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Crises invisíveis revelam falência moral do sistema global

Em 28 de janeiro de 2026, a organização humanitária CARE divulgou seu Relatório Anual de Crises, expondo as dez emergências humanitárias menos noticiadas do mundo. A análise examinou cerca de 5 milhões de artigos online publicados em 2025 e constatou que quase metade concentrou-se exclusivamente em Gaza, enquanto outras tragédias foram empurradas para a invisibilidade. A assimetria molda fluxos de recursos, decisões políticas e prioridades internacionais. Em paralelo, cortes sistemáticos no financiamento humanitário, sobretudo de origem estadunidense, agravaram o colapso de programas vitais. O resultado é mensurável em fome, doenças evitáveis e milhões de vidas deixadas à margem de um sistema global hierarquizado.


Faixa de Gaza, 2025 - arquivo _hossam_shbat
Faixa de Gaza, 2025 - arquivo _hossam_shbat

Segundo a CARE, a concentração midiática no genocídio da população palestina a partir de 7 de outubro de 2023 não se traduziu em maior atenção estrutural às demais crises, mas sim em apagamento deliberado de contextos que não interessam à geopolítica das potências centrais. O relatório aponta que, quando uma crise não envolve interesses estratégicos imediatos de governos e corporações do eixo estadunidense-europeu, ela tende a desaparecer das manchetes e, com elas, do orçamento da ajuda internacional. Em 2025, essa lógica se materializou no “repentino dizimamento” dos orçamentos globais de assistência, conforme descrito pela própria organização.


Michelle Nunn, presidente e CEO da CARE, afirma de forma direta: “O trabalho da CARE se baseia em uma convicção simples: devemos estar presentes onde as necessidades são maiores, independentemente de o mundo estar observando ou não. Muitas pessoas sofrem com pouca ou nenhuma atenção. No entanto, toda vida é igual, e temos a obrigação moral não apenas de cuidar, mas de transformar esse cuidado em ação”. A declaração confronta a prática recorrente de doadores estatais, em especial o governo estadunidense, que condicionam recursos à visibilidade midiática e à conveniência política.


No Zimbábue, 7,6 milhões de pessoas — em um país de 17 milhões de habitantes — enfrentam insegurança alimentar agravada por secas que passaram a ocorrer a cada dois ou três anos, segundo dados da CARE. Quase 25% das crianças menores de cinco anos sofrem de desnutrição. “Só conseguimos colher dois baldes de sorgo. Não foi suficiente”, relata Alice, agricultora e mãe de três filhos, que hoje depende de vales-alimentação após perder plantações e animais devido ao El Niño.


Deslocada interna no Zimbábue ©UNHCR
Deslocada interna no Zimbábue ©UNHCR

No Malawi, 4 milhões de pessoas vivem insegurança alimentar após secas, inundações e ciclones sucessivos, que levaram distritos a decretarem estado de emergência em outubro de 2025. “Eu tinha uma plantação de milho, mas aí veio a chuva e levou tudo embora”, disse Amie, agricultora local. A CARE atua com organizações comunitárias para criar sistemas de alerta precoce, numa tentativa de mitigar danos que poderiam ser reduzidos com investimentos estruturais hoje negados.


Refugiados malawis ©UNHCR
Refugiados malawis ©UNHCR

A Zâmbia soma 5,5 milhões de pessoas necessitadas de assistência, em um contexto no qual mais da metade da população vive abaixo da linha da pobreza. Em fevereiro de 2025, o rompimento de uma barragem no norte do país despejou 50 milhões de litros de resíduos ácidos no rio Mwambashi, contaminando água, terras agrícolas e meios de subsistência. “Nunca vi tanta chuva”, afirmou Maik, agricultor que perdeu toda a produção em uma única noite.

Em Madagascar, 4,7 milhões de pessoas precisam de ajuda após quatro ciclones no primeiro semestre de 2025, incluindo Honde e Jude, que desalojaram mais de 46 mil pessoas em apenas duas semanas. Angola, por sua vez, enfrenta a pior seca em décadas combinada a um surto nacional de cólera, afetando diretamente 2,6 milhões de pessoas, entre elas 1,3 milhão de crianças, em um cenário de colapso hídrico e aumento da violência contra mulheres em áreas rurais.


A República Centro-Africana ilustra de forma crua o impacto dos cortes de financiamento estadunidense: 2,4 milhões de pessoas dependem de ajuda humanitária em meio a mais de uma década de guerra, com 442 mil deslocados e 98 ataques registrados contra escolas e hospitais. Em Honduras, 1,6 milhão de pessoas necessitam de assistência, e dados levantados pela CARE mostram que 61% das mulheres entrevistadas ficaram sem comer, contra 10% dos homens, evidenciando a desigualdade estrutural aprofundada pela fome.


Na Namíbia, a pior seca em 100 anos deixou 1,3 milhão de pessoas em situação de fome e doenças relacionadas à água contaminada; mais de 10% das mortes de crianças menores de cinco anos foram atribuídas a doenças diarreicas. No Burundi, a chegada de mais de 110 mil refugiados da República Democrática do Congo apenas em outubro de 2025 agravou uma crise alimentar que já atinge 1,2 milhão de pessoas. Já na Coreia do Norte, mais de 40% da população sofre de desnutrição, e uma em cada cinco crianças apresenta atraso no crescimento, situação agravada por sanções internacionais que limitam a entrada de alimentos e insumos humanitários.


O relatório conclui que essas crises não são inevitáveis, mas fruto de escolhas políticas, prioridades econômicas e de um sistema internacional moldado por relações coloniais e imperiais persistentes. Em 2025, a CARE afirma ter alcançado mais de 58 milhões de pessoas em 120 países, apesar do estrangulamento financeiro imposto por grandes doadores. A mensagem final é inequívoca: enquanto a visibilidade seguir subordinada aos interesses do poder estadunidense e de seus aliados, a invisibilidade continuará sendo uma sentença de morte para milhões.

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