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Mandela Antes do Nelson: Como era a aldeia africana que moldou o homem que enfrentaria o apartheid

O gado descia a encosta em direção ao rio Mbashe quando o grito de uma mulher se espalhou pela aldeia. Era 18 de julho de 1918, inverno no Transkei, e a atmosfera carregava aquela quietude característica dos meses frios na região montanhosa do Cabo Oriental. As cabanas de pedra e barro de Mvezo – não mais do que duas dezenas de estruturas dispostas ao longo da margem do rio – pareciam encolhidas contra o vento que soprava do Índico, a menos de cem quilômetros dali. Naquela manhã, Nosekeni Fanny, a terceira esposa do chefe Gadla Henry Mphakanyiswa, dava à luz ao único menino que sobre­viveria aos primeiros anos entre os filhos daquela união específica. A criança receberia o nome de Rolihlahla – palavra isiXhosa que significava, com uma ambiguidade que o tempo tornaria profética, “aquele que puxa o galho da árvore” ou, na interpretação coloquial mais frequente, “encrenqueiro”. O avô da criança, o rei Ngubengcuka da nação Thembu, já estava morto havia décadas, mas sua sombra ainda governava aquelas terras.

ritual do ulwaluko, a tradicional circuncisão da etnia Xhosa
ritual do ulwaluko, a tradicional circuncisão da etnia Xhosa

Não havia certidão de nascimento, naturalmente. O Império Britânico, que administrava a Colônia do Cabo desde 1806 e o território do Transkei como protetorado nominal, não estendia seus registros burocráticos a aldeias como Mvezo. Os censos coloniais da época estimavam a população negra da África do Sul em pouco mais de quatro milhões de habitantes, dos quais aproxima­damente setecentos mil viviam na região do Transkei, que os britânicos haviam anexado entre 1877 e 1894 após uma série de guerras Khoikhoi e Xhosa. Mas esses números, compilados por funcionários coloniais em escri­tórios distantes, em lugares como King William's Town ou Umtata (hoje Mthatha), não conseguiam capturar a textura da vida em Mvezo. A população ali se media na proximidade entre as kraals, na distância percorrida a pé até o rio mais próximo, no número de cabeças de gado que um homem possuía e, acima de tudo, na linhagem que cada família podia traçar até os ancestrais fundadores do clã.

O clã de Rolihlahla era o Madiba, um subgrupo da linhagem real thembu que remonta ao século XVIII. O nome Madiba, que décadas mais tarde se tornaria sinônimo de carinho e respeito pelo velho Mandela, era original­mente o nome de um chefe Thembu do final do século XVIII que resistira às primeiras pressões dos colonos brancos vindos do Cabo. A genealogia, na tradição oral Xhosa, funcionava como um documento de identidade, uma escritura de propriedade e uma certidão de legitimidade política, tudo ao mesmo tempo. Cada homem Thembu podia recitar sua linhagem paterna por pelo menos doze gerações, e a de Rolihlahla seguia assim, como ele mesmo registraria décadas depois em sua autobiografia:

“Rolihlahla Mandela, filho de Gadla Henry Mphakanyiswa, filho de Mandela, filho de Ngubengcuka, filho de Vusani, filho de Ntiongo, filho de Mthikrakra, filho de Kewana, filho de Zondwa, filho de Ntose, filho de Maliqalí, filho do rei Thembu.”

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A cabana onde Nosekeni deu à luz não era grande – talvez cinco metros de diâmetro, o padrão entre as famílias da região. As paredes de barro seco ao sol, o teto cônico de capim-colchão, o chão batido coberto por esteiras de junco. Não havia janelas, apenas uma única porta baixa, forçando qualquer um que entrasse a curvar-se, esse era um gesto que os mais velhos interpre¬tavam como um lembrete diário de humildade. O fogo no centro da cabana queimava continuamente, sua fumaça encontrando saída por um pequeno orifício no teto, escurecendo as paredes com fuligem ao longo dos anos. Era ali, nesse espaço mínimo, que Nosekeni havia chegado alguns anos antes, vinda de uma região vizinha onde seu pai, o chefe Nkedama do clã Mpinga, governava terras no distrito de Mbizana. O casamento com Gadla, que já tinha duas outras esposas – a “Grande Esposa” e a “Esposa da Mão Direita” na hierarquia poligâmica Thembu –, era um acordo político entre linhagens. Nosekeni ocupava a posição de “Esposa da Mão Esquerda”, uma categoria que, apesar do nome secundário, detinha considerável autonomia, na qual, seus filhos não competiriam pelo título principal de chefe, mas teriam terras e status garantidos.

