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Refugiados na África Oriental e Austral vivem décadas em exílio

Milhões de refugiados seguem vivendo em situação de deslocamento prolongado na África Oriental e Austral, segundo relatório divulgado pela Agência das Nações Unidas para Refugiados. Os dados mostram que o exílio deixou de ser uma condição temporária para grande parte da população deslocada pela guerra, instabilidade política e perseguições na região. Ao final de 2025, 6,4 milhões de pessoas permaneciam registradas como refugiados ou solicitantes de asilo em países da África Oriental e Austral.


Crianças sentam-se ao lado de seu abrigo em Goudebou, um campo que acolhe mais de 11 mil refugiados malinenses no norte de Burkina Faso em 20 de junho de 2021. Foto: OLYMPIA DE MAISMONT/AFP  Getty Images
Crianças sentam-se ao lado de seu abrigo em Goudebou, um campo que acolhe mais de 11 mil refugiados malinenses no norte de Burkina Faso em 20 de junho de 2021. Foto: OLYMPIA DE MAISMONT/AFP Getty Images

O levantamento do Acnur analisou registros acumulados entre 2001 e 2025 e concluiu que os deslocamentos forçados na região tendem a se estender por anos e, em muitos casos, por décadas. O estudo indica que três em cada quatro refugiados continuam fora de seus países de origem mesmo após cinco anos do início da emergência que provocou sua saída.


A maior parte desses deslocamentos está associada a conflitos armados, crises políticas e perseguições registradas em países como Sudão, Sudão do Sul e Somália. Em diversos casos, as condições que motivaram a fuga permanecem sem solução, impedindo o retorno seguro das populações afetadas.


O diretor regional do Acnur para a África Oriental e Austral, Mamadou Dian Balde, afirmou que a permanência prolongada dos refugiados exige respostas que ultrapassem a assistência humanitária emergencial.


Segundo Balde, pessoas que vivem anos ou décadas em exílio necessitam de acesso a oportunidades que permitam reconstruir suas vidas. Ele defendeu que o retorno aos países de origem seja apoiado quando existirem condições de segurança e que, nos demais casos, sejam garantidos meios de acesso à educação e ao mercado de trabalho.


Os dados reunidos pelo Acnur apontam que crianças e jovens estão entre os grupos mais afetados pelos deslocamentos prolongados. O relatório registra que refugiados cadastrados antes dos cinco anos de idade permanecem em situação de asilo por uma média superior a 18 anos.


A agência das Nações Unidas destaca que os impactos sociais e econômicos sobre mulheres e crianças podem atravessar gerações. A permanência prolongada em campos de refugiados ou em condições de dependência da assistência humanitária tende a criar ciclos sucessivos de vulnerabilidade entre famílias deslocadas.


O estudo também analisou situações envolvendo refugiados originários de Angola e Moçambique. Os dados mostram períodos de deslocamento inferiores aos observados em outras nacionalidades da região.


Entre os angolanos refugiados na Namíbia, o tempo médio de permanência em situação de asilo é de 3,5 anos. No caso dos angolanos acolhidos pela Zâmbia, a média registrada é de 1,2 ano.


Já os refugiados moçambicanos instalados no Malawi permanecem em situação de asilo por cerca de 2,4 anos, segundo o levantamento.


Esses períodos contrastam com os registrados para outras populações deslocadas da região. O relatório cita o caso de refugiados somalis acolhidos na Eritreia, cuja permanência em exílio pode alcançar quase uma década.


De acordo com a análise do Acnur, os períodos menores observados entre refugiados angolanos e moçambicanos estão relacionados a processos de estabilização política e acordos que permitiram o retorno de parte dessas populações aos seus países de origem após ciclos de conflito registrados em décadas anteriores.


O relatório também destaca que países da África Oriental e Austral continuam recebendo populações deslocadas apesar das pressões econômicas, sociais e estruturais enfrentadas pelos próprios Estados anfitriões.


Segundo o Acnur, o desafio atual consiste em transformar a proteção oferecida pelos países de acolhimento em políticas capazes de garantir condições permanentes para a integração dos refugiados.


A agência defende que governos, instituições financiadoras e o setor privado ampliem investimentos em educação, qualificação profissional, acesso ao emprego e inclusão social para populações deslocadas, permitindo que refugiados possam reconstruir suas vidas nos locais onde vivem enquanto não existem condições para o retorno aos seus países de origem.

 
 

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