Guerra no Sudão entra no quarto ano com civis mortos, deslocamento em massa e violência sexual generalizada
- www.jornalclandestino.org

- 14 de abr.
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A guerra no Sudão entrou em seu quarto ano com civis submetidos a massacres, deslocamento em massa e violência sexual sistemática. O alerta foi feito em 13 de abril de 2026 por Denise Brown, coordenadora humanitária da ONU no país. Em declaração a partir de Cartum, ela classificou a situação como uma “crise abandonada” pela comunidade internacional. Dados apresentados indicam milhares de mortos, milhões de deslocados e financiamento humanitário drasticamente insuficiente. O cenário expõe a persistência de um colapso estatal alimentado por dinâmicas de guerra prolongada e interesses externos negligenciados.

Durante coletiva por videoconferência em Nova York, Denise Brown afirmou que o Sudão vive um “ciclo vicioso” de violência e sofrimento repetidos. “Por favor, não chamem isso de crise esquecida. Estou me referindo a isso como uma crise abandonada”, declarou, denunciando a ausência de resposta efetiva dos Estados e organismos internacionais diante da escalada da violência.
Relatórios do escritório de direitos humanos da ONU e de organizações humanitárias documentam a utilização sistemática da violência sexual, especialmente na região de Darfur. Segundo Brown, cerca de 2.500 sobreviventes de estupro foram atendidos por equipes humanitárias apenas no último ano. Os casos incluem estupros coletivos e afetam não apenas as vítimas diretas, mas também famílias inteiras e crianças nascidas dessas agressões, ampliando o impacto social da violência.
A coordenadora também destacou massacres em larga escala na região de El Fasher, capital de Darfur do Norte. Informações verificadas indicam que cerca de 6.000 pessoas foram mortas em apenas três dias de ataques, número que pode ser ainda maior devido às limitações de acesso e verificação em áreas de combate ativo. A cidade foi alvo de ofensivas das Forças de Apoio Rápido, que avançaram sobre a região em outubro de 2025, forçando milhares a fugir para acampamentos improvisados, como em Tawila.
Brown cobrou ações concretas para interromper o fluxo de violência, direcionando críticas à falta de medidas estruturais para conter os fatores que alimentam o conflito. “O que mais precisa acontecer para que todos acordem e prestem atenção, para que encontrem uma solução?”, questionou, ao apontar o papel do fluxo contínuo de armas e da chamada economia de guerra na perpetuação do conflito. Ela também levantou dúvidas sobre a efetividade do embargo de armas imposto a Darfur e sua aplicação prática.
A representante da ONU enfatizou que organizações humanitárias estão atuando em condições extremas, lidando apenas com as consequências da guerra. Segundo ela, agências da ONU, ONGs internacionais e organizações sudanesas permanecem operando em diversas regiões do país, tentando garantir a sobrevivência de milhões de pessoas, mas sem capacidade de alterar a dinâmica do conflito. “Os trabalhadores humanitários estão tendo que lidar com as consequências”, afirmou, ressaltando que assistência não substitui ação política.
Entre as regiões mais críticas está Dilling, no estado de Cordofão do Sul. Brown relatou que comboios humanitários conseguiram acessar a cidade após anos de bloqueios e que ela própria visitou a área em março de 2026. No entanto, pouco depois, a localidade voltou a ser atacada, interrompendo novamente o acesso de ajuda e forçando civis a fugir sob bombardeios diários. “Não há passagem segura para sair”, declarou.
No estado do Nilo Azul, a situação também se deteriora rapidamente. Aproximadamente 30 mil pessoas foram deslocadas recentemente devido à intensificação dos combates, ampliando o número total de deslocados no país, que já ultrapassa 12 milhões, segundo dados da própria ONU.
Apesar do cenário de devastação, Brown apontou iniciativas locais como um dos poucos elementos de resistência à escalada do conflito. Comunidades sudanesas têm atuado na contenção de discursos de ódio e na promoção de esforços de paz em nível local, mesmo sob condições extremas.
O financiamento humanitário permanece muito aquém das necessidades. Em 2025, o plano de resposta recebeu apenas 35% dos recursos necessários. Em 2026, até abril, o apelo de US$ 2,8 bilhões lançado pela ONU alcançou apenas 16% de financiamento. A escassez de recursos impacta diretamente a capacidade de fornecer alimentos, assistência médica e abrigo para milhões de sudaneses afetados.
Brown ressaltou que a falta de financiamento tem consequências imediatas e concretas para a população. “Precisamos realmente que haja um enorme foco em encontrar uma solução, e enquanto procuram essa solução, financiar para que as necessidades básicas das pessoas no Sudão sejam atendidas”, afirmou.



































