Que a raiva nos eduque para a luta
- Ashjan Sadique Adi

- 2 de mar.
- 3 min de leitura
Por Ashjan Sadique Adi
Você liga o computador e se depara com a avalanche de mentiras: “Iranianos comemoram anúncio da morte de Ali Khamenei”, “Iranianos estão comemorando ataques feitos pelos Estados Unidos e Israel”; ah, claro, o povo é sadomasoquista e comemora sua autodestruição... Segundo as fontes de direita: Jovem Pan, Gazeta do Povo, CNN Brasil, Veja, Globo, são muitas a enganar a massa; segue a mídia hegemônica com o poder de contaminar as informações para as pessoas com deturpações, distorções, invenções, falsificações, calúnias, inverdades.
E ontem, 28 de fevereiro de 2026, foi um dia nefasto (como são todos desde o 7 de outubro de 2023, que não se encerrou); a gente acorda e a primeira informação que lê no WhatsApp é que EUA e Israel atacaram o Irã, como já vinham anunciando; circulam vídeos com Trump e bilionários comemorando o ataque que iniciou matando 148 alunas e professoras em uma escola de meninas em Minab, na região sul do Irã. As vítimas, em sua maioria crianças, tinham entre 7 e 12 anos. Não, as vítimas ecoam, se multiplicam, não param aí: são 148 famílias, 148 pais, 148 mães, 148 irmãos e irmãs, 148 tios e tias, 148 primos e primas. E o céu persa se fecha.

Ah, mas o Ocidente e, dominados por este, o sul global, consideram que o grande instrumento de opressão das mulheres muçulmanas é o Hijab. Por favor, sejamos francos; opressão é bombardear escolas, matar meninas, mulheres, alunas, professoras. E aí, mundo? E aí, ditas feministas, vocês irão se manifestar, fazer protestos nas ruas contra essas mortes, da mesma forma que fizeram no caso da Mahsa Amini, em 2022? Não vi nada até agora.
Quais as possíveis causas deste silêncio, desta comoção seletiva? Alternativa 1. Hipocrisia. 2. Desconhecimento. 3. Ingenuidade. 4. Alienação. De toda forma, muitos e muitas, com o seu olhar míope, só conseguem enxergar "o cisco no olho do outro", principalmente se este olho for árabe, muçulmano, palestino, iraniano.
E assim seguimos acompanhando todas essas tragédias, o imperialismo dominando, envenenando, massacrando o mundo com seus Calígolas, Hitlers, Mussolinis, Pinochets e o que é pior: muita gente ao lado deles. Só me resta piedade; mal sabem que os opressores se voltarão contra si, contra seus filhos e filhas, netos e netas, bisnetos e bisnetas, é uma questão de tempo, eles adoram ser aplaudidos e louvados pelos seus servos.
Grandes líderes seguem sendo assassinados, presos, torturados, por não cederem ao poder, por não aceitarem o roubo e a expropriação de suas riquezas, de seus recursos naturais, especialmente o petróleo, e por governarem de modo que as riquezas fiquem sob domínio de seu próprio país: foi assim com Saddam Hussein (1937-2006) do Iraque, com Muammar Gaddafi (1942-2011) da Líbia, com Ismail Haniyeh (1962-2024) da Palestina, com Yahya Sinwar da Palestina (1962-2024), com Nicolas Maduro (1962-) da Venezuela e muitos outros, mas se você fizer uma pesquisa simples na web, os encontrarão definidos como ditadores e terroristas.
Claro... certamente Benjamin Netanyahu, Menachem Begin, David Ben-Gurion, Ariel Sharon, Donald Trump, Joe Biden, Barack Obama, George W. Bush, esses nunca assassinaram ninguém, nunca bombardearam escolas, mesquitas, igrejas, campos de refugiados, abrigos humanitários, são salvadores e heróis levando a civilização aos bárbaros. E obviamente, os entreguistas, rendidos e vendidos seguem vivos.
Sabe qual é um dos grandes problemas de toda essa Nakba, dessa catástrofe mundial? É que conhecemos apenas um lado da história: o lado do assassino, o lado do opressor, o lado do imperialista, o lado do vencedor, que detém os meios de comunicação e mentem, manipulam, se vitimizam. E sabe qual é o nosso problema, em particular? É que não lemos, não pesquisamos, não selecionamos os conteúdos, não verificamos as fontes. Não, não nos damos sequer a este trabalho, vamos engolindo automaticamente o que esses monstros nos enfiam goela abaixo, mente adentro, acreditando piamente em genocidas, pedófilos, criminosos que registram suas mentiras nas mídias, nos livros didáticos, “científicos”, literários, e vamos caminhando felizes para o matadouro, cego a tudo, sem nada perceber, sem nos implicar, porque achamos que a morte do outro não tem nada a ver conosco, nesta doença que virou a indiferença. E assim, vai-se tornando hábito a violência, entre a bomba que fere corpos, e a anestesia que atinge almas.
Por fim, felizmente, fui e sou educada na raiva, na revolta contra toda forma de opressão: genocídio, feminicídio, machismo, sexismo, racismo; as mortes materiais e simbólicas. A raiva como potência de vida, como motor da transformação, a raiva que nos ensina a não nos calar, a não aceitar. Que a raiva nos eduque para a luta.
Paranaíba/MS, 01-03-26.

























