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Emendas de Flávio Bolsonaro chegam a empresas e entidades sob investigação

há 3 dias
5 min de leitura

Emendas parlamentares indicadas pelo senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro foram utilizadas para pagamentos a empresas e entidades que estão sob investigação ou questionamento de órgãos de controle. Levantamento publicado pelo UOL em 1º de outubro rastreou recursos indicados pelo parlamentar desde 2020 e identificou pagamentos envolvendo uma entidade classificada pela Receita Federal como “inexistente de fato”, empresas investigadas pela Polícia Federal e um instituto cuja liberação de verba foi tratada por um miliciano condenado no caso Marielle Franco. Desde 2020, mais de R$ 300 milhões foram reservados no Orçamento federal para emendas indicadas por Flávio.


Flávio Bolsonaro ©Gustavo Minas / Bloomberg
Flávio Bolsonaro ©Gustavo Minas / Bloomberg

Um dos casos envolve o Instituto de Medicina e Projeto (IMP), que recebeu R$ 666 mil em agosto de 2025 a partir de uma emenda de R$ 3,1 milhões indicada por Flávio em 2024 para a atenção básica de saúde de Mesquita, na Baixada Fluminense. Em junho de 2026, a Receita Federal enquadrou o instituto como “inexistente de fato” e registrou, em documento citado pelo UOL, haver “razões que evidenciam que a empresa foi constituída para prática de fraude fiscal, inclusive em proveito de terceiras empresas”.


O IMP também é alvo de apuração pelo Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ). Segundo o levantamento do UOL, a entidade é contratada por diferentes municípios fluminenses para administrar serviços de saúde e, somente em Mesquita, firmou contratos que somaram mais de R$ 580 milhões entre 2019 e o fim de 2024. O tribunal apontou suspeitas relacionadas à contratação, incluindo questionamentos sobre estudos técnicos prévios e indícios de conluio no procedimento que resultou na escolha do instituto.


A Prefeitura de Mesquita informou que abriu processo administrativo de responsabilização contra o IMP após os apontamentos sobre a entidade. De acordo com o município, os contratos foram rescindidos, o instituto recebeu multa de R$ 3 milhões, foi declarado inidôneo por dois anos e o caso foi encaminhado ao Ministério Público.


A administração municipal afirmou ainda que a manutenção temporária dos serviços ocorreu para evitar a interrupção do atendimento durante a transição contratual. A prefeitura declarou que os recursos das emendas destinadas à saúde foram transferidos ao Fundo Municipal de Saúde e que a escolha da empresa responsável pela execução compete ao município, sem participação do parlamentar, acrescentando que contratos, pagamentos e demais atos estão disponíveis no Portal da Transparência.


Outro conjunto de pagamentos envolve empresas investigadas pela Polícia Federal por suspeitas de fraude em licitações relacionadas ao fornecimento de equipamentos de proteção balística para a Polícia Militar do Rio de Janeiro. A Glágio do Brasil recebeu R$ 569 mil entre maio e junho em convênios abastecidos com emendas indicadas por Flávio.


A Inbra-Tecnologia, integrante de outro grupo mencionado na investigação, recebeu R$ 1,1 milhão no mesmo convênio. Uma nota de empenho do Ministério da Justiça identifica uma emenda de Flávio em uma aquisição de 342 capacetes balísticos da empresa. Os recursos estavam vinculados a um projeto de modernização voltado à proteção de policiais.


A Glágio e uma empresa pertencente ao grupo Inbra foram alvo de mandados de busca na Operação Perfídia, deflagrada pela Polícia Federal em setembro de 2023. A investigação apura suspeitas de divisão de contratos públicos de equipamentos de proteção balística, com alternância de vitórias em licitações conforme o tamanho dos equipamentos e a região do país. A investigação tramita sob sigilo.


As empresas também haviam sido contratadas durante a intervenção federal de 2018 para fornecer coletes à Polícia Militar e à administração penitenciária do Rio de Janeiro. De acordo com a investigação da Polícia Federal, esses contratos apresentavam indícios de conluio.


Durante a apuração sobre as compras de coletes, investigadores encontraram uma mensagem de um representante da Glágio na qual era afirmado que o general Walter Braga Netto “prometeu interferir” para que uma aquisição fosse concluída. A Polícia Federal apontou que o autor da mensagem era um oficial da reserva contratado em 2019 para “fazer lobby junto ao alto escalão do Governo” e tentar reverter a suspensão do processo de compra.


