Campanhas de desinformação afetam combate ao ebola
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Mais de 900 casos suspeitos da cepa Bundibugyo do vírus ebola e 220 mortes associadas à doença foram registrados na República Democrática do Congo, segundo dados divulgados em 25 de maio pela Organização Mundial da Saúde. A OMS confirmou em laboratório 101 casos e 10 mortes, enquanto dois centros de tratamento foram incendiados em áreas atingidas por confrontos armados e deslocamentos forçados. Em meio à crise, campanhas de desinformação nas redes sociais passaram a dificultar investigações epidemiológicas, ampliar a desconfiança popular e limitar o acesso das equipes de saúde às comunidades atingidas.

A OMS elevou de “alto” para “muito alto” o nível de risco nacional do surto na República Democrática do Congo, país que concentra o epicentro da disseminação da cepa Bundibugyo. O diretor-geral da organização, Tedros Ghebreyesus, afirmou na segunda-feira, 25 de maio, que a propagação do vírus ocorre em um cenário marcado por deslocamentos populacionais, insegurança armada e ruptura das estruturas sanitárias em regiões do nordeste congolês.
Segundo a ONU News, os confrontos armados na região já deslocaram mais de 100 mil pessoas. O deslocamento interno ampliou a circulação populacional em áreas sem acesso regular a serviços de saúde, enquanto centros de tratamento passaram a operar sob ameaça de ataques. Nos últimos dias, duas instalações médicas destinadas ao atendimento de pacientes com ebola foram incendiadas.
Marie Roseline Belizaire, diretora de Resposta a Emergências da OMS África, declarou à ONU News que os ataques contra estruturas sanitárias estão ligados à circulação de informações falsas nas redes sociais. Segundo ela, as campanhas de desinformação alimentam desconfiança contra profissionais de saúde e autoridades públicas, atrasando rastreamentos epidemiológicos e reduzindo o contato das equipes médicas com comunidades contaminadas.
A crise sanitária ocorre em um país submetido há décadas à pilhagem mineral, à presença de grupos armados e à interferência externa sobre seu território e seus recursos estratégicos. A República Democrática do Congo concentra reservas de coltan, cobalto e outros minerais utilizados pela indústria tecnológica global, enquanto regiões inteiras permanecem sem infraestrutura hospitalar, saneamento ou acesso contínuo à eletricidade. Nesse cenário, surtos epidêmicos passam a se expandir em áreas onde o Estado possui baixa capacidade operacional e onde organizações internacionais atuam sob tensão permanente.
Os protocolos sanitários relacionados aos sepultamentos também se tornaram foco de conflito entre autoridades de saúde e moradores locais. Velórios com mais de 50 pessoas foram proibidos pelas autoridades do nordeste congolês, enquanto soldados armados e policiais passaram a acompanhar enterros conduzidos por equipes médicas treinadas para evitar novas transmissões do vírus.
Belizaire afirmou que a OMS iniciou articulações com líderes tradicionais e curandeiros locais para reduzir a resistência comunitária aos procedimentos sanitários. Segundo a representante da agência, familiares podem se despedir das vítimas, mas não podem tocar os corpos devido ao risco de contágio. Ela acrescentou que a OMS fornece equipamentos de proteção para que parentes auxiliem no acondicionamento dos corpos em sacos funerários antes das orações.
A cepa Bundibugyo do vírus ebola segue sem vacinas ou tratamentos aprovados, apesar de surtos registrados há quase duas décadas. Diante disso, a OMS recomendou a priorização de dois medicamentos que ainda estão em ensaios clínicos e iniciou avaliações do antiviral obeldesivir para pessoas expostas a contatos classificados como de alto risco.
As operações de resposta passaram a incluir rastreamento de contatos, abertura de centros de tratamento, ampliação da capacidade laboratorial e ações de prevenção e controle de infecções. A OMS também informou que liberou US$ 3,9 milhões de seu Fundo de Contingência para Emergências para financiar parte das operações em campo.
Em Bunia, na província de Ituri, equipes do Unicef passaram a realizar campanhas em escolas para orientar estudantes sobre medidas de prevenção contra o ebola. As ações incluem treinamento sobre higiene, circulação de informações sobre sintomas e orientações sobre procedimentos sanitários adotados em áreas contaminadas.



