O pai da criança, Gadla Henry Mphakanyiswa Mandela, não estava presente no nascimento. Como chefe de Mvezo, ele havia sido convocado para arbitrar uma disputa entre duas famílias em um kraal a dois dias de caminhada. A função de chefe, no sistema Thembu, não era hereditária de forma automática e linear, como se poderia imaginar. Embora Gadla fosse descendente direto do rei Ngubengcuka por uma linha masculina, sua posição como conselheiro do rei reinante – o jovem Dalindyebo, então com cerca de trinta anos – dependia da confirmação por um conselho de anciãos e, cada vez mais, da aprovação das autoridades coloniais britânicas. Desde a anexação formal do Transkei em 1894, quando a Lei de Governo Natura (Native Government Act) do Primeiro-Ministro Cecil Rhodes submeteu os territórios tradicionais a comissários brancos, os chefes africanos haviam se tornado administradores subordinados. Eles ainda mantinham autoridade sobre disputas civis, divisão de terras e costumes cerimoniais, mas qualquer decisão considerada importante precisava da chancela de um funcionário britânico sentado em uma mesa de carvalho, em Umtata, com uma pena de ganso e tinta preta.

Essa tensão estrutural, entre a autoridade tradicional herdada de Ngubengcuka e o poder colonial imposto pelo canhão e pelo tratado, seria o cenário político no qual Rolihlahla aprenderia a respirar, muito antes de entender suas primeiras palavras. Em 1918, a África do Sul ainda não existia como entidade unificada; o país só seria formado em 31 de maio de 1910 com o Ato da União, que consolidou as duas antigas repúblicas bôeres (Transvaal e Estado Livre de Orange) e as duas colônias britânicas (Cabo e Natal) em um único domínio do Império Britânico. O Transkei, no entanto, permanecia como território separado, administrado diretamente pelo governo da União por meio do Departamento de Assuntos Nativos, sob a liderança de um homem que moldaria profundamente a infância de Rolihlahla sem nunca ter conhecido a criança. O general Louis Botha , primeiro primeiro-ministro da União Sul-Africana, era um comandante bôer que lutara contra os britânicos apenas oito anos antes e agora governava com eles sobre a maioria negra.

Os dados demográficos da época contam uma história econômica brutal. A Lei da Terra de 1913, aprovada quando cinco anos antes, havia restringido a população negra a apenas 7,3% das terras da África do Sul – embora constitu¬íssem 67% da população. No Transkei, onde a lei também se aplicava, a densi¬dade populacional nas reservas designadas saltou rapidamente. Famílias que antes pastoreavam gado em terras agora declaradas propriedade branca foram forçadas a se deslocar para dentro das reservas, reduzindo as áreas disponíveis para cada chefe administrar. Um relatório do Departamento de Assuntos Nativos de 1917, um ano antes do nascimento de Rolihlahla, estimou que a capacidade de suporte do Transkei havia sido excedida em 22%, com território insuficiente para o gado que sustentava a economia tradicional Xhosa. Não era apenas uma questão de espaço, era a erosão de uma ordem econômica inteira, substituída gradualmente pelo imposto (hut tax), introduzido em 1880, que forçava cada família a produzir dinheiro em espécie – e portanto a enviar homens para trabalhar nas minas de ouro de Witwatersrand ou nas plantações de cana de açúcar de Natal.

Gadla Henry Mphakanyiswa sentia essas pressões em sua própria carne. Como chefe, ele era responsável por coletar os impostos coloniais entre as famílias de Mvezo, uma função que o colocava em posição delicada entre seu povo e o governo branco. A tradição Thembu exigia que um chefe distribuísse terras, resolvesse disputas e servisse como ponto focal dos rituais ancestrais, mas o sistema colonial adicionara uma nova camada e ele agora era também cobrador de impostos, executor de regulamentos sanitários e recrutador de mão-de-obra para as minas. Os anciãos do clã murmuravam que os chefes haviam se tornado “funcionários do governo com túnicas de pele de leopardo”. No momento do nascimento de Rolihlahla, Gadla mantinha um equilíbrio instável, respeitado pelas duas partes mas totalmente confortável em nenhuma.


Nosekeni, por sua vez, cuidou sozinha dos primeiros dias do recém-nascido. A tradição Xhosa determinava que o cordão umbilical fosse cortado com um talo de capim específico, que depois seria enterrado no chão da cabana ou, em alguns clãs, dentro da kraal. Aquela pequena porção do corpo da criança, ao ser devolvida à terra dos ancestrais, selava simbolicamente sua relação com aquele solo. Rolihlahla pertencia a Mvezo da mesma forma que o rio Mbashe pertencia àquela paisagem; por direito de nascimento, mas também por obrigação ritual. O nome só seria dado oficialmente após alguns dias ou semanas, quando a mãe considerasse que as chances de sobrevivência eram altas o suficiente para justificar a cerimônia. A mortalidade infantil no Transkei naquela época, embora sem estatísticas precisas, era estimada por missionários e administradores coloniais em cerca de 15% a 20% no primeiro ano de vida, com números ainda mais altos em anos de seca ou doença e a família Mandela já conhecia essa realidade. Dos dez filhos de Gadla de suas três esposas, três haviam morrido antes de completar cinco anos.

