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  • Bahrein revogou cidadania de 69 pessoas em punição coletiva por supostos apoio ao Irã

    O governo do Bahrein revogou a cidadania de 69 pessoas e de seus familiares após manifestações de apoio às operações militares iranianas contra alvos dos Estados Unidos e de Israel. A decisão foi anunciada em 28 de abril de 2026 pelo Ministério do Interior do reino do Golfo. As autoridades alegam que os atingidos “minaram a segurança nacional” por meio de publicações em redes sociais. A medida ocorre em meio à escalada da ofensiva militar liderada pelos Estados Unidos contra o Irã iniciada em 28 de fevereiro. Organizações de oposição classificaram a decisão como punição coletiva e denunciaram repressão sistemática no país. 69 indivíduos tiveram a cidadania revogada por expressarem apoio aos ataques de retaliação do Irã - ©HISPANTV Segundo o comunicado oficial, os indivíduos tiveram a cidadania revogada por “expressarem apoio aos ataques de retaliação do Irã” e por “glorificarem” movimentos de resistência regional em plataformas digitais. O governo afirma que essas ações “criaram instabilidade e puseram em risco a ordem pública”, justificando a retirada de direitos civis básicos como medida de segurança. A decisão amplia um padrão de repressão política historicamente associado à monarquia Al Khalifa, que governa o Bahrein e mantém estreita aliança com a presença militar estadunidense no Golfo Pérsico, incluindo a base da Quinta Frota. A medida ocorre após ataques iranianos direcionados a instalações militares utilizadas pelos Estados Unidos como ponto de partida para operações contra a República Islâmica, no contexto da escalada militar regional. O movimento de oposição Al-Wefaq reagiu imediatamente, classificando a decisão como “injusta, desumana e sem acusações específicas”. Em nota, a organização declarou que a revogação de cidadania “constitui uma forma de punição coletiva” e denunciou que familiares inteiros foram atingidos. “O regime do Bahrein retirou a cidadania de crianças, recém-nascidos e mulheres sob o pretexto de seu parentesco com os pais, apagando virtualmente famílias inteiras dos registros civis. Isso equivale a uma espécie de execução moral e civil”, afirmou o grupo. A medida não ocorre isoladamente. No mês anterior, grupos de oposição denunciaram a morte sob tortura do jovem Seyed Mohamad al-Musawi, enquanto estava sob custódia das autoridades do Bahrein. Segundo essas denúncias, ele teria sido pressionado a confessar vínculos com o Irã. O caso gerou indignação interna e levou figuras da oposição, como Sheikh Hussein al-Daihi, vice-secretário-geral da Al-Wefaq, a condenar publicamente o episódio. Desde o início da ofensiva militar liderada pelos Estados Unidos contra o Irã, o aparato de segurança do Bahrein intensificou a repressão interna. Jovens manifestantes passaram a ser detidos sob acusações de espionagem, frequentemente sem provas públicas. Fontes familiarizadas com a situação indicam que cerca de 200 pessoas foram sequestradas pelas autoridades sob alegações semelhantes desde o início da escalada militar. O governo do Bahrein tem adotado a postura mais agressiva entre os países do Conselho de Cooperação do Golfo contra Teerã, alinhando-se diretamente à estratégia militar estadunidense na região. Autoridades locais classificaram as operações iranianas com mísseis e drones contra instalações utilizadas pelos Estados Unidos no país como violações de soberania, apesar de o próprio território ser utilizado como plataforma para ataques contra o Irã. Teerã havia declarado anteriormente que qualquer território utilizado para lançar ofensivas contra a República Islâmica seria considerado alvo legítimo. Com base nesse princípio, forças iranianas realizaram ataques contra instalações militares no Golfo Pérsico, incluindo áreas associadas à presença estadunidense no Bahrein. Em março de 2026, o Irã apresentou um protesto formal às Nações Unidas contra o uso do espaço aéreo e territorial de países vizinhos pelos Estados Unidos para conduzir operações militares. A denúncia destacou o papel de governos aliados na facilitação da ofensiva e reforçou a posição iraniana de que tais territórios se tornam parte ativa do teatro de operações militares.

