estados químicos da américa: EUA retomam arsenal químico usado no Vietnã
- Lucas Siqueira

- há 3 dias
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O Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos abriu processo para adquirir até US$ 50 milhões em armamentos químicos classificados como menos letais. Documentos analisados pelo The Intercept em 3 de abril de 2026 revelam a intenção de comprar mais de 123 tipos de munições distribuídas em 10 categorias distintas. A iniciativa ocorre após meses de uso reiterado desses dispositivos contra manifestantes em cidades como Chicago e Portland. A documentação contratual indica que a Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos planeja adquirir um amplo arsenal que inclui granadas químicas, sprays, projéteis de impacto, dispositivos explosivos de distração e sistemas de dispersão em massa. O valor estimado chega a US$ 50 milhões, destinado à compra de munições classificadas como “menos letais”, termo técnico utilizado para descrever armamentos projetados para incapacitar sem necessariamente causar morte, embora evidências empíricas indiquem elevado potencial letal em condições reais de uso.
Segundo os documentos obtidos pelo The Intercept, a agência busca fornecedores capazes de entregar grandes volumes de 123 tipos distintos de munições, abrangendo 10 categorias operacionais. A escala da aquisição inclui mais de 242 mil unidades de “recipientes pirotécnicos entregues manualmente” e mais de 100 mil cartuchos de munições de impacto disparadas por lançadores, frequentemente comparados a armas de granada. Também estão previstos 13 mil dispositivos de distração capazes de emitir sons de até 175 decibéis, intensidade superior a disparos de armas de fogo ou motores de aeronaves a jato.
A médica de emergência e pesquisadora Rohini Haar, citada pelo The Intercept, destacou a amplitude e complexidade do arsenal. “A quantidade e a variedade de armas são o que mais me impressionam. Quando existem tantos tipos diferentes, isso nos leva a questionar, taticamente, qual é o objetivo?”, afirmou. Haar também questionou a capacidade do Departamento de Segurança Interna de treinar adequadamente agentes para operar sistemas com especificações técnicas distintas. “Algumas são granadas de mão que você precisa saber como arremessar, mas sem atingir a cabeça das pessoas. Outras são disparadas por uma arma, como um lançador, e por isso você precisa ficar mais longe do que ficaria com uma granada comum”, explicou.
Entre os principais componentes da compra estão agentes químicos amplamente utilizados em repressão a protestos: o clorobenzalmalononitrila (CS) e a oleorresina de pimenta (OC). O gás CS, historicamente empregado pelas forças armadas estadunidenses durante a guerra do Vietnã consolidou um dos capítulos mais documentados de emprego massivo dessas substâncias em contexto de guerra moderna.
No Vietnã o gás CS (clorobenzalmalononitrila) foi empregado para desalojar combatentes de túneis e áreas densamente ocupadas, e herbicidas como o Agente Laranja, utilizados em larga escala para destruir florestas e plantações. Essas operações não se limitaram a alvos militares, atingindo diretamente populações civis e ecossistemas inteiros, com impactos prolongados sobre a saúde humana e o ambiente.
Os efeitos desses agentes ultrapassaram o objetivo declarado de incapacitação temporária. A exposição ao gás CS provocava ardência intensa, cegueira temporária, dificuldades respiratórias e, em casos mais graves, danos pulmonares permanentes. Já os herbicidas químicos utilizados na pulverização aérea resultaram em contaminação ambiental de larga escala, associada a doenças crônicas e a um aumento significativo de malformações congênitas ao longo de gerações. Estudos posteriores documentaram que esses efeitos persistem décadas após o fim do conflito.
Após a derrota militar no Vietnã, operações de pulverização química continuaram a impactar áreas agrícolas, contribuindo para a destruição de meios de subsistência e aprofundando a crise humanitária em regiões já devastadas pela guerra. A utilização sistemática dessas substâncias levou à ampliação de pressões internacionais por restrições legais, culminando na proibição do uso de determinados agentes químicos em conflitos armados sob convenções internacionais. Ainda assim, substâncias como o gás CS permaneceram autorizadas para uso interno por forças de segurança dos EUA, estabelecendo uma distinção jurídica que permite sua aplicação contra populações civis fora do contexto formal de guerra.
