Democracias afundam enquanto EUA normalizam corrupção
- www.jornalclandestino.org

- 10 de fev.
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As políticas do governo do presidente estadunidense Donald Trump aprofundaram o declínio global no combate à corrupção, segundo relatório divulgado em 10 de fevereiro de 2026 pela Transparência Internacional (TI). O Índice de Percepção da Corrupção (IPC) de 2025 registrou média global de 42 pontos, a pior marca em mais de uma década, em uma escala que vai de zero a 100. Os Estados Unidos tiveram nova queda e atingiram seu nível mais baixo histórico no índice, refletindo o enfraquecimento deliberado de mecanismos de controle e fiscalização. A organização aponta que cortes de ajuda externa e ataques a instituições independentes partem do centro do poder estadunidense e produzem efeitos sistêmicos no mundo. O relatório alerta que a erosão democrática avança justamente onde governos alegam defender “liberdade” e “mercado”.

Com sede em Berlim, a TI afirmou que 122 dos 180 países avaliados ficaram abaixo de 50 pontos, evidenciando que a maioria dos Estados falha em conter práticas corruptas. O índice atribui notas a partir de dados consolidados de avaliações técnicas e empresariais, sem recorrer a discursos oficiais. Ainda assim, 31 países apresentaram melhora significativa, com destaque para Dinamarca (89 pontos), Finlândia, Singapura, Estônia (76), Seychelles (68) e Coreia do Sul (63).
No caso estadunidense, o IPC caiu de 65 para 64 em 2024 e acumula perda de 10 pontos em dez anos, tendência que, segundo a TI, se intensificou desde o retorno de Trump à Casa Branca no início de 2025. O relatório menciona “ações que visam vozes independentes e minam a independência judicial”, incluindo o congelamento temporário e o enfraquecimento da aplicação da Lei de Práticas de Corrupção no Exterior. “Isso sinaliza tolerância a práticas comerciais corruptas”, afirma a organização.
A ofensiva do Executivo estadunidense também alcançou o Federal Reserve, cujo presidente, Jerome Powell, passou a ser investigado pelo Departamento de Justiça (DOJ) após resistir à pressão direta de Trump para reduzir taxas de juros. Para a TI, a combinação entre intimidação institucional e politização de órgãos técnicos cria um ambiente propício à captura do Estado por interesses privados. O corte drástico da ajuda externa promovido por Washington, acrescenta o relatório, “enfraqueceu os esforços globais anticorrupção”.
A deterioração não se limita aos Estados Unidos e se estende a democracias centrais do bloco atlântico. Reino Unido e França mantêm posições relativamente altas no ranking, mas apresentam aumento de riscos devido a lacunas legais, aplicação deficiente da lei e redução de mecanismos independentes de controle. A TI registra ainda o avanço da polarização política e da influência do dinheiro privado nas decisões públicas.
Na União Europeia, Bulgária e Hungria figuram como os piores desempenhos, ambas com 40 pontos. Sobre Budapeste, o relatório afirma que o governo de Viktor Orbán, no poder desde 2010, “tem enfraquecido sistematicamente o Estado de Direito, o espaço cívico e a integridade eleitoral”, permitindo a impunidade no desvio de bilhões de euros, inclusive de fundos da própria União Europeia, por meio de contratos públicos opacos.
Na base do ranking global aparecem Sudão do Sul e Somália, com nove pontos cada, seguidos pela Venezuela. A TI observa que esses casos expõem como colapsos institucionais e pressões externas agravam a corrupção estrutural. Em contraste, a Ucrânia alcançou 36 pontos e foi citada como exemplo de avanços relativos, apesar das denúncias envolvendo aliados do presidente Volodymyr Zelenskyy. Para a organização, o fato de escândalos virem à tona demonstra que a nova arquitetura anticorrupção e a mobilização da sociedade civil “estão fazendo a diferença”.
A fotografia que acompanha o relatório, registrada por Joe Klamar/AFP em 15 de dezembro de 2025, mostra protestos em Bratislava contra medidas que fragilizam a proteção a denunciantes, lembrando que a corrupção prospera quando o poder silencia quem a denuncia. O documento da TI conclui que o declínio atual não é acidental, mas resultado de escolhas políticas que partem, cada vez mais, dos centros imperiais que se autoproclamam referência democrática.



