  • Estudo destaca aumento de ataques digitais a mulheres negras

    Mulheres negras no Brasil enfrentam violência digital sistemática independentemente de idade, profissão ou posição social, segundo pesquisa divulgada em 26 de abril de 2026. O estudo do Instituto Minas Programam analisou experiências entre abril de 2024 e março de 2025. A investigação revela que ataques virtuais combinam racismo, misoginia e deslegitimação intelectual. Casos documentados mostram impactos diretos na vida profissional, política e psicológica das vítimas. Os dados foram publicados pela agência Alma Preta com base na pesquisa “Cavando nossos espaços”. Mulheres negras no Brasil enfrentam violência digital sistemática independentemente de idade, profissão ou posição social O levantamento reúne relatos detalhados de mulheres negras que sofreram violência de gênero facilitada pelas tecnologias, conhecida pela sigla VGFT. Entre os casos está o de Beatriz, 50 anos, professora substituta em uma universidade pública, que foi alvo de campanhas de difamação organizadas por estudantes em redes sociais. As agressões incluíam ataques à sua atuação profissional e conteúdos racistas e misóginos. “Diziam que eu era muito rígida e que, em vez de dar tarefas difíceis para eles fazerem, eu precisava de um homem que tomasse conta de mim. E as pessoas curtiam esses comentários”, relatou. Além da exposição pública, Beatriz recebeu ameaças diretas, o que levou a uma resposta institucional da universidade considerada insuficiente. Segundo o relato, houve reconhecimento apenas superficial das dimensões de racismo, misoginia e homofobia presentes nos ataques, evidenciando a incapacidade das instituições em lidar com a violência digital estruturada. Outro caso analisado é o de Michelle, 34 anos, que passou a sofrer ataques em 2019 após liderar a criação de uma biblioteca comunitária nomeada em homenagem a Marielle Franco. Os conteúdos ofensivos questionavam sua autoridade e capacidade, utilizando termos como “mulherzinha” e colocando em dúvida sua legitimidade para conduzir iniciativas de acesso ao conhecimento. As mensagens buscavam desqualificá-la como liderança comunitária, reproduzindo padrões históricos de exclusão racial e de gênero. A pesquisa também documenta o caso de Maria, 30 anos, mulher negra nordestina que pretendia disputar eleições municipais em 2018. Durante sua atuação política, passou a receber ligações anônimas com descrições detalhadas de sua localização, caracterizando vigilância e intimidação. O episódio levou à desistência de sua candidatura. “Depois desse primeiro contato, percebi que as redes sociais tinham um papel muito importante. Mas também me senti desmotivada para ser influenciadora. Abandonei totalmente o papel de influenciadora política”, afirmou. Os dados indicam que a violência digital não se restringe a figuras públicas, atingindo mulheres negras em diferentes contextos, como universidades, empresas, espaços comunitários e ambientes políticos. A diretora do Minas Programam, Bárbara Paes, afirmou: “Não é necessário ser uma figura pública para receber ataques, basta ser uma mulher negra que se posicione”. Segundo ela, o estudo identificou exclusão sistemática dessas mulheres de espaços como bibliotecas, universidades e áreas de ciência e tecnologia, além da negação de seu reconhecimento como produtoras de conhecimento. A pesquisa qualitativa entrevistou 12 mulheres negras brasileiras, incluindo escritoras, políticas, profissionais de tecnologia, estudantes, artistas e jornalistas, todas envolvidas em ativismo social ou digital. O estudo aponta que, ao ocuparem espaços públicos e expressarem opiniões políticas, essas mulheres são tratadas como ameaças às hierarquias sociais estabelecidas no país. De acordo com a pesquisadora Ester Borges, as agressões digitais reproduzem narrativas que buscam deslegitimar mulheres negras como intelectuais e líderes. “Observamos que qualquer mulher negra está sujeita a esse tipo de ataque, já que a VGFT busca com frequência reproduzir e amplificar narrativas de que essas mulheres são inadequadas ao debate público”, declarou. A dimensão do problema é reforçada por dados anteriores. Pesquisa do sociólogo Luiz Valério de Paula Trindade apontou que, em 2022, mulheres negras entre 20 e 35 anos representaram 81% das vítimas de discurso racista na plataforma Facebook no Brasil. O dado evidencia a centralidade das redes sociais como instrumentos de reprodução de desigualdades estruturais. O estudo também analisa os efeitos dessas violências, destacando impactos na liberdade de expressão, com casos de autocensura, abandono de atividades públicas e retração política. As consequências incluem danos psicológicos persistentes e barreiras ao desenvolvimento profissional e ao engajamento em movimentos sociais. Apesar do cenário, a pesquisa identifica estratégias de resistência coletiva. Mulheres negras têm criado redes de apoio, coletivos e espaços digitais próprios para enfrentar a violência e reconstruir suas trajetórias. A diretora Bárbara Paes afirmou: “As participantes da pesquisa se recusaram a ficar silenciadas. São histórias de reconstrução coletiva”. Um dos exemplos é o de Mariane, 27 anos, maquiadora e líder comunitária, que abandonou redes sociais após sofrer ataques racistas, misóginos e gordofóbicos. O processo de recuperação começou por meio da articulação com uma vizinha e da integração a um coletivo feminista negro, onde encontrou suporte e compreensão sobre a violência sofrida. A estudante Letícia, 24 anos, que enfrentou agressão física e campanhas de difamação online, relatou a importância da coletividade para permanecer ativa nos espaços digitais. “Por mais que esse espaço seja hostil, estou disposta a construir algo mais acolhedor para nós. […] É um lugar onde eu fui vítima de violência. […] Mas é um lugar onde eu vou ficar, porque é uma arena de disputa política”, afirmou. O Instituto Minas Programam, responsável pela pesquisa, foi criado em 2015 com o objetivo de enfrentar desigualdades de gênero e raça nas áreas de ciência e tecnologia. A organização oferece cursos, oficinas e treinamentos gratuitos voltados principalmente para mulheres negras e indígenas, buscando ampliar o acesso e a permanência nesses campos.

  • OTAN considera acabar com cúpulas anuais após desgaste com Trump

    A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) discute internamente reduzir ou até suspender suas cúpulas anuais em meio a tensões com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A informação foi divulgada em 27 de abril de 2026 pela agência Reuters, com base em seis fontes diplomáticas da aliança. A medida surge após sucessivas críticas do governo estadunidense aos demais membros do bloco militar. Entre os pontos de atrito estão disputas sobre gastos militares e o apoio às operações lideradas por Washington contra o Irã. O debate ocorre às vésperas da cúpula marcada para 7 e 8 de julho de 2026, em Ancara, capital da Turquia. Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) - ©CSIS Segundo as fontes ouvidas pela Reuters, representantes de países membros defendem a redução da frequência dos encontros, propondo que as cúpulas passem a ocorrer a cada dois anos ou até mesmo que sejam suspensas em determinados períodos. Um diplomata afirmou que a reunião prevista para 2027, na Albânia, pode ser transferida para o outono europeu, enquanto outra possibilidade considerada é não realizar qualquer cúpula em 2028, ano das eleições presidenciais estadunidenses e último ano completo de mandato de Trump. A decisão final caberá ao secretário-geral da OTAN, Mark Rutte. A frequência das cúpulas variou ao longo dos 77 anos da aliança, mas desde 2021 os encontros vêm sendo realizados anualmente, sempre no verão do hemisfério norte. O atual movimento para desacelerar esse ritmo reflete não apenas tensões políticas imediatas, mas também críticas internas sobre a utilidade desses eventos. Um diplomata declarou à Reuters: “Melhor ter menos cúpulas do que cúpulas ruins”, acrescentando que a aliança já possui tarefas definidas independentemente desses encontros. Outro fator central é a crescente pressão exercida pelo governo estadunidense sobre seus aliados europeus. Trump tem reiterado exigências para que os membros ampliem significativamente seus gastos militares, chegando a pressionar por um patamar de 5% do Produto Interno Bruto. Na cúpula realizada em Haia no ano anterior, os países aceitaram elevar os investimentos para 3,5% em defesa direta e 1,5% em áreas relacionadas à segurança, numa tentativa de atender parcialmente às demandas de Washington. O simples fato de o encontro ter terminado sem rupturas foi considerado um êxito interno. As tensões se intensificaram após a condução unilateral de operações militares contra o Irã por parte do governo estadunidense, sem consulta prévia aos aliados da OTAN. Diante da recusa de apoio automático por parte de países europeus, Trump chegou a questionar publicamente o compromisso dos Estados Unidos com o princípio de defesa coletiva da aliança e declarou considerar a possibilidade de retirada do bloco. Meses antes, o presidente também havia reivindicado a Groenlândia, território autônomo da Dinamarca — país membro da OTAN — ampliando o desconforto diplomático. O histórico de confrontos não é recente. Na cúpula de 2018, Trump ameaçou abandonar as negociações em protesto contra o que classificou como baixos níveis de investimento militar dos aliados. Em suas memórias publicadas em 2025, o então secretário-geral Jens Stoltenberg relatou: “Se ele tivesse cumprido sua ameaça de sair em protesto, teríamos que lidar com as consequências de uma OTAN destruída”. A discussão sobre a redução das cúpulas também é defendida por setores ligados a centros de formulação estratégica no eixo euro-atlântico. Em artigo publicado no site do Atlantic Council, a pesquisadora Phyllis Berry afirmou que a diminuição desses encontros “permitiria à OTAN seguir com seu trabalho e reduzir o drama que tem marcado muitos encontros transatlânticos recentes”. Ela destacou ainda que, durante a Guerra Fria, a aliança realizou apenas oito cúpulas em várias décadas, contrastando com a frequência atual. Internamente, a avaliação de parte dos diplomatas é que a realização anual de cúpulas cria uma pressão artificial por resultados imediatos e anúncios midiáticos, desviando o foco de planejamentos estratégicos de longo prazo. Outro representante ouvido pela Reuters afirmou que “a qualidade das discussões e decisões é a verdadeira medida da força da aliança”. A cúpula de 2026, em Ancara, já é vista como potencialmente tensa diante do acúmulo de divergências políticas e estratégicas entre Washington e seus aliados europeus, especialmente no contexto das operações militares no Oriente Médio e das disputas sobre financiamento da máquina militar da OTAN.

