Egito enfrenta herança colonial para resgatar tesouros saqueados
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O Egito repatriou dezenas de antiguidades nos últimos três meses, recuperadas de instituições e colecionadores nos Estados Unidos, Bélgica e Holanda. As devoluções, anunciadas entre novembro de 2025 e janeiro de 2026, resultam de ações diplomáticas e judiciais coordenadas pelo Estado egípcio. Apesar dos avanços, peças emblemáticas como o busto de Nefertiti e a Pedra de Roseta continuam retidas na Europa, protegidas por arcabouços legais moldados no período colonial.

De acordo com reportagem publicada pelo The New Arab em 2 de fevereiro de 2026, sete artefatos retornaram ao Egito a partir dos Estados Unidos em 4 de janeiro, incluindo um amuleto do deus Set, duas cabeças humanas de pedra, um escaravelho, uma estátua de ushabti, um peixe mumificado e uma cabeça de falcão mumificada. Em novembro de 2025, autoridades estadunidenses também enviaram 36 peças adicionais, das quais 24 eram manuscritos raros. Na mesma semana, a Holanda anunciou a devolução de um busto de pedra com mais de 3.500 anos, enquanto a Bélgica entregou, em dezembro de 2025, um sarcófago dourado do Período Tardio e a barba de madeira de uma estátua do Império Médio, após processo legal iniciado em 2016.
As repatriações são coordenadas pelo Departamento de Repatriação de Antiguidades, criado em 2002 e vinculado ao Conselho Supremo de Antiguidades (CSA). Mohamed Ismail Khaled, secretário-geral do órgão, explicou ao The New Arab que o departamento compara artefatos exibidos em museus e leilões internacionais com registros oficiais egípcios. “Se artefatos documentados forem identificados, o conselho solicita sua devolução ao detentor; caso o pedido seja recusado, recorremos à justiça internacional com provas documentadas”, afirmou.
A egiptóloga Monica Hanna atribuiu parte do sucesso à mudança de práticas arqueológicas no país. “Já não escavamos em busca de tesouros. Estudamos a estratigrafia, escavamos metodicamente e publicamos nossas descobertas”, disse ao The New Arab, destacando que a documentação rigorosa dificulta alegações fraudulentas de posse no exterior. Para ela, a perda de artefatos implica a destruição de contextos históricos inteiros, reduzindo objetos únicos a mercadorias descontextualizadas.
O principal obstáculo, porém, permanece jurídico. A Convenção da UNESCO de 1970, oficialmente intitulada Convenção sobre as Medidas a Adotar para Proibir e Impedir a Importação, Exportação e Transferência de Propriedade Ilícitas de Bens Culturais, não se aplica a peças retiradas antes de sua entrada em vigor. Assim, objetos levados durante o século XIX e início do XX — período de dominação colonial direta — são considerados “legalmente adquiridos”, mesmo quando removidos sob coerção política e desigualdade estrutural.
Bassam el-Shammaa, historiador egípcio, classificou o Artigo Quatro da convenção como “a cláusula mais injusta”, por legitimar aquisições feitas com o consentimento de autoridades coloniais. Mohamed Ismail Khaled concordou, afirmando que “definir 1970 como marco é tardio, já que durante a era colonial o controle sobre os bens culturais não estava nas mãos das nações de origem”. Segundo ele, o Egito articula com 15 países membros da UNESCO, incluindo China, Iraque e nações da América Latina, uma proposta de revisão do tratado no âmbito do Fórum das Civilizações Antigas.
Em reunião realizada em Atenas, em dezembro de 2025, o fórum discutiu um memorando conjunto para pressionar a UNESCO a reconsiderar a data de referência da convenção. Para Bassam, no entanto, a disputa não será resolvida apenas com apelos diplomáticos. “A diplomacia de veludo acabou, e a era das negociações gentis chegou ao fim”, afirmou, sintetizando a tensão entre a restituição simbólica de algumas peças e a permanência, em museus europeus, dos ícones mais saqueados da história egípcia.









