Mas Rolihlahla cresceu. Ele ganhou peso, começou a reagir à luz que entrava pela porta baixa, aprendeu a distinguir o cheiro do fogo do cheiro do leite azedo. Seus primeiros meses coincidiram com o fim da Primeira Guerra Mundial, o armistício de 11 de novembro de 1918 foi celebrado em Umtata com disparos de canhão e discursos do comissário-chefe, um certo major Hervey, que falou da “lealdade do povo nativo ao Império”. Setecentos mil sul-africanos negros haviam servido no conflito europeu, principalmente como trabalhadores não-combatentes no Corpo de Trabalho Nativo da África do Sul; 1.307 deles morreram no naufrágio do navio-tropas SS Mendi em 21 de fevereiro de 1917, no Canal da Mancha, afundado por um navio alemão. As famílias das vítimas, no Transkei, receberam compensação de 75 libras por homem, menos da metade do que as famílias brancas recebiam por soldados mortos. Em Mvezo, ninguém comentou a guerra; os homens que foram lutar pelo rei inglês não eram de Mvezo, mas sim das áreas mais próximas às missões cristãs, onde a escola já havia começado a moldar cabeças antes mesmo de ensinar letras.

O avô paterno de Rolihlahla, Mandela, um nome que depois se tornaria sobrenome da família, havia sido filho do rei Ngubengcuka com uma esposa do clã Ixhiba, o que o colocava fora da linha principal de sucessão real. No sistema Thembu, a Grande Esposa dava à luz o herdeiro, mas as outras esposas geravam filhos que recebiam terras e títulos secundários. O rei Ngubengcuka, que governou até sua morte em 1832, teve filhos de três casa¬mentos diferentes, e cada um desses ramos desenvolveu disputas políticas que persistiram por gerações. O ramo de Mandela (o avô) ficou conhecido como os “Mandela”, em referência ao nome do patriarca, e ao longo do século XIX consolidaram sua posição como chefes locais na região de Mvezo. Essa fragmentação da autoridade real, comum em sociedades africanas pré-coloniais, onde o poder era distribuído em vez de centralizado, significava que o filho de Nosekeni, embora príncipe em certo sentido, cresceria a quilôme¬tros de distância de qualquer coroa.

O rei Thembu titular durante os primeiros anos de Rolihlahla era Dalindyebo Sabata, filho de Ngangelizwe, o mesmo que, em 1875, assinara um tratado com o governo do Cabo submetendo o povo Thembu à autoridade colonial em troca de proteção contra ataques zulus e guerras internas. A assi¬natura daquele tratado, um evento que os anciãos quando Rolihlahla nasceu ainda se lembravam, marcou a transição definitiva dos Thembu de uma nação independente para um grupo administrado. Ngangelizwe viajara até King William's Town com uma comitiva de duzentos guerreiros, usando peles de leopardo e carregando lanças cerimoniais, para encontrar-se com o governa¬dor do Cabo, Sir Henry Bartle Frere. A conversa, conduzida por intérpretes, durou três dias. O documento final, redigido em inglês e traduzido apressada¬mente para o isiXhosa pelos missionários wesleyanos, cedia virtualmente toda autoridade política ao governo colonial. Ngangelizwe voltou ao Transkei como chefe nominal de um protetorado.

Essa história, a entrega controlada da soberania, a ilusão da autonomia mantida sob vigilância, não era ensinada às crianças de Mvezo nos primeiros anos de vida. Rolihlahla aprenderia o idioma antes de aprender a história, e aprenderia as histórias antes de aprender o que significavam. As narrativas que Nosekeni contava à noite, perto do fogo, eram as da tradição oral Thembu: as façanhas de Ngubengcuka, a fome de 1856-57 que se seguiu à profecia do sacrifício do gado , as guerras contra os Pondo e os Zulu. Eram lições de resis¬tência e sobrevivência, mas também de ambiguidade, afinal, não havia heróis sem falhas, nem vitórias sem derrotas posteriores.

