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Rafah reabre como encenação e mantém Gaza isolada

A passagem de Rafah, entre a Faixa de Gaza e o Egito, foi reaberta de forma experimental na madrugada de 1º de fevereiro de 2026, após mais de um ano e meio de fechamento quase total imposto por Israel. A medida, anunciada em meio à segunda fase do cessar-fogo, não permitiu a saída efetiva de pacientes nem a circulação regular de pessoas ou mercadorias. Autoridades confirmaram que a operação é limitada a testes técnicos e administrativos, sem impacto humanitário imediato. O resultado prático é a manutenção de dezenas de milhares de palestinos presos em Gaza, muitos deles feridos ou com doenças graves.


Passagem de Rafah, entre Faixa de Gaza e Egito
Passagem de Rafah, entre Faixa de Gaza e Egito

Segundo informações publicadas pelo The New Arab (TNA), a reabertura parcial ocorreu após meses de apelos de organizações humanitárias, mas permanece “em grande parte simbólica”, sem autorização para transferência de mercadorias ou saída confirmada de viajantes e pacientes. Fontes palestinas ouvidas pelo veículo afirmaram que a iniciativa está vinculada a entendimentos frágeis do cessar-fogo, e não a uma resposta efetiva à catástrofe humanitária em Gaza.


Shadi Othman, assessor de imprensa do escritório da União Europeia em Jerusalém, declarou ao TNA que a medida integra um “teste para avaliar a prontidão operacional” da travessia. Segundo ele, o processo ocorre em coordenação com a Missão de Assistência Fronteiriça da União Europeia (EUBAM) e autoridades egípcias. “O mandato da missão europeia limita-se a monitorizar o cumprimento das normas e procedimentos acordados, sem intervir na gestão da passagem”, afirmou, citando o Acordo de 2005 sobre a Circulação e o Acesso, que rege a presença europeia em Rafah.


Autoridades israelenses confirmaram o caráter restrito da ação. O Coordenador das Atividades Governamentais nos Territórios (COGAT) informou que a passagem foi aberta “em conformidade com o acordo de cessar-fogo e as diretrizes da liderança política”, com circulação limitada de pessoas e sem previsão de operação plena. O comunicado descreveu a iniciativa como uma “fase experimental inicial”, realizada em coordenação com a EUBAM, para eventual ampliação futura.


Gaza. 2025. @Mahmoudhamda
Gaza. 2025. @Mahmoudhamda

Fontes palestinas, no entanto, relataram ao TNA que a reabertura tem servido apenas para simular procedimentos e testar mecanismos administrativos. Apesar da presença de uma delegação conjunta palestina-egípcia-europeia na fronteira desde a manhã de domingo, não houve qualquer movimentação efetiva de viajantes ou pacientes até o final do dia. Para a população local, a operação não representou alívio concreto das restrições impostas ao enclave.


O impacto humano é imediato e mensurável. Mais de 25 mil feridos, além de milhares de pessoas com doenças crônicas ou graves, necessitam urgentemente de tratamento fora de Gaza, segundo fonte do Ministério da Saúde local ouvida pelo TNA. “Qualquer fechamento prolongado ou abertura apenas parcial de Rafah resultará inevitavelmente em mortes evitáveis”, alertou a fonte, destacando o colapso do sistema de saúde após mais de um ano de genocídio, escassez extrema de medicamentos, falta de combustível e fechamento de hospitais.


Mohammed Khalil Abu Awda, de 27 anos, morador do bairro de Shuja'iyya, na cidade de Gaza, relatou estar aguardando há meses autorização para sair. Ferido por estilhaços de um ataque israelense em novembro, ele ficou parcialmente paralisado. “Se eu não puder viajar em breve, temo que ficarei permanentemente incapacitado”, disse, após médicos confirmarem que a cirurgia e a reabilitação necessárias não existem mais no território sitiado.


No plano político, Mustafa Ibrahim, analista palestino baseado em Gaza, afirmou ao TNA que Rafah continua sendo tratada como instrumento de barganha. “Rafah ainda está sendo tratada como uma ferramenta política e de segurança, não como uma necessidade humanitária”, declarou. Para ele, apenas a abertura plena, regular e respaldada por garantias internacionais claras poderia iniciar uma resposta real ao desastre imposto à população.


Única passagem de Gaza para o exterior que não está sob controle direto de Israel, Rafah tornou-se símbolo do isolamento estrutural imposto aos palestinos. A reabertura limitada de fevereiro de 2026, longe de representar esperança, reforça a lógica de gestão do sofrimento: mantém-se a aparência de normalidade enquanto o cerco segue produzindo mortes evitáveis e aprofundando a devastação humana.

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