Maria Zakharova: "A multipolaridade do mundo já é uma realidade evidente"
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A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, afirmou em entrevista à TV BRICS publicada em 27 de maio que a multipolaridade “já é uma realidade evidente” diante do desgaste da ordem internacional dominada por potências ocidentais desde o fim da Guerra Fria. A diplomata russa declarou que estruturas como BRICS, Organização para Cooperação de Xangai e União Econômica Eurasiática surgiram como resposta ao controle político, financeiro e tecnológico exercido por antigos centros coloniais sobre países do Sul Global. Zakharova também acusou governos ocidentais de utilizarem o dólar, plataformas digitais e instituições financeiras internacionais como instrumentos de pressão política e econômica contra Estados que rejeitam alinhamento automático aos interesses euro-atlânticos.

A entrevista foi concedida à TV BRICS em meio ao avanço de iniciativas conduzidas por países do bloco para ampliar pagamentos em moedas nacionais, criar sistemas próprios de compensação financeira e coordenar políticas de segurança digital fora da estrutura dominada pelos Estados Unidos e pela União Europeia.
Zakharova afirmou que o modelo unipolar sustentado pelas potências ocidentais perdeu legitimidade diante da maioria da população mundial. Segundo ela, a tentativa de manter um centro único de decisão internacional contradiz os interesses de países da Ásia, África, América Latina e Oriente Médio. “Mesmo que essa abordagem agrade a alguns, é preciso entender que ela contradiz a visão da maioria global, ou seja, da maioria absoluta das pessoas no planeta”, declarou.
A representante do governo russo afirmou que nenhum país possui direito de reorganizar outras nações conforme seus interesses políticos e econômicos. Ela associou a política externa das antigas metrópoles coloniais à manutenção de mecanismos de segregação econômica, racial e geopolítica. “Isso se transformou em uma política de nacionalismo extremo e segregação racial e nacional”, disse Zakharova ao comentar a atuação das potências ocidentais após o período colonial formal.
Segundo a diplomata, a multipolaridade deixou de ser conceito teórico e passou a existir materialmente por meio de organizações internacionais criadas fora da órbita de Washington e Bruxelas. Ela citou o BRICS, a Organização para Cooperação de Xangai e a União Econômica Eurasiática como estruturas que sobreviveram ao que chamou de “indiferença do Ocidente” e às pressões posteriores exercidas contra esses blocos.
Zakharova afirmou que os países integrantes dessas organizações buscam preservar soberania econômica, independência política e autonomia civilizacional. A diplomata declarou ainda que a Carta da Organização das Nações Unidas deve servir de base para a reorganização da ordem internacional.
Ao abordar diplomacia cultural, Zakharova acusou governos europeus de promover campanhas de apagamento cultural contra artistas e escritores russos após o agravamento das tensões entre Rússia e OTAN. Ela citou episódios envolvendo destruição de monumentos, retirada de obras de compositores russos de programações culturais e ataques contra símbolos ligados à cultura russa.
“Se alguém acredita que é preciso proibir a execução de obras de Shostakovitch, Rachmaninoff ou Glinka, por exemplo, tudo isso demonstra uma ausência absoluta de cultura”, afirmou.
A diplomata associou essas ações ao que classificou como “neobarbarismo”, comparando a perseguição cultural à lógica de segregação racial e nacional utilizada historicamente por regimes coloniais e movimentos neonazistas.
Zakharova também comentou os esforços conduzidos pelo BRICS para reduzir dependência do dólar em operações comerciais e financeiras. Segundo ela, a moeda estadunidense deixou de funcionar apenas como instrumento de pagamentos internacionais e passou a operar como mecanismo de coerção política.
“O dólar surgiu como uma moeda que deveria ajudar o mundo a realizar pagamentos. Depois, acabou se tornando um instrumento nas mãos daqueles que já não conseguiam manter um nível competitivo”, declarou.
A representante do Ministério das Relações Exteriores da Rússia afirmou que instituições financeiras internacionais passaram a ser utilizadas como ferramentas de pressão econômica contra países em desenvolvimento. Segundo ela, as discussões realizadas nas cúpulas do BRICS em Kazan, em 2024, e no Rio de Janeiro, em 2025, consolidaram propostas para criação de sistemas de pagamentos transfronteiriços e mecanismos conjuntos de compensação financeira.
As declarações de Zakharova ocorreram no mesmo contexto em que a presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, Dilma Rousseff, ampliou a defesa de emissões financeiras em moedas locais dentro do BRICS. Em declaração reproduzida pela TV BRICS, Dilma afirmou que o banco já realizou emissões em rands sul-africanos e prepara operações em rúpias indianas.
“Emitir em moeda local é uma questão crucial. Nós temos que fazer disso um dos nossos objetivos”, declarou Dilma Rousseff.
O debate sobre independência financeira ganhou força após o uso de sanções econômicas pelos Estados Unidos e pela União Europeia contra Rússia, Irã, Venezuela e outros países submetidos a bloqueios financeiros, congelamento de reservas internacionais e restrições ao sistema SWIFT.
Zakharova também afirmou que a digitalização global ampliou formas de dependência tecnológica sobre países periféricos. Segundo ela, softwares, plataformas digitais e equipamentos produzidos por conglomerados ocidentais passaram a operar como instrumentos de coleta de dados e vigilância internacional.
“Ao receber equipamentos e programas de TI ocidentais e ao se integrar rapidamente ao ambiente digital, esses países perceberam que obtêm não só benefícios, mas também uma vulnerabilidade absoluta”, declarou.
A diplomata afirmou que os países do BRICS trabalham desde 2013 em mecanismos conjuntos de segurança digital e resposta a ataques cibernéticos. Segundo ela, em 2024 o bloco criou um registro de pontos de contato para cooperação entre equipes responsáveis por incidentes cibernéticos.
Zakharova declarou que o grupo também atua em fóruns multilaterais ligados à inteligência artificial, cibersegurança e crimes digitais dentro da Organização das Nações Unidas e de outras estruturas internacionais.
A entrevista ocorreu enquanto o BRICS amplia articulações para consolidar sistemas financeiros, tecnológicos e diplomáticos paralelos aos mecanismos dominados pelas potências ocidentais. O bloco reúne atualmente Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Irã, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Indonésia, além de países parceiros associados às iniciativas econômicas e políticas coordenadas pelo grupo.



































