Uma denúncia da CIA levou à fatídica prisão de Mandela em 1962, afirma ex-diplomata americano
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A prisão de Nelson Mandela em 1962, que resultou em 28 anos de encarceramento, ocorreu após uma denúncia da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA), segundo um diplomata americano que estava na África do Sul na época. Na ocasião de sua prisão, Mandela era o líder do uMkhonto we Sizwe (MK), organização que fundou em 1961 para atuar como braço armado do Congresso Nacional Africano (ANC), movimento antiapartheid. O governo da minoria branca na África do Sul, no entanto, acusou Mandela de ser terrorista e agente da União Soviética. A rivalidade entre EUA e União Soviética naquela época fez com que o ANC e seu líder tivessem poucos apoiadores nos Estados Unidos durante os estágios iniciais da Guerra Fria.

Mandela foi preso em 5 de agosto de 1962 na cidade de Howick, em KwaZulu-Natal, por membros da Polícia Sul-Africana. Ele fingia ser o motorista de Cecil Williams, um membro branco do ANC que estava no banco de trás do carro que Mandela dirigia naquela noite. Os detalhes do que levou à prisão de Mandela sempre foram misteriosos, e o ANC há muito suspeita que o líder do MK tenha sido traído por informantes infiltrados na organização pelo governo do apartheid. Mas um artigo do jornal londrino Sunday Times afirmou que foi a CIA que informou os sul-africanos sobre o paradeiro de Mandela naquela noite. A alegação se baseia em uma entrevista com Donald Rickard, um diplomata americano — já falecido — que atuava como vice-cônsul de Washington em Durban na época da prisão de Mandela. Alguns acreditam que Rickard era, na verdade, um agente da CIA disfarçado de diplomata até sua aposentadoria do serviço em 1978, e ele próprio nunca negou isso.
Duas semanas antes de morrer, Rickard concedeu uma entrevista ao cineasta britânico John Irvin, que estava filmando seu mais recente documentário, intitulado Mandela's Gun, sobre o papel de Mandela no MK. Segundo o The Times, o ex-diplomata americano disse a Irvin que, no início da década de 1960, Mandela era “o comunista mais perigoso fora da URSS”. Isso apesar das repetidas negativas de Mandela de que jamais fora membro ou simpatizante do Partido Comunista Sul-Africano, que na época apoiava ativamente o ANC. Rickard teria dito a Irvin: “Descobri quando [Mandela] estava vindo e como ele estava vindo [...]. Foi aí que me envolvi e foi aí que Mandela foi pego”. Em sua entrevista, Rickard insistiu que Mandela estava “completamente sob o controle da União Soviética [e efetivamente] um brinquedo para os comunistas”. Além disso, ele afirmou que a CIA acreditava que ele planejava organizar a grande população indiana da província de Natal e incitá-la a uma revolta liderada por comunistas, o que, segundo Rickard, poderia ter provocado uma invasão soviética armada da África do Sul. O ex-diplomata teria dito a Irvin: “Estávamos à beira do abismo e isso precisava ser impedido, o que significava que Mandela precisava ser impedido. E eu o impedi”.
Após sua prisão, Mandela passou quase 30 anos na cadeia sob acusações de terrorismo, até ser libertado em 1990. Em 1994, foi eleito o primeiro presidente negro da África do Sul, cargo que ocupou até sua aposentadoria em 1999. Os Estados Unidos, que o designaram oficialmente como terrorista na década de 1980, durante o governo do presidente Ronald Reagan, mantiveram o líder do ANC em sua lista de vigilância antiterrorista até 2008.
O governo dos EUA se recusou a comentar as alegações de Rickard.
► Autor: Joseph Fitsanakis



