Braga Netto foi ministro de Jair Bolsonaro entre 2020 e 2021 e candidato a vice-presidente na chapa presidencial de 2022. Conforme registrado pelo UOL, ele está preso após condenação por tentativa de golpe de Estado. A investigação relacionada às empresas permanece sob sigilo.


Outro caso envolve uma emenda de R$ 200 mil destinada ao Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (IFOP), para um projeto esportivo em Taquara, no Rio de Janeiro. Mensagens reveladas pelo Estadão e citadas pelo UOL mostram Robson Calixto, conhecido como Peixe e condenado no processo relacionado à morte da vereadora Marielle Franco, tratando da liberação dos recursos com uma assessora de Flávio Bolsonaro. O UOL já havia publicado, em setembro de 2025, informações sobre indícios de irregularidades relacionados à destinação.


Também entrou na apuração uma emenda de R$ 4 milhões indicada em 2025 para um projeto esportivo ligado ao Vasco da Gama. Segundo informação publicada pelo colunista Juca Kfouri, do UOL, o caso passou a ser analisado pela Controladoria-Geral da União (CGU) depois que R$ 684 mil, correspondentes a 93% dos gastos realizados no projeto, foram destinados a um único fornecedor.


O fornecedor foi identificado como Luiz Armando Marcondes de Oliveira ME, uma microempresa individual registrada em uma sala comercial em Sapopemba, na zona leste de São Paulo. Os pagamentos ocorreram entre março e maio de 2026 e foram destinados à aquisição de materiais esportivos.


Outro conjunto de pagamentos partiu de uma emenda indicada por Flávio ao município de Resende, no estado do Rio de Janeiro. Nove pagamentos à empresa Valle Sul somaram R$ 6,61 milhões e foram destinados a obras de revitalização do aeroporto municipal.


A revista piauí revelou que máquinas da Valle Sul foram flagradas trabalhando dentro de uma propriedade privada pertencente a Renato Araújo, apresentado na reportagem como amigo de Flávio Bolsonaro. O episódio acrescentou outro ponto de questionamento sobre a utilização de recursos provenientes de emendas indicadas pelo senador.


O levantamento ocorre em meio à disputa presidencial de 2026, na qual Flávio Bolsonaro é candidato pelo PL. A investigação do UOL, porém, trata dos pagamentos e dos órgãos que fiscalizam ou investigam as entidades e empresas envolvidas, sem atribuir ao senador a escolha direta dos fornecedores contratados pelos beneficiários das emendas.


Procurado pelo UOL, Flávio Bolsonaro negou que ele ou integrantes de seu gabinete indiquem as empresas contratadas pelos beneficiários das emendas. Em nota, o senador afirmou que a atuação do gabinete se limita à indicação das emendas, conforme a legislação e os critérios dos ministérios, e que as contratações são responsabilidade dos beneficiários.


“Sobre a destinação de emendas parlamentares, nem o senador ou qualquer assessor do gabinete indicam empresas para os beneficiários. A atuação do gabinete limita-se às atribuições institucionais relacionadas à indicação das emendas, de acordo com a legislação e critérios de cada ministério”, afirmou.


Flávio acrescentou: “As decisões e procedimentos relativos à contratação são de responsabilidade dos respectivos beneficiários, observadas as normas legais e os procedimentos aplicáveis. Eventuais irregularidades devem ser apuradas pelos órgãos de controle, como determina a lei”.


A Prefeitura de Mesquita também afirmou que as contratações seguem procedimentos administrativos e que os recursos de emendas destinadas à saúde são transferidos ao Fundo Municipal de Saúde. O município declarou que os atos relacionados aos contratos e pagamentos podem ser consultados no Portal da Transparência e que as contratações passam por análise jurídica e pelos órgãos de controle municipais.


O município informou ainda que o IMP havia firmado contratos para execução do mesmo objeto em diferentes cidades do Rio de Janeiro e que, após a apuração administrativa, os contratos de Mesquita foram rescindidos, com aplicação da multa de R$ 3 milhões, declaração de inidoneidade por dois anos e encaminhamento do caso ao Ministério Público.


A Polícia Militar do Rio de Janeiro foi procurada pelo UOL sobre os pagamentos relacionados à Glágio e à Inbra, mas não havia respondido até a publicação da reportagem. A Glágio do Brasil e o grupo Inbra também foram procurados e não apresentaram manifestação. Os demais parlamentares que indicaram emendas para os convênios citados igualmente foram procurados e não haviam enviado posicionamento até a publicação.

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