Esse histórico sustenta o debate contemporâneo sobre a reintrodução e ampliação do uso de armamentos químicos classificados como “menos letais” em operações domésticas nos Estados Unidos. Embora enquadradas como ferramentas de controle, essas substâncias mantêm o mesmo princípio ativo e efeitos fisiológicos documentados em cenários de guerra. Sem contar que abrem um precedente "legal", afinal, se um governo é capaz de usar esse tipo de arma em sua própria população, o que não faria em uma guerra, como no caso do Irã?
Não se pode ignorar que foi sob o pretexto da existência de “armas químicas de destruição em massa” que os EUA justificaram a invasão do Iraque em 2003.

Os documentos revelam múltiplos sistemas de dispersão desses agentes, incluindo recipientes líquidos de até um litro destinados a nebulizadores térmicos. Esses dispositivos geram névoas químicas com partículas microscópicas capazes de se espalhar rapidamente em grandes áreas. A empresa Defense Technology, fornecedora tradicional dessas tecnologias para a Alfândega e Proteção de Fronteiras e para o sistema de imigração estadunidense, afirma que seu equipamento Golden Eagle pode produzir até 100 mil pés cúbicos de gás em apenas 26 segundos.
Além dos efeitos imediatos — ardência intensa, dificuldade respiratória e incapacidade temporária —, estudos científicos apontam impactos mais duradouros. Pesquisa publicada em 2023 pela Escola de Saúde Pública da Universidade de Minnesota identificou associação significativa entre exposição a agentes químicos e problemas de saúde reprodutiva, incluindo cólicas uterinas, sangramento menstrual precoce, sensibilidade mamária e atrasos no ciclo menstrual.
A lista de aquisição inclui ainda 12 variações de granadas de gás lacrimogêneo, quatro tipos de granadas de fumaça colorida e munições de impacto com ponta de espuma, conhecidas como “cartuchos de esponja”. Esses projéteis podem liberar agentes químicos ao atingir o alvo ou causar danos físicos por força cinética. Em contextos urbanos, seu uso tem resultado em ferimentos graves.
Casos documentados reforçam os riscos. Em janeiro de 2026, o manifestante Kaden Rummler perdeu a visão do olho esquerdo após ser atingido no rosto por um disparo de agente federal durante protesto contra políticas migratórias. No verão anterior, um manifestante em Los Angeles sofreu fratura severa na mandíbula após ser atingido diretamente no rosto por projétil semelhante disparado pela polícia local, necessitando cirurgia e imobilização por seis semanas.
Os dispositivos de distração previstos na compra operam com intensidades sonoras potencialmente incapacitantes. A Associação Nacional de Conservação Auditiva alerta que exposições a 140 decibéis podem causar danos permanentes, enquanto níveis próximos a 180 decibéis provocam destruição de tecido auditivo. Segundo publicação de 2023 da organização Médicos pelos Direitos Humanos, tais dispositivos também podem gerar lesões pulmonares, ruptura de tímpanos e traumas decorrentes da onda de choque.
Outro ponto de preocupação é a inclusão de granadas de dispersão de borracha, que liberam múltiplos fragmentos ao serem detonadas. O pesquisador Scott Reynhout, coautor do estudo da Médicos pelos Direitos Humanos, comparou esses dispositivos a “chumbo de borracha” devido à sua capacidade de espalhar projéteis em diversas direções. Ele destacou que essas armas ainda não foram amplamente utilizadas pela Alfândega e Proteção de Fronteiras em protestos, o que amplia a incerteza sobre seus efeitos em larga escala.
Reynhout citou precedentes internacionais para ilustrar os riscos. No Chile, há seis anos, o uso de munições semelhantes pelas forças de segurança resultou em mais de 400 casos de cegueira parcial ou total entre manifestantes. Dispositivos comparáveis também são empregados por forças de segurança e unidades paramilitares iranianas em operações de repressão interna.
Entre os itens previstos na aquisição estão mais de 12 mil unidades de “munições de ferrão”, projéteis capazes de perfurar superfícies como vidro, madeira e paredes antes de liberar agentes químicos. Rohini Haar alertou para o potencial letal desses dispositivos ao afirmar: “Se consegue atravessar vidro, aglomerado e paredes, consegue atravessar um corpo.”














































