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Corrida pelas terras raras ameaça mananciais e nascentes no sul de Minas Gerais

Projetos de mineração de terras raras conduzidos por empresas australianas em Poços de Caldas, Caldas e Andradas avançam sobre áreas ligadas à recarga hídrica do sul de Minas Gerais. Pesquisadoras e organizações locais alertam para riscos de rebaixamento do lençol freático, contaminação de recursos hídricos, uso intensivo de água e impactos associados ao beneficiamento químico do minério. O debate ocorre em meio à disputa internacional por minerais utilizados nos setores tecnológico, energético e militar, impulsionada pela busca de fornecedores alternativos à China por parte de potências ocidentais.


Terras raras no Brasil | ARQUIVO
Terras raras no Brasil | ARQUIVO

Poços de Caldas, município do sul de Minas Gerais com cerca de 170 mil habitantes, construiu sua formação econômica, urbana e cultural em torno de suas águas termais. As fontes são utilizadas desde o final do século XVIII e permanecem associadas ao turismo e ao abastecimento hídrico da região. Segundo a arquiteta e urbanista Nathália Francisco, pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a relação entre a cidade e seus recursos hídricos constitui um elemento central da história local.


“As águas termais foram fundamentais para a ocupação da região, para o desenvolvimento do turismo e para a consolidação da cidade”, afirmou.


A preocupação apresentada por pesquisadores está ligada aos projetos Caldeira, da empresa australiana Meteoric Resources, e Colossus, da australiana Viridis Mining & Minerals. Ambos pretendem explorar depósitos de Elementos de Terras Raras (ETRs) existentes sobre o Complexo Alcalino de Poços de Caldas, uma formação geológica originada por eventos vulcânicos ocorridos entre 60 milhões e 80 milhões de anos atrás durante o processo de separação entre a África e a América do Sul.


Os Elementos de Terras Raras correspondem a um grupo de 17 elementos químicos utilizados na fabricação de componentes para equipamentos eletrônicos, sistemas de geração de energia, veículos elétricos, equipamentos industriais e aplicações militares. A crescente demanda global por esses minerais intensificou a disputa internacional pelo controle das reservas disponíveis.


Atualmente, a China domina a cadeia global de processamento e beneficiamento desses materiais, respondendo por mais de 90% da produção mundial de superímãs. Diante dessa concentração produtiva, Estados Unidos e União Europeia passaram a tratar o acesso aos minerais de terras raras como tema vinculado à segurança nacional, ampliando esforços para desenvolver novas fontes de fornecimento. Nesse contexto, o Brasil passou a ocupar posição estratégica por possuir a segunda maior reserva conhecida desses elementos.


Segundo Nathália Francisco, a ocorrência de terras raras em argilas de adsorção iônica torna a região de Poços de Caldas uma área de interesse econômico para o setor mineral.


“Isso traz algumas vantagens operacionais, dispensando desmontes profundos com explosivos ou processos complexos de britagem e moagem. Por outro lado, essa aparente vantagem esconde desafios importantes. Como a concentração de terras raras é relativamente baixa, grandes volumes de solo precisam ser movimentados para obtenção de quantidades economicamente viáveis dos elementos de interesse”, explicou.

O Projeto Colossus prevê a movimentação de aproximadamente 5 milhões de toneladas de solo por ano. Como os depósitos minerais encontram-se em camadas superficiais, com profundidade média de 40 metros, pesquisadores apontam que a extração exigirá remoção de grandes áreas de cobertura vegetal e de solo, alterando o funcionamento hidrológico da região.


A geóloga e analista ambiental Ângela Santos afirma que a retirada dessas camadas poderá provocar rebaixamento do lençol freático, responsável pela manutenção de nascentes e pela alimentação dos cursos d'água durante períodos de estiagem.


“Perder as áreas de infiltração com a remoção de solo, subsolo e rebaixamento do lençol freático é muito negativo para o equilíbrio hídrico e, consequentemente, ao equilíbrio de todo o ecossistema da região”, declarou.


A preocupação torna-se mais intensa porque a área pretendida para implantação da mina coincide com parte da Bacia Hidrográfica Vargens de Caldas. Estudos técnicos e acadêmicos identificam essa região como uma das principais áreas de infiltração de águas pluviais e de recarga dos aquíferos que abastecem o município.


Segundo Francisco, a discussão ultrapassa o volume de água que será utilizado diretamente pela atividade minerária. Os estudos do empreendimento estimam consumo de aproximadamente 3 milhões de litros de água por dia durante a fase operacional.


“Isso significa que a discussão não envolve apenas a quantidade de água que será captada pelo empreendimento, estimada em cerca de 3 milhões de litros por dia durante a operação. Existe também a preocupação com a perda de capacidade natural de infiltração provocada pela supressão vegetal, pela movimentação intensa de solo e pela implantação de estruturas permanentes sobre uma área considerada estratégica para a recarga hídrica”, afirmou.

A pesquisadora aponta que Poços de Caldas já registra dificuldades de abastecimento durante períodos de estiagem. Segundo ela, estudos sobre disponibilidade hídrica indicam crescimento contínuo da demanda provocado pela expansão urbana e populacional.