Aos quatro anos, Rolihlahla já realizava pequenas tarefas. Acompanhava as cabras até os pastos nas encostas que desciam para o Mbashe, sentia o peso da cabaça com água que precisava carregar da fonte até a cabana da mãe, aprendia a diferença entre as plantas comestíveis e as venenosas. Não havia brinquedos no sentido moderno, mas as crianças de Mvezo construíam carri¬nhos de madeira com rodas de argila ou, mais frequentemente, usavam a lama do rio após as chuvas para moldar figuras de gado. As brincadeiras imitavam a vida adulta e os meninos pastoreavam cabras imaginárias enquanto as meninas amassavam lama simulando milho. Todos já sabiam, aos cinco anos, o que significa pertencer a um clã, respeitar um chefe, temer os ancestrais e cumprimentar os mais velhos com a fórmula correta – o nkunzi (pai) para os homens mais velhos que não eram parentes próximos, o sisi (irmã) para as mulheres, o gesto específico de baixar os olhos e estender a mão direita quando se fala com alguém de status superior.

O gado, sempre o gado. Em 1923, quando Rolihlahla completou cinco anos, sua família possuía cerca de quarenta cabeças, um número respeitável para um chefe local, mas muito aquém das centenas que os reis Thembu mantinham antes da Lei da Terra. Os historiadores econômicos calculam que a posse média de gado por família no Transkei em 1920 era de aproximada¬mente oito cabeças, o que significa que os Mandela estavam entre os 10% mais ricos da região. Mas o gado não era dinheiro, não podia ser convertido facil¬mente em mercadorias, e sua função principal era social e cerimonial. O Lobolo, um dote pago pela família do noivo à família da noiva, exigia no mínimo dez cabeças para uma esposa comum, quinze ou mais para filhas de chefes. Cerimônias de casamento, funerais e rituais ancestrais consumiam gado em abates que alimentavam a comunidade. Um homem sem gado era um homem sem linhagem, sem capacidade de formar alianças, sem lugar na ordem social. A Lei da Terra de 1913, ao restringir as terras negras, atacou não apenas a economia mas a própria matriz de reprodução social da sociedade Xhosa.


Em 1924, ano em que o menino completou seis anos, a Administração de Assuntos Nativos exigiu que todos os chefes submetessem seus orçamentos anuais ao comissário distrital e justificassem qualquer despesa acima de determinado limite. Para Gadla, que nunca na vida havia escrito uma palavra em inglês, isso significava depender do missionário local, Reverendo Jones da Igreja Metodista Wesleyana em Qunu (aldeia vizinha a Mvezo), para traduzir e redigir documentos. O reverendo, um inglês de Manchester chegado à África do Sul em 1906, tornou-se uma espécie de conselheiro não-oficial de Gadla; não porque o chefe confiasse nele, mas porque o sistema não oferecia alternativa. Em 1925, a correspondência entre o comissário distrital e Gadla, preservada nos arquivos de Umtata, mostra uma conversa de surdos, com o comissário cobrando formulários preenchidos, Gadla respondendo por inter¬médio do reverendo que os formulários não faziam sentido pois não contro¬lava as quantidades de gado que seus súditos possuíam individual¬mente.

Foi nesse ambiente, de erosão lenta da autoridade, de burocratização sem representação, de missionários que ofereciam a chave de uma gaiola dourada, que Rolihlahla recebeu seu primeiro nome ocidental. Aos sete anos, sua mãe Nosekeni decidiu que ele deveria ser batizado e iniciar os estudos na escola missionária de Qunu, a cerca de oito quilômetros de Mvezo. Nosekeni manti¬nha o culto aos ancestrais e via com suspeita o cristianismo, que seus paren¬tes Mpinga haviam rejeitado consistentemente. Mas a pressão colonial, combinada com o exemplo de outras famílias que enviavam filhos à missão e viam esses filhos obterem empregos como escribas, professores ou auxiliares administrativos, funções que geravam dinheiro vivo para pagar impostos, tornaram a escola quase inevitável. No batismo, a professora, uma senhora metodista chamada Miss Mdingane, seguiu o costume da escola de atribuir nomes ingleses a todos os alunos, pois os administradores coloniais reluta¬vam em aprender a pronúncia de nomes isiXhosa. Miss Mdingane olhou para o menino magro de olhos atentos, cabelo curto raspado e postura ereta e deu-lhe o nome de Nelson, em homenagem a um oficial naval britânico local que a missionária admirava. O nome não significava nada para o menino, que continuou respon¬dendo por Rolihlahla em casa, mas passaria a ser seu passaporte para o mundo da escrita, da gramática inglesa e dos mapas europeus.