  • O que está por trás do sequestro de 23 alunos em orfanato nigeriano

    Homens armados sequestraram ao menos 23 crianças em um orfanato na capital do estado de Kogi, na Nigéria. O ataque ocorreu na noite de domingo em uma instituição não registrada localizada em área isolada de Lokoja. Autoridades confirmaram o resgate de 15 vítimas, enquanto oito crianças permanecem desaparecidas. A ação foi atribuída a uma quadrilha ainda não identificada. O caso evidencia a escalada de sequestros em massa como prática recorrente de grupos armados no país. Foto: OLYMPIA DE MAISMONT/AFP via Getty Images De acordo com comunicado oficial divulgado na segunda-feira, 27 de abril de 2026, pelo Comissário de Informação de Kogi, Kingsley Fanwo, o grupo invadiu o chamado Dahallukitab Group of Schools, um orfanato que operava de forma irregular e fora do alcance das autoridades. “A resposta rápida e coordenada das agências de segurança levou ao resgate de 15 crianças”, afirmou Fanwo, acrescentando que operações continuam em curso para localizar as oito vítimas restantes e capturar os responsáveis. Além das crianças, a esposa do proprietário da instituição também foi sequestrada durante a ação. O governo estadual não divulgou a idade exata das vítimas, mas descreveu os sequestrados como “alunos”, termo que na Nigéria geralmente se refere a crianças em idade pré-escolar ou do ensino fundamental, podendo chegar até os 12 anos. O episódio se insere em um padrão consolidado de violência armada na Nigéria, onde sequestros coletivos se tornaram uma estratégia lucrativa para grupos criminosos e organizações armadas. A prática é especialmente comum em regiões rurais e periféricas, onde a presença estatal é limitada ou inexistente, criando condições para a atuação contínua dessas redes. A região Centro-Norte, onde se localiza o estado de Kogi, tem registrado aumento significativo de ataques nos últimos meses, incluindo invasões a escolas e comunidades civis. Em novembro, centenas de estudantes foram sequestrados em uma escola no estado vizinho de Níger, em um ataque atribuído por fontes de segurança ao grupo Boko Haram. A Nigéria enfrenta múltiplas frentes de instabilidade armada, que vão desde a insurgência prolongada do Boko Haram no nordeste até a atuação de gangues conhecidas localmente como “bandidos”, além de conflitos entre agricultores e pastores e movimentos separatistas no sudeste. No noroeste, o grupo Lakurawa, associado ao Estado Islâmico, também expande sua presença em áreas próximas à fronteira com o Níger. Nenhum grupo reivindicou oficialmente a autoria do sequestro em Kogi até o momento.

  • “Tenho que protegê-los': O homem que guarda os raros livros islâmicos da Mauritânia