A localização do Projeto Colossus também é motivo de questionamentos. De acordo com Francisco, uma das cavas previstas encontra-se a menos de 300 metros de áreas residenciais. Hospitais, escolas, creches e centros de atendimento para idosos estariam localizados a menos de 500 metros da área de mineração.


“Uma das áreas de cava do Colossus se encontra a menos de 300 metros de distância das moradias das famílias, além de hospitais, escolas, creches e centros de atendimento a idosos, a menos de 500 metros de distância do empreendimento”, afirmou.


Ângela Santos acrescenta que a área de influência direta do projeto inclui bairros situados na zona sul da bacia hidrográfica, onde vivem cerca de 60 mil habitantes. Além das cavas de mineração, a região deverá receber estruturas destinadas ao tratamento inicial dos minerais extraídos.


Pesquisadores também apontam impactos associados ao aumento da circulação de caminhões e máquinas pesadas, emissão de poeira, ruído, vibrações, iluminação artificial e transformação permanente da paisagem.


Outro aspecto citado por Francisco envolve os efeitos sociais decorrentes da instalação de um complexo minerário próximo a áreas urbanizadas.


“A simples perspectiva de convivência com um empreendimento industrial de grande porte altera a rotina das comunidades, gera insegurança sobre a qualidade da água, do ar, o futuro dos bairros e o valor dos imóveis. Estudos sobre conflitos ambientais mostram que essas situações podem aumentar quadros de ansiedade, estresse e sofrimento psicossocial, ampliando inclusive a demanda pelos serviços públicos de saúde”, declarou.

Além da extração mineral, pesquisadores apontam preocupações relacionadas ao beneficiamento químico das terras raras. Como os elementos possuem concentração inferior a 2% nas argilas exploradas, torna-se necessário processar grandes volumes de material para obtenção de quantidades comercialmente aproveitáveis.


Segundo a documentação dos projetos, o processo envolve etapas de lixiviação com utilização de sulfato de amônio e ácido sulfúrico. A utilização desses reagentes amplia a necessidade de monitoramento de efluentes, águas subterrâneas e águas superficiais.


“O principal desafio ambiental deixa de ser apenas a cava e passa a envolver também o comportamento hidrogeoquímico dos materiais movimentados, a gestão de efluentes, o controle de substâncias químicas e o monitoramento permanente das águas superficiais e subterrâneas”, observou Francisco.


Outro ponto destacado pelas pesquisas envolve a presença natural de elementos radioativos associados aos depósitos minerais, especialmente tório e urânio. Segundo a pesquisadora da UFMG, experiências internacionais mostram que empreendimentos dessa natureza exigem caracterização radiológica e monitoramento durante toda a operação.


“Isso ocorre porque a discussão sobre radioatividade não se limita à presença natural desses elementos no solo. Um dos principais desafios está justamente no fato de que os processos de mineração e beneficiamento podem alterar a distribuição, a concentração, a mobilidade e as formas de exposição aos radionuclídeos naturalmente presentes no minério”, afirmou.

Francisco observa que não existe comprovação de risco radiológico relevante no empreendimento, mas destaca que também não foram realizados testes em escala capazes de avaliar todas as etapas do processo produtivo.


Os impactos projetados não se limitam a Poços de Caldas. Municípios vizinhos, como Caldas e Andradas, localizados sobre a mesma formação geológica, também poderão ser afetados pelas atividades de mineração.


O Projeto Caldeira, da Meteoric Resources, ocupa área de 193 quilômetros quadrados e afirma possuir mais de 1,5 bilhão de toneladas de recursos minerais. Em dezembro de 2025, a empresa inaugurou uma planta-piloto com capacidade para processar 25 quilos de argila iônica por hora.


O Projeto Colossus possui investimento estimado em US$ 360 milhões. Segundo informações divulgadas pelo governo de Minas Gerais, a área relacionada ao empreendimento abrange cerca de 15 mil hectares.


O Projeto Caldeira encontra-se em fase de obtenção da Licença de Instalação, etapa intermediária do licenciamento ambiental trifásico. Já o Projeto Colossus protocolou em maio de 2026 seu pedido de Licença de Instalação.


Ao comentar o avanço desses projetos, Ângela Santos questionou a prioridade atribuída à exportação de minerais diante dos desafios relacionados à segurança hídrica.


Para a pesquisadora, a discussão envolve a escolha entre proteger recursos estratégicos para abastecimento humano ou ampliar a oferta de matérias-primas destinadas às cadeias globais de produção de commodities minerais.


Procurada pelo Brasil de Fato MG, a Meteoric Resources declarou que os estudos hidrogeológicos apresentados no processo de licenciamento indicam viabilidade operacional baseada em recirculação de água, gestão hídrica estruturada e monitoramento contínuo. A empresa também afirmou que utiliza processos hidrometalúrgicos empregados em operações internacionais e informou que recebeu dispensa preliminar de licenciamento radiológico por parte da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).


A Viridis Mining & Minerals não respondeu aos questionamentos encaminhados pelo Brasil de Fato MG até a publicação da reportagem.

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