Postagens pró-Tarcísio em perfis de fofoca levantam suspeitas de violação da Constituição
- www.jornalclandestino.org

- 14 de jan.
- 3 min de leitura
Perfis populares do Instagram publicaram em dezembro de 2025 conteúdos favoráveis ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, gerando suspeitas de propaganda institucional disfarçada e uso indevido de recursos públicos. Especialistas apontam risco de violação do princípio da impessoalidade e de propaganda eleitoral antecipada, cabendo investigação pelo Ministério Público e fiscalização do Tribunal Regional Eleitoral.

Em dezembro de 2025, perfis de entretenimento e fofoca no Instagram, como @alfinetei (25 milhões de seguidores), @fofocas (7,7 milhões) e @exclusivasdafama (9,1 milhões), passaram a publicar com frequência incomum conteúdos elogiosos ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). As postagens destacavam isenção de IPVA para motos, inauguração de trechos do Rodoanel Norte, cobranças à concessionária de energia e ações contra a violência de gênero, sempre com imagens, vídeos e menções diretas ao governador.
Apesar de se apresentarem como canais de entretenimento, os perfis adotaram narrativa alinhada à agenda do Palácio dos Bandeirantes, suscitando suspeitas de que atuaram como ferramenta de propaganda institucional travestida de conteúdo orgânico. O tom positivo, linguagem informal e destaque visual do governador destoaram do padrão habitual desses perfis, voltados a celebridades e memes.
Reportagem da Revista Piauí revelou indícios de que influenciadores foram contatados por uma empresa de marketing, a Submarino Lab, criada em 9 de dezembro de 2025, para publicar conteúdos favoráveis mediante pagamento. Um Pix de R$ 20 mil enviado pela titular da empresa, Vanessa Aparecida Ribeiro Soares, foi identificado como pagamento por quatro postagens a um influenciador. Curiosamente, a Submarino Lab está registrada como empresa de “motorista por aplicativo”.
O advogado Paulo Machado Guimarães, do PCdoB, avaliou que a situação pode violar o § 1º do art. 37 da Constituição Federal, que proíbe a utilização de publicidade oficial para promoção pessoal de autoridades. Segundo ele, “o envolvimento de recursos públicos pode ensejar ação de improbidade administrativa, ação popular ou ação civil pública”, cabendo ao Ministério Público ou a qualquer cidadão propor medidas legais.
Especialistas também apontam possíveis implicações eleitorais. Postagens repetidas que projetam de forma positiva a imagem do governador ou depreciam adversários podem configurar propaganda eleitoral antecipada. O advogado destacou, por exemplo, publicação do perfil @vemebuscarhebe que ironizava Guilherme Boulos: “Tarcísio cala a boca de Boules[sic]”. O Ministério Público Eleitoral, partidos ou federações podem acionar o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo ou o TSE.
Após a reportagem, o perfil @exclusivasdafama apagou todas as postagens favoráveis ao governador. Outros perfis, como @alfinetei e @garotxdoblog, não se pronunciaram. O governo estadual negou qualquer envolvimento, afirmando que realiza apenas campanhas institucionais de utilidade pública em conformidade com a Constituição. O partido Republicanos também disse desconhecer o caso.
Apesar disso, juristas ressaltam que mesmo pagamentos feitos por terceiros podem configurar violação do princípio da impessoalidade se houver uso de verbas públicas, direta ou indiretamente, para promoção pessoal do governador. Empresas de agenciamento, como a Banca Digital, afirmam adotar protocolos de “brand safety” para evitar exposição política não declarada.
O episódio demonstra a influência crescente de perfis de entretenimento como canais de comunicação política informal, capazes de alcançar milhões de pessoas fora do debate tradicional, sem transparência. Para especialistas, a fronteira entre informação institucional, marketing político e propaganda eleitoral se torna cada vez mais tênue, reforçando a necessidade de fiscalização por órgãos de controle e vigilância da sociedade civil.
Para Paulo Machado Guimarães, casos como este representam risco à integridade democrática, minando a confiança nas instituições e distorcendo o debate público quando o poder público recorre a estratégias para promover autoridades.

























