodari. O projeto foi desenvolvido com apoio de organizações indígenas e teve exibições em diferentes locais, incluindo a Aldeia Maracanã, no Rio de Janeiro, e cidades como São Paulo.
Durante a entrevista, Ywyzar Tentehar mencionou declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a Amazônia. Segundo ela, Trump chegou a divulgar um mapa com referência a “Amazon of America”, associando o território amazônico a interesses estadunidenses. A fala foi relacionada ao tema central do filme, que aborda a apropriação de territórios e recursos naturais.
A atriz também apontou a presença de exploração econômica como eixo narrativo da obra. “Uma das principais preocupações que o filme traz é a Amazônia virar um território de exploração do petróleo, que, de fato, já está acontecendo”, afirmou. A produção utiliza linguagem ficcional para tratar de temas como desmatamento, queimadas e avanço sobre territórios indígenas.
O desenvolvimento do projeto envolveu articulação entre artistas e organizações indígenas. Ywyzar Tentehar relatou que participou da produção sem remuneração, em função do objetivo político do filme. Segundo ela, o envolvimento ocorreu após contato com a equipe durante um evento no Rio de Janeiro, seguido de teste e integração ao projeto.
A atriz afirmou que o elenco e a equipe mantiveram diálogo com representantes indígenas durante o processo. Ela destacou a participação da atriz Alice Braga nas discussões internas e a presença de uma dinâmica coletiva durante as gravações.
A exibição no Acampamento Terra Livre ocorreu sem envio prévio do material final aos participantes. Segundo Ywyzar, a decisão foi assistir ao filme junto ao público indígena. “A gente não vai enviar para ninguém, você vai ter que assistir com todo mundo”, relatou.
A produção também foi apresentada a lideranças políticas indígenas. A ministra Sonia Guajajara teve acesso ao filme e publicou conteúdo sobre a obra em redes sociais, segundo a entrevista. Outras lideranças e representantes institucionais também acompanharam a divulgação.
A atriz afirmou que o filme integra estratégia de ampliar formas de comunicação sobre a realidade dos povos indígenas. Segundo ela, além de documentários, a produção ficcional busca alcançar públicos diversos e expandir o debate sobre território, violência e resistência.
Durante a entrevista, Ywyzar Tentehar também abordou a presença indígena em produções audiovisuais. “A gente, por si só, já é um corpo político. A gente já nasce com um posicionamento e uma responsabilidade muito grande desde sempre”, declarou. Ela afirmou que a representação não deve se limitar a estereótipos e que povos indígenas ocupam diferentes espaços sociais.
O filme foi disponibilizado gratuitamente no site oficial da produção. A equipe indicou possibilidade de continuidade do projeto em novos formatos, incluindo série ou longa-metragem, sem definição de cronograma até o momento.



































