Estudo destaca aumento de ataques digitais a mulheres negras
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Mulheres negras no Brasil enfrentam violência digital sistemática independentemente de idade, profissão ou posição social, segundo pesquisa divulgada em 26 de abril de 2026. O estudo do Instituto Minas Programam analisou experiências entre abril de 2024 e março de 2025. A investigação revela que ataques virtuais combinam racismo, misoginia e deslegitimação intelectual. Casos documentados mostram impactos diretos na vida profissional, política e psicológica das vítimas. Os dados foram publicados pela agência Alma Preta com base na pesquisa “Cavando nossos espaços”.

O levantamento reúne relatos detalhados de mulheres negras que sofreram violência de gênero facilitada pelas tecnologias, conhecida pela sigla VGFT. Entre os casos está o de Beatriz, 50 anos, professora substituta em uma universidade pública, que foi alvo de campanhas de difamação organizadas por estudantes em redes sociais. As agressões incluíam ataques à sua atuação profissional e conteúdos racistas e misóginos. “Diziam que eu era muito rígida e que, em vez de dar tarefas difíceis para eles fazerem, eu precisava de um homem que tomasse conta de mim. E as pessoas curtiam esses comentários”, relatou.
Além da exposição pública, Beatriz recebeu ameaças diretas, o que levou a uma resposta institucional da universidade considerada insuficiente. Segundo o relato, houve reconhecimento apenas superficial das dimensões de racismo, misoginia e homofobia presentes nos ataques, evidenciando a incapacidade das instituições em lidar com a violência digital estruturada.
Outro caso analisado é o de Michelle, 34 anos, que passou a sofrer ataques em 2019 após liderar a criação de uma biblioteca comunitária nomeada em homenagem a Marielle Franco. Os conteúdos ofensivos questionavam sua autoridade e capacidade, utilizando termos como “mulherzinha” e colocando em dúvida sua legitimidade para conduzir iniciativas de acesso ao conhecimento. As mensagens buscavam desqualificá-la como liderança comunitária, reproduzindo padrões históricos de exclusão racial e de gênero.
A pesquisa também documenta o caso de Maria, 30 anos, mulher negra nordestina que pretendia disputar eleições municipais em 2018. Durante sua atuação política, passou a receber ligações anônimas com descrições detalhadas de sua localização, caracterizando vigilância e intimidação. O episódio levou à desistência de sua candidatura. “Depois desse primeiro contato, percebi que as redes sociais tinham um papel muito importante. Mas também me senti desmotivada para ser influenciadora. Abandonei totalmente o papel de influenciadora política”, afirmou.
Os dados indicam que a violência digital não se restringe a figuras públicas, atingindo mulheres negras em diferentes contextos, como universidades, empresas, espaços comunitários e ambientes políticos. A diretora do Minas Programam, Bárbara Paes, afirmou: “Não é necessário ser uma figura pública para receber ataques, basta ser uma mulher negra que se posicione”. Segundo ela, o estudo identificou exclusão sistemática dessas mulheres de espaços como bibliotecas, universidades e áreas de ciência e tecnologia, além da negação de seu reconhecimento como produtoras de conhecimento.
A pesquisa qualitativa entrevistou 12 mulheres negras brasileiras, incluindo escritoras, políticas, profissionais de tecnologia, estudantes, artistas e jornalistas, todas envolvidas em ativismo social ou digital. O estudo aponta que, ao ocuparem espaços públicos e expressarem opiniões políticas, essas mulheres são tratadas como ameaças às hierarquias sociais estabelecidas no país.
De acordo com a pesquisadora Ester Borges, as agressões digitais reproduzem narrativas que buscam deslegitimar mulheres negras como intelectuais e líderes. “Observamos que qualquer mulher negra está sujeita a esse tipo de ataque, já que a VGFT busca com frequência reproduzir e amplificar narrativas de que essas mulheres são inadequadas ao debate público”, declarou.
A dimensão do problema é reforçada por dados anteriores. Pesquisa do sociólogo Luiz Valério de Paula Trindade apontou que, em 2022, mulheres negras entre 20 e 35 anos representaram 81% das vítimas de discurso racista na plataforma Facebook no Brasil. O dado evidencia a centralidade das redes sociais como instrumentos de reprodução de desigualdades estruturais.
O estudo também analisa os efeitos dessas violências, destacando impactos na liberdade de expressão, com casos de autocensura, abandono de atividades públicas e retração política. As consequências incluem danos psicológicos persistentes e barreiras ao desenvolvimento profissional e ao engajamento em movimentos sociais.
Apesar do cenário, a pesquisa identifica estratégias de resistência coletiva. Mulheres negras têm criado redes de apoio, coletivos e espaços digitais próprios para enfrentar a violência e reconstruir suas trajetórias. A diretora Bárbara Paes afirmou: “As participantes da pesquisa se recusaram a ficar silenciadas. São histórias de reconstrução coletiva”.
Um dos exemplos é o de Mariane, 27 anos, maquiadora e líder comunitária, que abandonou redes sociais após sofrer ataques racistas, misóginos e gordofóbicos. O processo de recuperação começou por meio da articulação com uma vizinha e da integração a um coletivo feminista negro, onde encontrou suporte e compreensão sobre a violência sofrida.
A estudante Letícia, 24 anos, que enfrentou agressão física e campanhas de difamação online, relatou a importância da coletividade para permanecer ativa nos espaços digitais. “Por mais que esse espaço seja hostil, estou disposta a construir algo mais acolhedor para nós. […] É um lugar onde eu fui vítima de violência. […] Mas é um lugar onde eu vou ficar, porque é uma arena de disputa política”, afirmou.
O Instituto Minas Programam, responsável pela pesquisa, foi criado em 2015 com o objetivo de enfrentar desigualdades de gênero e raça nas áreas de ciência e tecnologia. A organização oferece cursos, oficinas e treinamentos gratuitos voltados principalmente para mulheres negras e indígenas, buscando ampliar o acesso e a permanência nesses campos.



