O rei Dalindyebo morreu em 1928, quando Rolihlahla tinha dez anos. A sucessão recaiu sobre seu filho, o jovem Sabata Dalindyebo, então com cerca de trinta e dois anos, que assumiu o título de rei Thembu em meio a disputas sobre sua legitimidade. Alguns ramos da família real apoiavam um sobrinho de Dalindyebo, enquanto os conselheiros tradicionais argumentavam que a linhagem direta deveria prevalecer. A cerimônia de coroação em Mthatha, na presença do comissário-chefe do Transkei, Nathaniel Stanley, um inglês que falava isiXhosa fluente, selou o compromisso entre a tradição e a administra¬ção colonial. Sabata foi coroado segundo rito Thembu, mas na sequência assi¬nou um documento reconhecendo a autoridade final do governo da União Sul-Africana. Os anciãos presentes, incluindo Gadla, notaram que o documento não tinha equivalente em isiXhosa; a versão que leram, traduzida pelo próprio Stanley, não continha a mesma linguagem de subordinação que o texto em inglês. Essa diferença entre a palavra dita e a palavra escrita, entre a promessa feita em cerimônia e o contrato assinado em cartório, se tornaria um padrão que Rolihlahla aprenderia a reconhecer, decodificar e, eventualmente, a denunciar.

A morte de Sabata, décadas depois, em circunstâncias que a biografia política precisará abordar, ainda estava distante. No final da década de 1920, o que importava para um menino de dez anos em Mvezo era o gado, a chuva, as histórias noturnas e a escola. Qunu, a aldeia da missão, transformava-se gradualmente de um lugar estrangeiro em um segundo lar. A caminhada de entre Mvezo e Qunu, que Rolihlahla fazia a pé todos os dias de aula, marge¬ando o Mbashe e cortando colinas cobertas de capim-elefante, demorava cerca de duas horas. No inverno, saía antes do amanhecer, carregando sua trouxa de milho cozido e ocasionalmente um pedaço de carne seca. O retorno, após as aulas que iam das 9h às 15h, acontecia sob o sol da tarde, ou, nos meses chuvosos, sob a cortina de água que transformava os caminhos de terra em atoleiros onde seus pés descalços afundavam até o tornozelo.

O método de ensino da escola primária de Qunu não oferecia espaço para questionamento. Os alunos sentavam-se em fileiras de madeira, meninos de um lado, meninas do outro, e copiavam do quadro-negro frases em inglês e trechos do Antigo Testamento traduzidos para o isiXhosa. A educação missio¬nária na África do Sul, padronizada após a Comissão de Educação Nativa de 1905, tinha o objetivo claro de produzir uma elite negra “civilizada” o sufici¬ente para servir ao sistema colonial, mas não educada o bastante para desafiar sua lógica. O currículo enfatizava obediência, pontualidade, limpeza e trabalho manual para os meninos, enquanto as meninas aprendiam costura, culinária e cuidados domésticos. A história era contada a partir da perspectiva europeia, com os reis Thembu mencionados apenas de passagem, como curiosidades pré-modernas. As Guerras Xhosa (1779-1879, nove conflitos sucessivos entre colonos europeus e os povos Xhosa) eram chamadas de “Guerras de Fronteira” ou, nos textos missionários, “conflitos desafortunados entre colonos pacíficos e nativos belicosos”. Não se mencionava que os colonos haviam cruzado o rio Fish (iKai) em 1770, ignorando acordos prévios, nem que o governo do Cabo oferecia recompensas por terras Xhosa “desocu-padas”; isto é, cujos ocupantes haviam sido mortos ou expulsos.

Mas algo na escola falava a Rolihlahla de uma maneira diferente. Ele apren¬deu a ler rápido, descobrindo que os símbolos no papel se transformavam em palavras, e as palavras em sentimentos, e os sentimentos em portas que se abriam para mundos que ele nunca imaginara. A biblioteca da missão – uma estante com talvez cem volumes, a maioria doações de igrejas inglesas – con¬tinha romances simples, biografias de missionários e alguns livros de história adaptados. Rolihlahla leu tudo o que pôde, primeiro em isiXhosa, depois, à medida que seu inglês melhorava, no original. Aos doze anos, já havia deco¬rado longos trechos do Livro de Provérbios em inglês, pois o ritmo das frases o agradava, e sabia citar a declaração de direitos do Parlamento inglês de 1689 – embora não compreendesse, naturalmente, que aquele documento não se aplicava a ele. Miss Mdingane anotou em seu relatório de 1930: “Nelson apresenta aptidão notável para línguas e memorização. Pode se tornar professor, se mantiver a disciplina.”