    A cidade histórica de Chinguetti, na Mauritânia, enfrenta abandono populacional e degradação ambiental acelerada. O antigo centro intelectual islâmico mantém hoje poucas bibliotecas ativas, guardando milhares de manuscritos raros. Em 27 de abril de 2026, relatos locais destacam o esforço de famílias para preservar esse patrimônio sob condições extremas. A crise climática intensifica a desertificação e ameaça diretamente os acervos. O cenário expõe a combinação entre colapso ambiental e marginalização histórica de regiões periféricas do Saara. @helenattrill Localizada na região de Adrar, no norte da Mauritânia, Chinguetti foi entre os séculos XIII e XVII um dos principais polos de conhecimento do mundo muçulmano, atraindo estudiosos e comerciantes ao longo das rotas transsaarianas. Hoje, a cidade antiga - construída com pedra seca e barro vermelho - encontra-se esvaziada, enquanto a maior parte dos cerca de 4.500 habitantes migrou para áreas periféricas em busca de sobrevivência econômica. Entre os poucos que permanecem está Muhammad Gholam el-Habot, bibliotecário responsável por cerca de 1.400 manuscritos herdados de sua família. Em sua rotina, ele manuseia cuidadosamente obras raras, algumas com séculos de idade. “Estes livros são muito importantes para mim e para a minha família”, afirmou. “Minha relação com eles é como a de um pai com seu filho.” Os manuscritos remontam a uma tradição intelectual consolidada por estudiosos como Sidi Mohamed Ould Habot, que viajou entre o Egito e a Andaluzia entre os séculos XVIII e XIX reunindo textos sobre jurisprudência islâmica, hadiths, matemática, medicina e poesia. No auge, Chinguetti chegou a abrigar cerca de 30 bibliotecas abertas a estudiosos de diferentes regiões, consolidando sua reputação como centro de saber - conhecida como “Sorbonne do Saara” e considerada a sétima cidade mais sagrada do Islã. O declínio começou com a mudança das rotas comerciais globais, quando o eixo econômico foi deslocado para o comércio marítimo impulsionado pela expansão europeia. A perda de centralidade econômica levou ao abandono gradual da cidade, processo agravado nas últimas décadas pela ausência de investimentos estruturais e pela falta de políticas de preservação cultural consistentes. A crise climática intensifica esse quadro. Segundo dados citados por pesquisadores, a precipitação anual na Mauritânia caiu cerca de 35% desde 1970, comprometendo atividades tradicionais como o pastoreio e a agricultura de subsistência. Ao mesmo tempo, tempestades de areia e variações extremas de temperatura tornaram-se mais frequentes, com períodos prolongados acima de 40°C. De acordo com Andrew Bishop, pesquisador da Universidade de Wyoming, essas condições representam “um grande problema” para a preservação dos manuscritos. “O calor extremo e os padrões de chuva menos previsíveis fazem com que os textos sejam cada vez mais danificados pela água ou pelo calor, tornando muitos manuscritos irrecuperáveis”, afirmou. Ele também destacou que as bibliotecas tradicionais não foram projetadas para enfrentar mudanças climáticas tão intensas. Além das ameaças ambientais, a preservação enfrenta limitações materiais. El-Habot relata dificuldades financeiras para manter os livros, incluindo a necessidade de produtos químicos contra insetos e estruturas adequadas de armazenamento. Em períodos de calor extremo, ele improvisa métodos como colocar baldes de água para aumentar a umidade do ambiente e evitar o ressecamento das páginas. As inundações repentinas também representam risco crescente. A combinação entre chuvas irregulares e infraestrutura precária expõe os manuscritos a danos irreversíveis. Paralelamente, a redução do turismo - agravada por ataques a estrangeiros nos anos 2000 e pela pandemia de COVID-19 - diminuiu uma das poucas fontes de renda local. Iniciativas internacionais tentam conter o declínio. Em 2024, um projeto da UNESCO, no valor de 100 mil dólares, forneceu equipamentos como ar-condicionado, computadores e materiais de armazenamento para 13 bibliotecas familiares. Ainda assim, grande parte das bibliotecas permanece fechada, com acervos dispersos entre descendentes. A continuidade dessa tradição também enfrenta um desafio geracional. El-Habot afirma que seus filhos não demonstram interesse em assumir a responsabilidade pela biblioteca. “É algo que temos que fazer; é uma obrigação familiar”, disse. A falta de perspectivas econômicas e educacionais na região impulsiona a migração de jovens para a capital Nouakchott e outros centros urbanos. Nos arredores da cidade, as ruínas de Abweir - assentamento fundado por volta de 777 d.C. e considerado precursor de Chinguetti - já foram completamente engolidas pela areia, evidenciando o avanço do deserto. A própria cidade atual corre risco semelhante a longo prazo, com estimativas de que uma área de cerca de 500 quilômetros quadrados possa ser soterrada pelas dunas. Dentro da biblioteca, el-Habot continua seu trabalho diário, revisando páginas que retratam fenômenos astronômicos e cidades sagradas como Meca e Medina. “Tenho que proteger esse patrimônio”, afirmou. “Como meu, e também para toda a humanidade.”

  • Autoridades chinesas barram acordo entre Meta e startup de IA Manus

    A China anunciou em 27 de abril de 2026 o bloqueio da aquisição da startup de inteligência artificial Manus por uma gigante tecnológica dos Estados Unidos. A decisão foi comunicada pela Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (NDRC). A medida ocorre em meio à escalada da disputa tecnológica entre Pequim e Washington. O governo chinês busca conter a transferência de conhecimento estratégico para empresas estrangeiras. O episódio expõe a intensificação da rivalidade geopolítica em torno da inteligência artificial. Xi Jinping ©Wang Ye I AP Segundo comunicado oficial, a NDRC proibiu a aquisição da Manus por empresas estrangeiras, sem mencionar diretamente a Meta, companhia sediada na Califórnia que havia anunciado a compra em dezembro de 2025. A startup, embora com raízes chinesas, opera atualmente a partir de Singapura e desenvolve agentes de inteligência artificial capazes de executar tarefas complexas com mínima intervenção humana. A decisão chinesa ocorre após meses de tensão crescente, impulsionada por medidas do governo estadunidense para restringir o acesso de empresas chinesas a semicondutores avançados e outras tecnologias críticas. Pequim, por sua vez, tem reagido tentando impedir que capital estrangeiro absorva talentos, propriedade intelectual e capacidades estratégicas desenvolvidas internamente. O bloqueio levanta dúvidas jurídicas sobre a capacidade da China de intervir em uma operação envolvendo uma empresa formalmente sediada fora de seu território. Ainda assim, a NDRC afirmou que a medida está em conformidade com leis e regulamentos nacionais, reforçando o controle estatal sobre fluxos de tecnologia sensível. A Meta declarou, em resposta, que “a transação cumpriu integralmente a legislação aplicável” e afirmou esperar uma solução para a investigação. Já a Casa Branca, sob o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reagiu por meio de nota afirmando que continuará defendendo o setor tecnológico estadunidense contra “interferências estrangeiras indevidas”. A aquisição da Manus era considerada um movimento estratégico incomum, no qual uma grande empresa estadunidense buscava incorporar uma companhia de inteligência artificial com fortes vínculos com a China. A expectativa da Meta era expandir suas capacidades em IA e integrar os sistemas da startup às suas plataformas globais. Antes mesmo do anúncio do bloqueio, a Manus havia passado por um processo de reestruturação corporativa. Após receber um aporte de US$ 75 milhões em maio de 2025, liderado pela empresa de capital de risco estadunidense Benchmark, a companhia encerrou suas operações na China, demitiu dezenas de funcionários e transferiu suas atividades para Singapura. A controladora Butterfly Effect também foi reincorporada fora do território chinês. Essa reorganização permitiu à empresa contornar tanto as restrições impostas pelos Estados Unidos a investimentos em tecnologia chinesa quanto as limitações chinesas à exportação de propriedade intelectual. A movimentação evidencia como empresas de tecnologia operam entre brechas regulatórias em um cenário global cada vez mais fragmentado por disputas estratégicas. A ofensiva de Pequim contra a aquisição ocorre semanas antes de um encontro previsto para meados de maio entre Donald Trump e o presidente chinês Xi Jinping em Pequim, indicando que a disputa pela liderança em inteligência artificial se tornou um dos eixos centrais da confrontação entre as duas maiores economias do mundo.

