ONU: Alta demanda por minerais críticos está remodelando comércio global
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A demanda por minerais críticos utilizados em veículos elétricos, inteligência artificial, semicondutores e sistemas de energia renovável está reconfigurando as relações comerciais internacionais e ampliando a disputa pelo controle de recursos estratégicos. Relatório divulgado pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad) em 12 de junho aponta que governos intensificam medidas para garantir acesso a matérias-primas consideradas centrais para a transição energética e para a economia digital. O avanço dessas políticas ocorre em meio à crescente competição entre potências industriais pelo domínio das cadeias globais de fornecimento e processamento mineral.

Segundo a Unctad, o comércio de minerais críticos ocupa posição central nas estratégias industriais adotadas por diversos Estados diante da expansão dos setores de inteligência artificial, energia renovável, armazenamento de energia e mobilidade elétrica. O relatório examina a resposta dos governos ao crescimento da demanda por cobre, níquel, lítio, cobalto, grafite e elementos de terras raras, matérias-primas empregadas em baterias, centros de dados, painéis solares, turbinas eólicas e semicondutores.
Os dados apresentados pela agência indicam uma transformação acelerada do mercado global. A demanda por lítio deverá crescer mais de 350% até 2040, enquanto a procura por grafite poderá aumentar mais de 130% no mesmo período. Para a Unctad, a questão não se limita ao crescimento do consumo desses recursos, mas envolve também a localização das reservas, o controle do processamento industrial e a distribuição dos ganhos econômicos ao longo das cadeias produtivas.
O relatório destaca que a produção mundial continua concentrada em poucos países. Em 2025, a República Democrática do Congo respondeu por 74% da produção global de cobalto extraído em minas. No mesmo período, a China concentrou 78% da produção mundial de grafite natural. Austrália, Chile e China foram responsáveis por mais de 70% da produção global de lítio.
A concentração torna-se ainda mais acentuada nas etapas de refino e processamento, onde são geradas parcelas maiores do valor econômico associado aos minerais. A China mantém posição dominante no processamento de diversos minerais críticos utilizados pela indústria tecnológica e energética. A Indonésia responde por 43% da capacidade global de refino de níquel, consolidando posição relevante na cadeia internacional desse insumo.
A estrutura atual do mercado reproduz uma divisão internacional do trabalho observada historicamente na exploração de recursos naturais. Países detentores de reservas minerais continuam exportando matérias-primas, enquanto atividades de transformação industrial, manufatura e incorporação tecnológica permanecem concentradas em centros industriais capazes de controlar as etapas de maior valor agregado.
Diante desse cenário, governos passaram a utilizar instrumentos de política comercial para assegurar acesso aos recursos estratégicos e ampliar sua participação nas cadeias produtivas. A Unctad registra que, desde 2020, quase 100 medidas relacionadas à exportação de minerais críticos foram implementadas em diferentes países.
Entre essas medidas estão sistemas de licenciamento, impostos sobre exportações e restrições comerciais. República Democrática do Congo, China e Indonésia aparecem entre os países que mais recorreram a esse tipo de mecanismo para administrar a exploração e a comercialização de seus recursos minerais.
Paralelamente às restrições comerciais, cresce o número de acordos internacionais voltados ao setor mineral. A Unctad identificou 73 instrumentos de cooperação e parceria relacionados a minerais críticos. Desse total, 58 foram assinados nos últimos quatro anos.
Os acordos deixaram de se limitar à extração mineral e passaram a abranger todas as etapas da cadeia produtiva, incluindo exploração geológica, mineração, refino, processamento industrial, fabricação de componentes tecnológicos e reciclagem de materiais estratégicos.
Para a agência da ONU, essa expansão simultânea de restrições comerciais e acordos bilaterais cria o risco de fragmentação do sistema internacional de comércio. A multiplicação de normas, padrões regulatórios e mecanismos distintos de cooperação pode elevar custos operacionais e aumentar a complexidade dos investimentos internacionais.
A Unctad alerta que esse cenário pode pressionar países em desenvolvimento a escolher entre blocos econômicos concorrentes, reduzindo sua margem de atuação e condicionando sua inserção internacional aos interesses das potências industriais que disputam acesso aos recursos estratégicos.
O relatório sustenta que uma coordenação internacional mais ampla poderia reduzir barreiras, aumentar a previsibilidade dos fluxos comerciais e ampliar as possibilidades de desenvolvimento para países produtores de matérias-primas. Segundo a agência, o debate central consiste em definir se os minerais críticos serão utilizados como instrumentos de disputa geopolítica ou como base para mecanismos internacionais de cooperação econômica.
A discussão ocorre em um contexto de expansão simultânea da inteligência artificial, da eletrificação dos transportes e da transição energética global, processos que elevam a dependência das economias industriais em relação a minerais concentrados em um número reduzido de países produtores.












































