Movimentos separatistas desafiam unidade dos EUA e do Canadá em novo cenário de tensão política
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Tramitações legislativas, campanhas por referendos e propostas de secessão avançam em diferentes regiões dos Estados Unidos e do Canadá. Os movimentos alegam divergências econômicas, políticas e territoriais com governos centrais que consideram distantes de seus interesses. O cenário se desenvolve em meio a disputas internas ampliadas durante o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

A atividade de grupos separatistas voltou a ganhar visibilidade nos Estados Unidos, onde organizações políticas, autoridades locais e movimentos regionais defendem desde alterações de fronteiras estaduais até a criação de novos países independentes. Reportagem publicada pelo jornal estadunidense The New York Times relatou que iniciativas desse tipo estão sendo articuladas em estados do Oeste, do Sul e do Centro-Oeste do país, enquanto propostas semelhantes também avançam no Canadá.
No estado de Washington, a organização Cascadia Democratic Action, sediada em Seattle, trabalha para organizar consultas populares em Washington e Oregon com o objetivo de criar uma entidade política denominada Cascadia. O projeto prevê a separação dos Estados Unidos em 2028 caso não ocorram mudanças na relação entre os governos estaduais da região e Washington.
Andrew Engelson, dirigente da organização, afirmou ao The New York Times que o relacionamento entre a região e o governo federal se tornou insustentável. “Temos uma relação abusiva com o governo federal. O divórcio é uma resposta válida”, declarou.
Outra iniciativa em andamento envolve a campanha conhecida como Greater Idaho. O movimento busca transferir condados do leste do Oregon para o estado de Idaho. De acordo com o jornal, a proposta já recebeu aprovação em referendos realizados em 13 condados.
Os defensores da mudança argumentam que o leste do Oregon ocupa aproximadamente dois terços do território estadual, embora concentre entre 10% e 15% da população. Eles sustentam que existe uma diferença política e econômica entre as áreas rurais da região e os centros urbanos localizados na parte ocidental do estado.
Dan Joyce, juiz do condado de Malheur, afirmou que os moradores da região não se sentem representados pelas autoridades estaduais. “Eles simplesmente não entendem aqueles de nós que vivem do outro lado das montanhas”, declarou.
Segundo o The New York Times, iniciativas semelhantes surgem em outras partes do país. Parlamentares de Indiana aprovaram um projeto convidando condados de Illinois a se incorporarem ao estado vizinho. Na Virgínia Ocidental, um senador estadual apresentou proposta para que 30 condados localizados em áreas fronteiriças da Virgínia e de Maryland passem a integrar seu estado.
No Texas e na Califórnia, grupos políticos também defendem projetos de independência. O jornal informou que alguns legisladores do interior californiano discutem a divisão da Califórnia em duas ou três unidades administrativas distintas. No sudeste do Novo México, ativistas promovem a incorporação da região ao Texas.
O fenômeno não se limita aos Estados Unidos. No Canadá, a província de Alberta prepara um referendo previsto para outubro de 2026 sobre a possibilidade de se separar da federação canadense.
Alberta concentra parte da produção petrolífera canadense e abriga setores políticos que contestam políticas adotadas pelo governo federal em Ottawa. A proposta separatista ganhou espaço após anos de disputas relacionadas à exploração de recursos energéticos, tributação e distribuição de receitas.
Reportagens publicadas pelo Financial Times e pela Bloomberg relataram que integrantes do governo do presidente Donald Trump mantiveram contatos com grupos favoráveis à independência de Alberta. Segundo os veículos, as conversas abordaram cenários posteriores a uma eventual separação da província canadense.
As mesmas reportagens afirmaram que foi discutida a hipótese de um empréstimo de US$ 50 bilhões para financiar despesas de transição entre uma eventual independência e uma possível incorporação de Alberta aos Estados Unidos como um "51º estado". Não existe acordo formal anunciado nesse sentido.
As iniciativas surgem em meio ao aprofundamento de disputas políticas e econômicas em ambos os países. O debate envolve questões relacionadas à distribuição de recursos públicos, autonomia regional, políticas energéticas, representação política e competências dos governos centrais.
O pesquisador Semir Dzebo, da Universidade de Oxford, afirmou ao The New York Times que movimentos separatistas costumam ganhar força quando diferenças culturais e políticas passam a ser percebidas como fatores que produzem consequências econômicas. “O que impulsiona esses movimentos é quando esse sentimento de ser diferente tem consequências econômicas”, declarou.
O cientista político Ryan Griffiths, da Universidade de Syracuse e autor do livro Os Estados Desunidos, publicado em 2025, afirmou que o separatismo passou a refletir o ambiente político existente nos Estados Unidos. Segundo ele, apoiadores dessas iniciativas pertencem a correntes ideológicas distintas, mas compartilham críticas semelhantes ao funcionamento das instituições federais.
Griffiths observou que muitos defensores desses projetos afirmam que o governo federal interfere em suas vidas, não responde às demandas locais e se encontra distante das populações regionais.
Apesar do crescimento da discussão pública, os obstáculos jurídicos permanecem significativos. Em decisão de 1869, a Suprema Corte dos Estados Unidos estabeleceu que estados não possuem direito de se retirar unilateralmente da União. Alterações de fronteiras estaduais dependem de aprovação dos estados envolvidos e também do Congresso estadunidense.
O aumento da insatisfação política nos Estados Unidos ocorre em um contexto marcado por disputas sobre imigração, política externa e custos econômicos associados ao envolvimento militar do país. O debate também se intensificou após a escalada das tensões entre Washington e Teerã, que provocou alta nos preços internacionais do petróleo e ampliou discussões sobre os impactos econômicos das operações militares para a população estadunidense.












































