Nigéria sangra sob violência difusa e retórica intervencionista
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A violência generalizada na Nigéria atingiu patamar nacional e alimenta uma das maiores crises humanitárias da África, segundo a ONU. Em 25 de dezembro de 2025, o governo estadunidense ordenou ataques aéreos no norte do país sob o argumento de proteger comunidades cristãs. A ação recolocou no debate internacional a tese de um suposto “genocídio cristão” difundida por autoridades em Washington. Dados das Nações Unidas indicam, porém, que a violência não é sectária e atinge populações muçulmanas e cristãs de forma indiscriminada. O resultado é um país com cerca de 3,5 milhões de deslocados internos e necessidades humanitárias crescentes, enquanto o financiamento internacional despenca.

Em entrevista à ONU News, Mohamed Malik Fall, coordenador residente e humanitário das Nações Unidas na Nigéria, afirmou que a insegurança “não pode mais ser associada a uma única região”. “Ela está presente em quase todos os lugares”, declarou, ao descrever a expansão da violência do nordeste para o noroeste, o centro e áreas produtoras de petróleo. A crise teve início em 2009, com a insurgência do Boko Haram no nordeste, posteriormente fragmentada com o surgimento de facções como o Estado Islâmico da África Ocidental.
Quase duas décadas depois, mais de dois milhões de pessoas seguem deslocadas apenas no nordeste, muitas há anos. “Uma geração inteira cresceu em campos de deslocados, sem conhecer outra realidade”, disse Fall. Desde o início da insurgência, mais de 40 mil pessoas foram mortas, milhares de escolas e centros de saúde foram destruídos e extensas áreas agrícolas tornaram-se inacessíveis, aprofundando a desestruturação econômica e social.
No noroeste, estados como Zamfara, Katsina e Sokoto enfrentam a atuação de grupos armados envolvidos em sequestros em massa e extorsões, fenômeno que deslocou cerca de um milhão de pessoas, segundo estimativas das Nações Unidas. Na região central, disputas por terra entre agricultores e pastores, agravadas por degradação ambiental e pressão climática, geram novos fluxos de deslocamento. Em outras áreas, ações separatistas e ataques ligados à exploração de petróleo seguem desestabilizando comunidades inteiras.
Os recentes sequestros de mais de 160 fiéis durante cultos no estado de Kaduna, em janeiro de 2026, e ataques a vilarejos e estudantes próximos a Papiri reacenderam a narrativa de perseguição religiosa. Esse discurso foi usado para justificar os ataques aéreos ordenados pelo governo estadunidense no dia de Natal. A ONU rejeita essa caracterização.
“Atribuir essa violência à perseguição direcionada a um grupo religioso – eu não daria esse passo”, afirmou Fall, lembrando que a maioria das mais de 40 mil vítimas da insurgência é muçulmana e que ataques ocorreram inclusive em mesquitas, como em Maiduguri, na véspera de Natal.
Por trás da violência, a emergência humanitária cresce em escala. Apenas no nordeste, 7,2 milhões de pessoas necessitam de assistência, quase seis milhões em situação grave ou crítica, segundo dados da ONU. Projeções indicam que até 36 milhões de nigerianos podem enfrentar insegurança alimentar nos próximos meses, enquanto mais de 3,5 milhões de crianças menores de cinco anos correm risco de desnutrição aguda.
Apesar disso, o financiamento internacional encolheu drasticamente. De quase US$ 1 bilhão anuais em anos anteriores, o plano humanitário da Nigéria arrecadou US$ 585 milhões em 2024 e apenas US$ 262 milhões em 2025, conforme informou Fall. “Este ano, nem sequer temos certeza se alcançaremos US$ 200 milhões”, disse, destacando que a queda coincide com a priorização de outras crises globais.
Para a ONU, a situação expõe um paradoxo estrutural: a maior economia da África enfrentando uma crise humanitária típica de países devastados por guerras prolongadas. “Este é um país com recursos”, afirmou Fall, ressaltando que a responsabilidade principal cabe ao governo nigeriano. A insistência em soluções militares externas, impulsionadas por interesses e narrativas estadunidenses, pouco altera as causas profundas da violência e da miséria que hoje atingem milhões de pessoas no país.









