  • "Vamos refundar a SS”: Rede neonazista desmantelada em Roma

    A polícia italiana prendeu um jovem de 19 anos acusado de liderar uma rede neonazista ativa na internet. A operação foi conduzida pela DIGOS de Milão e resultou também em 14 buscas em diversas regiões do país. As investigações apontam para propaganda racista, incitação à violência e apologia ao genocídio do povo judeu. Parte das mensagens interceptadas inclui ameaças explícitas de assassinato e exaltação do nazismo. O caso revela a reorganização de grupos extremistas em ambientes digitais na Europa. Nazista | ARQUIVO A prisão ocorreu na cidade de Pavia, sob coordenação da Procuradoria de Milão, que acusa o jovem de promover e dirigir uma organização criminosa baseada na disseminação de ideologia neofascista e neonazista. Segundo os autos, o investigado administrava o chat denominado “Terceira Posição”, hospedado em uma plataforma de mensagens instantâneas e aberto à adesão pública, em referência direta a um grupo subversivo italiano dos anos 1970. O conteúdo monitorado pelas autoridades inclui mensagens como “Na minha opinião, só temos que esperar e um dia usaremos a cabeça de cada judeu como bola de futebol”, evidenciando incitação direta à violência racial. Apesar da gravidade das declarações, o caso também levanta questionamentos sobre o crescimento dessas redes em um contexto europeu marcado pela expansão de discursos ultranacionalistas e pela tolerância institucional a setores da extrema-direita. As investigações técnicas identificaram intensa atividade de propaganda extremista, incluindo glorificação de autores de ataques supremacistas, como Brenton Tarrant, responsável pelo massacre de Christchurch em março de 2019. Também foram encontrados conteúdos que fazem apologia ao Holocausto e promovem teorias conspiratórias antissemitas, além de material que mistura elementos neonazistas com referências ao jihadismo, caracterizando o que os investigadores chamaram de “hibridização ideológica”. Para ampliar o alcance da rede, o jovem criou canais adicionais, como o “Third Position TV Center”, e participou da elaboração de um documento intitulado “Manifesto da Terceira Posição”, com cinco pontos que incluíam diretrizes ideológicas e intenções subversivas. O material incentivava explicitamente a organização de células no mundo real, denominadas “Esquadrões de Ação Revolucionária”, com o objetivo de executar ações violentas alinhadas à ideologia do grupo. O mandado de prisão, assinado pela juíza Rossana Mongiardo, descreve um ambiente digital de doutrinação coletiva, no qual participantes compartilhavam e reforçavam discursos de ódio. Conversas analisadas mostram usuários defendendo propostas como uma nova “Marcha sobre Roma” e a ideia de “refundar a SS”, além da circulação de material de culto neonazista e supremacista branco. Entre os investigados estão também menores de idade. Um jovem de Treviso foi detido em investigação separada por incitação ao terrorismo e treinamento com fins terroristas. Outro grupo mencionado nas conversas, denominado “Artigo 52”, é investigado por agressões contra imigrantes em Milão e por danos à sede do partido Sinistra Italiana em Siracusa. As conversas analisadas pelo procurador Alessandro Gobbis revelam não apenas antissemitismo, mas também ataques a imigrantes e à população LGBTQIA+, além de elogios a Adolf Hitler e à supremacia branca. Em uma das mensagens, o líder do grupo afirma: “Vamos fazer tudo, tenho meus planos escritos, tenho todo o material, então não se preocupe... vamos começar a agir, mas não temos mais tempo a perder”. A investigação foi conduzida pela seção antiterrorismo da DIGOS de Milão, com apoio de unidades em Pavia e outras regiões, além da colaboração da Direção Central de Prevenção Policial. As buscas ocorreram em cidades como Roma, Cagliari, Turim, Perugia, Siena e Salerno, evidenciando a capilaridade da rede no território italiano.

