Brasil alcança pela primeira vez nível de “muito alto desenvolvimento humano”
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O Brasil registrou em 2024 o maior Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) de sua série histórica e ingressou pela primeira vez na faixa de muito alto desenvolvimento humano, segundo dados divulgados em 26 de maio pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), pela Fundação João Pinheiro e pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O índice nacional atingiu 0,805 após recuperação iniciada no período pós-pandemia de Covid-19, impulsionada por crescimento da renda, ampliação do acesso à educação e programas de transferência social interrompidos ou desmontados durante os ciclos de austeridade fiscal das últimas décadas. O levantamento também apontou redução da desigualdade racial no país, embora a distância entre população negra e branca permaneça presente em todos os indicadores analisados.

Os dados integram o relatório Radar IDHM 2024, que acompanha a evolução do desenvolvimento humano brasileiro entre 2012 e 2024. O estudo mostra que o país passou de 0,788 em 2022 para 0,798 em 2023 até alcançar 0,805 em 2024, ultrapassando pela primeira vez o limite estatístico considerado de muito alto desenvolvimento humano.
O indicador é calculado a partir de três dimensões: renda, educação e longevidade. Entre elas, a educação apresentou o maior crescimento médio anual da série, com avanço de 1,35%. O componente de longevidade alcançou 0,86 em 2024, maior patamar registrado desde o início da metodologia atual. O índice de renda também voltou a crescer após retração associada à crise sanitária e econômica agravada durante a pandemia. O levantamento aponta que a recuperação ocorreu após queda nos indicadores sociais registrada nos anos de maior impacto da Covid-19, período marcado por aumento da mortalidade, retração econômica, desemprego e redução da renda das famílias. O relatório associa a retomada a políticas públicas de transferência de renda, ampliação da matrícula escolar e recuperação parcial do mercado de trabalho.
Segundo o PNUD, o crescimento do IDHM ocorreu em todas as unidades da federação. Os maiores avanços proporcionais foram registrados em estados do Nordeste, com destaque para Alagoas, Piauí e Rio Grande do Norte. A região concentrou parte dos investimentos sociais federais e programas de redistribuição de renda nos últimos anos, em contraste com décadas de concentração econômica no eixo Sudeste-Sul do país.
O Distrito Federal registrou o maior IDHM do Brasil em 2024, com índice de 0,866. São Paulo apareceu em seguida, com 0,838. Na outra ponta, Maranhão apresentou 0,745 e Alagoas 0,746, embora ambos tenham registrado crescimento ao longo da série histórica.
O estudo também identificou redução da desigualdade racial no acesso a renda, educação e expectativa de vida. Entre 2012 e 2024, o IDHM da população negra cresceu 10,3%, enquanto o da população branca avançou 5,5%.
A população negra passou de índice 0,694 em 2012 para 0,774 em 2024. Entre a população branca, o indicador saiu de 0,804 para 0,851 no mesmo período. Com isso, a distância entre os dois grupos caiu de 14% para 9%.
Apesar da redução, os números mantêm evidentes as estruturas históricas de desigualdade racial formadas desde o período escravista e reproduzidas por décadas de concentração de renda, acesso desigual à educação e exclusão territorial. Mesmo após crescimento superior ao da população branca, o IDHM negro em 2024 permaneceu abaixo do índice registrado entre brancos ainda em 2012.
O relatório afirma que houve crescimento da população negra nas três dimensões analisadas: educação, longevidade e renda. O documento relaciona esse avanço à expansão de políticas sociais e à ampliação do acesso à educação básica e superior.
Betina Barbosa, coordenadora da Unidade de Desenvolvimento Humano do PNUD Brasil, declarou que programas de transferência de renda produziram efeitos diretos nos indicadores sociais do país. Segundo ela, o Bolsa Família contribuiu para retirar crianças do trabalho infantil e ampliar a permanência de estudantes nas escolas entre famílias de baixa renda.
“Programas estruturantes costumam produzir efeitos graduais e de longo prazo, o que ajuda a explicar o avanço mais consistente observado nos últimos anos”, afirmou Betina Barbosa.
O Bolsa Família voltou a ser ampliado após anos de redução orçamentária e mudanças promovidas durante governos alinhados à agenda de ajuste fiscal e compressão de gastos sociais defendida por organismos financeiros internacionais e setores do mercado financeiro. O retorno da política de transferência de renda coincidiu com a recuperação parcial de indicadores sociais deteriorados desde a recessão iniciada em 2015 e aprofundada pela pandemia.
Os dados divulgados pelo PNUD, Fundação João Pinheiro e IBGE indicam que a combinação entre transferência de renda, expansão educacional e recuperação econômica alterou a trajetória do IDHM brasileiro após um período marcado por retração social, aumento da fome e precarização do trabalho.



