A disciplina, precisamente, era o que lhe custava. Não que Rolihlahla fosse rebelde no sentido de desobedecer. O problema, aos olhos dos missionários, era sua relutância em aceitar que os costumes Xhosa pertenciam ao passado. Certa vez, em 1929, um colega de classe menosprezou o ritual do ulwaluko, a tradicional circuncisão vista pelos Xhosa como o rito de passagem da infância para a idade adulta masculina, chamando-o de “bárbaro”, termo que os missi¬onários usavam com frequência. Rolihlahla ergueu-se de seu banco e respon¬deu, em inglês perfeito, que as cerimônias de sua família eram tão antigas quanto a Bíblia e tão sagradas quanto a Ceia do Senhor. Miss Mdingane o repreendeu não pelo conteúdo do argumento, mas pelo tom e o manteve depois da aula para copiar três páginas de Provérbios. Ele copiou sem recla¬mar, mas no dia seguinte levou para a escola um punhado de folhas secas de uma planta que os anciãos usavam em rituais de purificação, e as ofereceu a Miss Mdingane em um gesto que mesclava desafio e respeito. A professora, compreendendo a mensagem, aceitou as folhas e as colocou sobre sua mesa, ao lado da Bíblia. Ambos entenderam que nenhum dos dois se converteria ao mundo do outro completamente.

O pai, Gadla, via a educação do filho como um investimento estratégico, mas não compartilhava da fé missionária. Em 1927, quando Rolihlahla tinha nove anos, o pai foi novamente convocado pelo comissário distrital para uma audiência sobre uma disputa de terras entre duas famílias em Mvezo. Desta vez, uma família alegava que Gadla havia favorecido parentes na distribuição de pastagens, violando a Lei de Terras de 1913. O comissário, um escocês cha¬mado Ferguson, tratou Gadla como trataria um funcionário público insubor¬dinado, chamou-o de “Mr. Mandela” em vez de “Chief Mandela”, recusou-se a oferecer-lhe assento em sua sala e redigiu um relatório crítico que subiu para o escritório central em Umtata. Gadla voltou para casa naquela noite sem dizer uma palavra a Nosekeni ou aos filhos, sentou-se perto do fogo e ficou olhando as brasas por horas. Rolihlahla, escondido atrás da porta da cabana, viu pela primeira vez o que o poder burocrático podia fazer a um chefe. Não eram as armas dos soldados britânicos que humilhavam seu pai, mas um papel, uma caneta, uma mesa.

A saúde de Gadla começou a declinar em 1928. Os registros missionários mencionam dores no peito e dificuldade respiratória, possivelmente tuberculose, doença que grassava nas reservas superpovoadas do Transkei, onde a desnutrição enfraquecia os pulmões e a fumaça constante das cabanas agravava qualquer fragilidade. Na noite de 11 de fevereiro de 1929, Gadla morreu sentado no mesmo lugar perto do fogo onde passara a noite da humi¬lhação diante do comissário Ferguson. Nosekeni e suas co-esposas velaram o corpo durante dois dias, conforme o ritual, enquanto mensageiros eram envi¬ados aos clãs vizinhos para anunciar a morte de um chefe. O gado foi abatido, quinze cabeças, número que os anciãos consideraram adequado à posição de Gadla, embora inferior ao que seu pai Mandela recebera em seu funeral em 1904. Rolihlahla, à beira dos onze anos, participou do velório como um homem, vestindo pela primeira vez a pele de cabra que os meninos em transição usavam. Ele não chorou na frente dos outros, mas mais tarde, sozinho nos pastos, encontrou a vaca favorita de Gadla e ficou ao lado dela, mão sobre o pescoço do animal, por um longo tempo sem se mover.

Com a morte de Gadla, a estrutura da família Mandela mudou dramatica¬mente. As terras e o título de chefe de Mvezo, no sistema Thembu, não passavam automaticamente ao filho mais velho quando o chefe tinha filhos de diferentes esposas. Gadla havia designado seu herdeiro principal como o filho mais velho de sua Grande Esposa, um rapaz chamado Ngabayenkosi, com quem Rolihlahla mantinha relações distantes. No entanto, a autoridade colonial via com maus olhos Ngabayenkosi, que se recusava a comparecer a reuniões com o comissário e não escondia seu desdém pelos missionários. Em 1930, o governo nomeou um chefe interino, um primo afastado de Gadla que tinha o favor das autoridades por sua atitude cooperativa. Nosekeni, vendo seu filho perder qualquer perspectiva de crescer como herdeiro de terras em Mvezo, tomou uma decisão drástica: enviaria Rolihlahla para a corte do regente Thembu, o chefe Jongintaba Dalindyebo, em Mqhekezweni, capital tradicional do povo Thembu.