  • Emirados Árabes usa narrativa antiterror para reprimir muçulmanos xiitas

    Os Emirados Árabes Unidos anunciaram a prisão de 27 pessoas sob acusação de integrar uma suposta organização ligada ao Irã. A operação foi divulgada em 27 de abril pela agência estatal WAM, que classificou o grupo como “terrorista”. No entanto, não foram apresentadas acusações formais de terrorismo contra os detidos. As imputações se concentram em termos genéricos como “ideias enganosas” e “ligações estrangeiras”. O episódio ocorre em meio à participação ativa dos Emirados na ofensiva militar apoiada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã. ARQUIVO A narrativa oficial apresentada por Abu Dhabi entra em contradição com os próprios dados divulgados pelo Estado. Embora manchetes falem em desmantelamento de uma célula terrorista, os detalhes publicados não incluem qualquer evidência concreta de atividade armada ou planejamento de ataques. As acusações listadas envolvem formação de organização secreta, vínculos externos e disseminação de ideias políticas, categorias amplamente utilizadas em legislações de segurança para criminalizar dissidência. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, rejeitou as detenções, classificando-as como “infundadas e sem base”. Até o momento, nenhuma prova pública foi apresentada que conecte os detidos ao Estado iraniano. Entre os presos estão figuras conhecidas da comunidade muçulmana xiita local, incluindo o clérigo Ghadeer Mirza Al-Rustam, vinculado à Fundação Jaafari em Dubai, e Seyed Sadiq Lari, ex-imã da Grande Mesquita na área de Zayed, em Abu Dhabi. Todos os detidos são cidadãos dos Emirados, da Arábia Saudita ou do Bahrein, sem qualquer iraniano entre eles. A suposta ligação com Teerã é baseada na adesão ao conceito religioso de Velayat-e Faqih, que diz respeito à autoridade de um jurista islâmico. No entanto, os xiitas emiratis seguem majoritariamente o aiatolá Ali al-Sistani, cuja doutrina não adota esse princípio, o que fragiliza ainda mais a acusação de vínculo político direto com o Irã. As prisões ocorrem em um contexto de crescente repressão interna. O país implementou leis de censura rígidas que criminalizam até mesmo o compartilhamento de vídeos de ataques iranianos em território emiradense. Entre março e abril de 2026, ao menos 375 pessoas foram detidas por violações dessas normas, muitas delas por simplesmente registrar ou encaminhar imagens de drones e mísseis atingindo alvos em Dubai e Abu Dhabi. Segundo Radha Stirling, CEO da organização Detained in Dubai, a legislação aplicada permite punições severas. “De acordo com as leis de segurança nacional, os indivíduos podem enfrentar: penas de prisão de 5 a 15 anos, ou potencialmente prisão perpétua; multas que chegam a aproximadamente US$ 500.000; prisão preventiva prolongada ou por tempo indeterminado; acesso restrito a advogados, embaixadas e provas; violações dos direitos humanos e tortura”, afirmou. Ela acrescentou que “as pessoas estão cada vez mais receosas de se comunicar, enviar mensagens, documentar eventos ou compartilhar informações”. A repressão se intensifica paralelamente à participação direta dos Emirados na ofensiva militar contra o Irã. O país foi o único Estado árabe a atuar diretamente ao lado de forças estadunidenses e israelenses, evidenciado pela queda de drones Wing Loong II emiradenses em território iraniano. Após o anúncio de um cessar-fogo temporário de duas semanas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Abu Dhabi pressionou pela continuidade das operações e participou de ataques, incluindo o bombardeio da refinaria de Lavan. Investigações independentes também apontam manipulação informacional. Um relatório da Bellingcat identificou episódios em que autoridades emiradenses minimizaram danos causados por ataques iranianos, distorceram dados sobre interceptações e omitiram reconhecimentos de impactos bem-sucedidos em seu território. Essas ações se inserem em uma disputa de narrativa paralela ao confronto militar. O histórico de repressão política em contextos de guerra não é novo no país. Em 2016, dois cidadãos estadunidenses de origem líbia foram presos em Dubai sob acusações de financiar grupos armados na Líbia e posteriormente absolvidos após dois anos de detenção. De acordo com informações da ONU e familiares, ambos foram submetidos a tortura durante o período de encarceramento. A atual onda de detenções também se estende a outros países do Golfo alinhados à estratégia regional. O Kuwait prendeu em 2 de março o jornalista americano-kuwaitiano Ahmed Shihab-Eldin por supostos crimes cibernéticos relacionados a publicações sobre a ofensiva contra o Irã. Em meados de março, o país alegou ter desmantelado uma “rede do Hezbollah” sem apresentar provas. Na Arábia Saudita, dois xiitas foram executados sob acusações de “terrorismo”, sendo que um deles havia sido detido aos 17 anos por participação em protestos.

  • Emprego formal de mulheres negras cresceu 29% em 2025

    O mercado formal brasileiro registrou aumento expressivo da presença feminina em 2025, segundo dados oficiais divulgados em 27 de abril. O crescimento foi particularmente intenso entre mulheres negras, com avanço de 29% nas contratações em grandes empresas desde 2023. Apesar disso, a diferença salarial entre homens e mulheres aumentou no mesmo período. Mulheres receberam, em média, 21,3% a menos que homens em estabelecimentos com 100 ou mais empregados. Os dados constam no 5º Relatório de Transparência Salarial e de Critérios Remuneratórios, divulgado pelos ministérios do Trabalho e Emprego e das Mulheres. ©UOL O levantamento indica que o número de mulheres pretas e pardas empregadas em grandes estabelecimentos passou de 3,2 milhões em 2023 para 4,2 milhões em 2025, um acréscimo superior a 1 milhão de vínculos formais. No total geral, o emprego feminino cresceu 11% no período, saindo de 7,2 milhões para 8 milhões de trabalhadoras. O crescimento ocorre em meio à expansão do emprego formal no país, mas expõe a contradição estrutural entre inclusão produtiva e manutenção de desigualdades históricas no mercado de trabalho. Mesmo com maior presença no emprego formal, as mulheres seguem recebendo menos. Em 2025, a remuneração média feminina ficou 21,3% abaixo da masculina, ampliando a diferença em relação a 2023, quando era de 20,7%. No momento da admissão, o desnível também aumentou: mulheres receberam, em média, 14,3% menos que homens, ante 13,7% dois anos antes. A massa de rendimentos das mulheres subiu de 33,7% para 35,2% no período, ainda distante da proporção de 41,4% que representam no total de empregos formais. A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, afirmou que o debate sobre igualdade salarial vai além de números absolutos. “Quando nós defendemos a igualdade salarial, não estamos defendendo puramente aquele número nominal de valor do salário das mulheres e homens numa empresa. Nós estamos falando da função que essa mulher está, das condições de trabalho em que ela se encontra, dos direitos que ela já tem garantidos e que muitas vezes não são cumpridos”, declarou. Em outra fala, acrescentou: “As mulheres ainda se ressentem muito de todos esses processos que as discriminam, que as inferiorizam, que as subalterniza por vários interesses e, principalmente, pela cultura ainda misógina, machista”. O ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, reforçou que a desigualdade não se limita à remuneração direta. “Não é somente a igualdade de salário na mesma função. Nós estamos falando da necessidade da promoção de valorização das mulheres na ascensão nas carreiras”, afirmou. Segundo ele, a equiparação salarial é apenas “um pedacinho do todo” em um cenário marcado por barreiras estruturais à progressão profissional feminina. A ministra da Igualdade Racial, Rachel Barros, destacou o caráter estratégico do relatório para formulação de políticas públicas. “Esse relatório é um instrumento muito importante para todos nós que buscamos promover igualdade de gênero, igualdade de raça”, disse. Ela ressaltou que mulheres negras continuam concentradas nos piores níveis salariais, mesmo com o aumento das contratações formais, evidenciando a persistência de desigualdades interseccionais no mercado de trabalho. Os dados mostram ainda que o número de empresas com 100 ou mais empregados cresceu 5,5% entre 2023 e 2025, passando de 50,7 mil para 53,5 mil estabelecimentos. No mesmo período, o total de empregos nessas empresas aumentou 7%, de 18 milhões para 19,3 milhões, com maior expansão nas companhias com mais de 2 mil empregados (11,2%) e entre mil e 2 mil empregados (8,2%). O salário médio registrado foi de R$ 4.594,89, enquanto o salário mediano ficou em R$ 2.295,36. A dimensão econômica da desigualdade salarial é significativa. Para que a massa de rendimentos das mulheres corresponda à sua participação no mercado formal, seria necessário ampliar em R$ 95,5 bilhões por ano os salários femininos. Esse ajuste representaria um aumento superior a 10% na massa total de rendimentos do país, evidenciando que a desigualdade de gênero não é apenas uma questão social, mas também econômica. O relatório aponta que a diferença salarial varia conforme o porte das empresas. Em estabelecimentos com até 250 empregados, mulheres recebem cerca de 90% do salário masculino na admissão. Já nas grandes corporações, onde os salários são mais elevados, a desigualdade se amplia, indicando concentração de privilégios nas camadas superiores do mercado de trabalho. Também foi registrado crescimento de 12% no número de empresas com presença feminina suficiente em cargos de liderança para cálculo de paridade salarial, totalizando 13,7 mil estabelecimentos. Houve aumento nas empresas que afirmam adotar políticas de promoção de mulheres e apoio à parentalidade, ainda que esses dados dependam de autodeclaração empresarial. Entre as políticas afirmativas, 7% das empresas declararam manter programas de contratação de mulheres vítimas de violência, com destaque para Minas Gerais e Espírito Santo. Empresas com mais de mil empregados concentram a maior parte dessas iniciativas, indicando que a adoção de medidas de inclusão ainda está fortemente vinculada ao porte econômico das organizações. No recorte regional, Minas Gerais lidera com 34,7% dos estabelecimentos adotando políticas de incentivo à contratação de mulheres. O Espírito Santo aparece com 11,6% das empresas com programas voltados a mulheres vítimas de violência doméstica. Em relação à inclusão de mulheres LGBTQIAP+, os maiores percentuais estão no Espírito Santo (24,6%) e em Minas Gerais (23,3%). Rondônia lidera na contratação de mulheres com deficiência, com 27,1%, enquanto o Pará se destaca na promoção da contratação de mulheres negras, com 24,8% dos estabelecimentos adotando políticas específicas.

  • Governo do Brasil doa terreno em Cubatão (SP) para regularizar moradia de 1.300 famílias

    O Governo do Brasil autorizou em 27 de abril de 2026 a doação de um terreno da União ao município de Cubatão, em São Paulo. A medida visa regularizar a situação fundiária de cerca de 1.300 famílias de baixa renda que ocupam a área há décadas. A formalização ocorreu por meio de duas portarias publicadas no Diário Oficial da União pela Secretaria do Patrimônio da União. O imóvel, com mais de 105 mil metros quadrados, está localizado na Via Anchieta e é conhecido como Vila São José “Velha”. A iniciativa integra o programa federal Imóvel da Gente, que direciona bens públicos para fins sociais. Presidente Lula | ARQUIVO Classificado como terreno de marinha e acrescido, o espaço já é ocupado predominantemente para moradia por famílias em situação de vulnerabilidade, consolidando um histórico de ocupação urbana marcada pela ausência de regularização estatal. Com a doação, a prefeitura de Cubatão passa a ser responsável por conduzir todo o processo de regularização fundiária, incluindo a elaboração do projeto urbanístico, a administração da área e a emissão gratuita dos títulos de propriedade para os moradores. Segundo a secretária do Patrimônio da União, Carolina Stuchi, “a regularização fundiária de interesse social é um instrumento que garante segurança jurídica da moradia para populações de baixa renda que vivem em assentamentos informais em terras públicas”. Ela acrescentou que, ao obter a escritura, “as famílias passam a ter acesso ampliado a direitos, crédito e serviços públicos”, afirmando ainda que “cada destinação para regularização que fazemos é uma expressão do Estado cumprindo seu papel de garantir o direito à moradia digna”. O processo de titulação seguirá critérios definidos em lei: poderão receber a propriedade famílias com renda mensal de até cinco salários mínimos e que não possuam outro imóvel urbano ou rural. As transferências deverão ser feitas preferencialmente em nome das mulheres, conforme diretriz legal voltada à proteção patrimonial familiar. Além disso, os imóveis terão cláusula de inalienabilidade por cinco anos, impedindo sua venda nesse período inicial após a regularização. O município terá prazo de dois anos para concluir o projeto de regularização fundiária, com possibilidade de prorrogação por mais dois anos, evidenciando a complexidade técnica e administrativa do processo em áreas historicamente negligenciadas pelo planejamento urbano estatal. A medida ocorre em um contexto mais amplo de políticas públicas que buscam enfrentar o déficit habitacional e a informalidade fundiária em regiões metropolitanas marcadas por desigualdade estrutural. De acordo com dados oficiais do programa Imóvel da Gente, desde janeiro de 2023 foram realizadas 1.697 destinações de imóveis da União em 610 municípios brasileiros, abrangendo todas as capitais. No eixo específico de regularização fundiária urbana, cerca de 50 imóveis já foram destinados, com potencial de beneficiar mais de 387 mil famílias em todo o país, evidenciando a dimensão nacional da política e seu impacto sobre populações historicamente excluídas do acesso formal à terra urbana.