Jongintaba era viúvo de uma filha de um subchefe importante e havia se tornado o guardião do jovem rei Sabata, que ainda não tinha idade para governar plenamente. Ele mantinha sua própria corte, com conselheiros, guerreiros, esposas e serventes, em uma colina arborizada perto de Umtata. A reputação de Jongintaba como administrador era ambivalente, se por um lado era respeitado por sua adesão às tradições Thembu, por outro criticado por sua proximidade com as autoridades coloniais, de quem recebia um salário anual de 600 libras, quantia enorme para os padrões locais, capaz de comprar cem cabeças de gado. A esposa de Jongintaba, Noengland, tornou-se responsável direta por Rolihlahla, tratando-o como filho adotivo. O menino de onze anos deixou Mvezo em uma manhã de agosto de 1930, com uma trouxa de roupas, uma esteira para dormir e a bênção de Nosekeni. Ela disse apenas: “Ouça mais do que fale. Aprenda mais do que ensine. E nunca esqueça de onde veio.” Ele não esqueceu.

O rio Mbashe ainda corria atrás dele quando Rolihlahla virou-se pela última vez para olhar Mvezo. As cabanas de barro encolhiam na paisagem monta¬nhosa, e o gado já havia descido para o vale, indiferente à partida do menino que ali nascera. Mvezo continuaria sendo, para sempre, a primeira resposta à pergunta “de onde você vem?” – uma aldeia minúscula no mapa da África do Sul colonial, habitada por camponeses cuja memória se estendia até Ngubengcuka, mas cujo futuro já estava sendo escrito em mesas de carvalho, em inglês, em documentos que nenhum deles podia ler completamente. Rolihlahla Mandela, Nelson, o menino que puxava o galho da árvore, não sabia que levaria décadas para entender completamente a paisagem que abandonaria. Mas ela se instalou em seus ossos, no ritmo de sua caminhada, na maneira como saudava os mais velhos, na reverência que sempre teria pelo gado, pela terra e pelas palavras ditas ao pé do fogo. Mvezo não era apenas um berço; era uma configuração do mundo, uma ordem social que o colonialismo tentava desmontar sem oferecer outra em seu lugar. E tudo o que Rolihlahla aprenderia nos anos seguintes seria uma negociação contínua entre esse mundo que ele levava dentro de si e o outro mundo que batia à porta, exigindo que ele se curvasse ou fosse quebrado.


Em Mqhekezweni, o menino encontrou uma corte que era um microcosmo da política Thembu. Jongintaba oscilava entre a tradição e a administração colonial, um equilíbrio que Rolihlahla passaria anos estudando, mesmo sem saber que o estudava. As reuniões do conselho de anciãos ocorriam sob uma enorme figueira, e ali ele ouviu discussões sobre terras, impostos, casamentos, guerras e a relação com o governo branco. Os anciãos falavam em parábolas e provérbios, raramente de forma direta, construindo consenso por meio de repetições e silêncios. “Um homem é um homem através de outros homens”, dizia um provérbio isiXhosa que Rolihlahla ouviu pela primeira vez na corte. A filosofia do ubuntu estava ali, viva, na prática cotidiana de ouvir antes de falar, de considerar o bem comum antes do individual, de valorizar a palavra empenhada acima do contrato assinado.

Durante cinco anos, de 1930 a 1935, Rolihlahla viveu em Mqhekezweni, indo à escola missionária local, participando dos rituais da corte e, cada vez mais, acompanhando Jongintaba em suas viagens pela região. A Grande Depressão, que começou com a quebra da bolsa de Nova York em 1929, atingiu a África do Sul com força brutal em 1931 e 1932. O preço da lã, principal produto de exportação da agricultura branca, caiu 60%, e a demanda por mão-de-obra nas minas despencou. Os homens negros que haviam deixado o Transkei para trabalhar nas minas de ouro voltaram aos milhares, desempre¬gados, pressionando ainda mais as terras já superlotadas das reservas. Jongintaba, como regente, enfrentou uma onda de jovens sem perspectivas, famílias sem gado, anciãos acusando o governo colonial de provocar fome deliberadamente. Em 1932, uma pequena rebelião em um distrito vizinho, liderada por um curandeiro que se dizia inspirado pelos ancestrais, foi repri¬mida pela polícia montada a cavalo; três africanos morreram, e o curandeiro foi preso e enviado para a prisão de Umtata. Jongintaba, pressionado pelo comissário distrital, declarou apoio à repressão – decisão que lhe rendeu críticas de alguns anciãos e que Rolihlahla presenciou com desconforto.

Foi nesse ambiente de crise econômica e tensão política latente que o me¬nino se transformou em adolescente. Aos quatorze anos, em 1932, ele já tinha 1,75 metro de altura, ombros largos e uma expressão de atenção concentrada que os anciãos notavam. Participou de seu primeiro ritual importante: o ulwaluko. A cerimônia, realizada em segredo nas colinas ao redor de Mqhekezweni, durou cerca de três semanas, sob a supervisão de um ingcibi (especialista em circuncisão) e um ikhankatha (guardião dos ritos). Ao final, quando emergiu da cabana de isolamento coberto de argila branca, Rolihlahla ouviu pela primeira vez as palavras que os anciãos recitavam aos novos homens:

“Agora você é um homem. De agora em diante, você terá o direito de fazer qualquer coisa que um homem faz. De agora em diante, você falará na reunião dos anciãos. De agora em diante, você pegará em armas se necessário.”

Ele recebeu seu novo nome como homem adulto – Dalibunga, “fundador do conselho” – embora o mundo branco insistisse em chamá-lo de Nelson. A distância entre esses dois nomes, entre esses dois mundos, era a geografia inteira de sua infância.

Em 1934, aos dezesseis anos, Rolihlahla concluiu o equivalente ao ginásio na escola missionária de Mqhekezweni. Jongintaba, reconhecendo a inteligência do rapaz, decidiu matriculá-lo no Clarkebury Boarding Institute, um colégio metodista em Engcobo, a cerca de 120 quilômetros dali. Era uma escola de elite negra, concebida para formar a próxima geração de professo¬res, administradores e chefes “civilizados” que serviriam como intermediá¬rios do sistema colonial. A mensalidade anual de 35 libras – o equivalente a seis meses de salário de um trabalhador negro médio na época – seria paga pelo regente. Rolihlahla partiu em janeiro de 1934, levando uma mala de madeira com roupas, livros e uma carta de apresentação de Jongintaba ao diretor, o Reverendo C. Harris. Harris, um inglês que passara vinte anos na África do Sul, havia escrito um artigo publicado no jornal Umtata Gazette em 1932 defendendo que

“a educação nativa deve preparar o nativo para seu lugar na sociedade, não para um lugar que ele não ocupará”.

Rolihlahla leu o artigo durante seu primeiro mês em Clarkebury e, segundo relatos de colegas, comentou com um amigo: “Ele decide meu lugar antes mesmo de me conhecer.”

Mvezo, nessas primeiras décadas do século XX, produziu muitos filhos que se dispersaram pelo Transkei, pela África do Sul, pelas minas e fazendas. A maioria nunca voltou, ou voltou apenas para enterrar os pais e vender as terras. O que diferenciava Rolihlahla Mandela não era a inteligência nem a ambição, embora essa não faltasse. A diferença estava em sua capacidade de reter dentro de si o mundo de Mvezo – o som do gado descendo ao anoitecer, o sabor de leite azedo na cabana de Nosekeni, o peso da tradição Thembu exigindo que um homem falasse devagar e ouvisse com atenção – enquanto simultaneamente aprendia o outro mundo; o da gramática, o sistema de coor¬denadas cartesianas, a geografia da Europa, a cronologia dos reis britânicos. Ele não rejeitava um mundo para abraçar o outro, e essa recusa em escolher, em abandonar a identidade originária como condição para o sucesso no novo sistema, seria sua marca mais profunda. Nos anos seguintes, no Colégio de Fort Hare, em Witwatersrand, na prisão e na presidência, ele sempre carregaria Mvezo consigo, não como uma nostalgia rural ou um folclore político, mas como uma disposição interior, uma maneira de estar no mundo que resistia à pressão colonial e que oferecia, em seu próprio ritmo e cadência, uma alternativa à lógica do vencedor.

A aldeia que o viu nascer permaneceu, durante toda sua infância, o centro de gravidade de sua existência. Quando ele deixou Mvezo definitivamente, aos dezesseis anos, para estudar em Clarkebury, o gado ainda pastava nas mesmas encostas, o rio Mbashe corria na mesma direção e as cabanas de barro ainda pareciam encolhidas contra o vento. A diferença é que o menino que partira carregava agora, em sua própria carne, a experiência de ter sido criado em dois mundos, em um deles o da tradição Thembu, com suas assem¬bleias sob a figueira e seus provérbios ancestrais, noutro, o mundo da escola missionária, com suas filas e seus livros didáticos. Ele não sabia, naquela manhã de verão de 1934, que demoraria quase sessenta anos para voltar a Mvezo como um homem livre. E não podia prever que, quando voltasse, em 1994, já eleito presidente da África do Sul, o gado ainda estaria lá, o rio ainda correria, e as crianças da aldeia ainda seriam batizadas com nomes ingleses por professores que não falavam isiXhosa em casa. A diferença é que agora Nelson Rolihlahla Mandela, tinha o poder de, com sua própria vida, que Mvezo não era apenas um ponto no mapa, mas uma maneira de ser humano que o colonialismo nunca conseguiu extirpar.


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