  • Meios de comunicação reduzem cobertura de feminicídios em contraste com aumento dos crimes

    A cobertura midiática sobre violência contra mulheres atingiu em 2025 o nível mais baixo em quase uma década, segundo levantamento internacional divulgado em 27 de abril de 2026. O estudo analisou 1,14 bilhão de artigos publicados entre 2017 e 2025 e identificou que apenas 1,3% das notícias trataram do tema no último ano. O dado contrasta com a persistência e a escala global das agressões de gênero, que seguem afetando milhões de mulheres. A retração ocorre paralelamente ao avanço de discursos antifeministas organizados em escala internacional. As informações foram publicadas pela plataforma Planeta Ella, com base no relatório The Global Misogyny News Coverage Tracker e reportagem de Ana Carbajosa, do El País. Dados da Organização das Nações Unidas indicam que quase uma em cada três mulheres já sofreu violência física ou sexual ao menos uma vez na vida O levantamento indica uma queda significativa em relação a 2018, período marcado pelo auge do movimento #MeToo, quando a cobertura atingiu seu ponto mais alto. Mesmo diante de casos de grande repercussão internacional nos anos seguintes, como os abusos sistemáticos envolvendo Jeffrey Epstein e as violações sofridas por Gisèle Pelicot, a presença do tema na agenda midiática não acompanhou a gravidade dos fatos. O relatório não apenas quantifica a redução da cobertura, mas também aponta distorções estruturais na forma como a violência é retratada. A análise revela que a perspectiva predominante continua sendo masculina: para cada mulher citada nas reportagens, quase quatro homens têm voz. Além disso, as narrativas tendem a priorizar os agressores, relegando as sobreviventes a posições secundárias e frequentemente omitindo o contexto social, político e econômico que sustenta essas violências. Em termos globais, a dimensão do problema permanece alarmante. Dados da Organização das Nações Unidas indicam que quase uma em cada três mulheres já sofreu violência física ou sexual ao menos uma vez na vida. Apesar disso, a cobertura jornalística não reflete essa magnitude, contribuindo para um processo de invisibilização que acompanha estruturas históricas de poder. O ambiente digital intensifica esse cenário. O relatório destaca o uso crescente de tecnologias como inteligência artificial para a exploração e abuso de menores, além do aumento nas buscas por ajuda relacionadas à violência doméstica. Esses indicadores sugerem não apenas a continuidade, mas a ampliação das formas de violência em contextos contemporâneos marcados por plataformas digitais e vigilância algorítmica. Paralelamente, discursos antifeministas ganham força e organização. As menções à chamada “ideologia de gênero” cresceram 42 vezes entre 2020 e 2025, frequentemente impulsionadas por campanhas coordenadas. Esse avanço ocorre em sintonia com dinâmicas políticas globais que combinam conservadorismo social, desinformação e estratégias de mobilização digital. O relatório caracteriza o fenômeno como um processo de silenciamento estrutural: a violência não diminui, mas sua visibilidade pública é reduzida e distorcida. Nesse contexto, iniciativas de comunicação feminista são apontadas como ferramentas essenciais para enfrentar a subnotificação e produzir narrativas que evidenciem as raízes estruturais da violência contra mulheres, lésbicas, travestis e pessoas trans. Os dados e análises foram compilados pelo The Global Misogyny News Coverage Tracker e divulgados pela plataforma Planeta Ella, com base em informações da jornalista Ana Carbajosa, do jornal El País.

  • Parlamentar pede desarmamento da extrema direita alemã após relatório apontar mais de 400 armas ligadas ao partido AfD

    O estado alemão da Saxônia passou a revogar e negar licenças de porte de armas a apoiadores do partido Alternativa para a Alemanha (AfD) com base em um decreto interno não divulgado publicamente. A medida, emitida em julho de 2025, foi confirmada pelo Ministério do Interior regional, que classificou o documento como “interno” e recusou sua publicação. A informação foi revelada pelo jornal Berliner Zeitung em 27 de abril de 2026. O decreto parte do pressuposto de que membros e simpatizantes do AfD podem ser considerados inaptos para possuir armas de fogo. A decisão ocorre em um contexto de crescimento eleitoral do partido, que alcança 27% das intenções de voto segundo pesquisa recente. Membros e simpatizantes do AfD podem ser considerados inaptos para possuir armas de fogo | Imago _ Herrmann_ Agenturfotografie O conteúdo do decreto estabelece que a “idoneidade” de membros e apoiadores do AfD deve ser reavaliada à luz da legislação alemã sobre armas, invertendo o ônus da prova ao exigir que os indivíduos demonstrem sua confiabilidade. De acordo com o texto citado pelo Berliner Zeitung, não possuir antecedentes criminais deixa de ser suficiente, sendo necessário que o cidadão comprove distanciamento político das posições do partido para manter ou obter uma licença. A medida tem como base a classificação da seção do AfD na Saxônia como organização “extremista de direita confirmada”, designação atribuída pelos serviços de inteligência regionais em dezembro de 2023. O partido contestou judicialmente essa classificação, mas teve seu recurso rejeitado por um tribunal superior em janeiro de 2025. Em maio do mesmo ano, a agência de inteligência interna da Alemanha (BfV) estendeu a classificação ao AfD em âmbito nacional, ampliando o respaldo institucional para ações como a adotada pelo governo saxão. O avanço dessas restrições ocorre paralelamente ao crescimento político do AfD, que tem consolidado apoio com uma plataforma contrária à imigração, crítica às sanções impostas por Berlim contra a Rússia e oposta ao apoio militar à Ucrânia — alinhamentos que tensionam o consenso político dominante na União Europeia, fortemente influenciado por diretrizes estratégicas do eixo estadunidense-europeu. A existência do decreto provocou reação no parlamento estadual. O deputado independente Matthias Berger iniciou uma investigação para apurar o alcance da medida, questionando quantas licenças foram efetivamente revogadas, quantas decisões se basearam exclusivamente em “apoio político” e como a diretriz vem sendo aplicada na prática. Até o momento, as autoridades não responderam oficialmente aos questionamentos. Berger criticou a amplitude da medida ao declarar ao Berliner Zeitung: “Não é possível que pessoas que comparecem a um evento da AfD por interesse político, sentem-se lá duas vezes e depois tenham que esperar que sua licença de porte de armas seja revogada”. A fala evidencia o potencial impacto da política sobre direitos civis básicos, ao vincular restrições legais a critérios políticos subjetivos. A decisão do governo da Saxônia expõe uma contradição crescente nas democracias europeias: enquanto proclamam a defesa de liberdades civis no cenário internacional, especialmente em alinhamento com a política externa estadunidense, adotam internamente mecanismos de vigilância e restrição baseados em posicionamentos políticos, ampliando o poder estatal sobre direitos individuais sob a justificativa de segurança e combate ao extremismo. A resposta oficial do Ministério do Interior da Saxônia à investigação parlamentar segue pendente.

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